COMIDA
06/09/2018 10:57 -03 | Atualizado 06/09/2018 10:57 -03

Alimentos com adição de colágeno: será que eles são realmente necessários?

Se você já tem uma dieta balanceada, não precisa se preocupar.

puhhha via Getty Images

Há muito tempo associamos colágeno com procedimentos estéticos como o preenchimento labial. E, no mundo dos produtos de beleza, o colágeno pode ser encontrado em cremes, máscaras e até mesmo em roupas.

Nos últimos anos, o colágeno vem aparecendo também em comidas e bebidas, de barrinhas de proteína a pó de matcha e suplementos.

Em 2025, o mercado de colágeno vai chegar a 6,63 bilhões de dólares. Neste ano, estima-se que os consumidores americanos gastem cerca de 122 milhões de dólares em produtos com colágeno.

Mas será que vale a pena investir tempo e dinheiro para ingerir colágeno? Conversamos com especialistas para descobrir como os alimentos com adição de colágeno afetam nossa dieta. Aparentemente, há poucas evidências de que eles valham a pena se você já tem uma dieta balanceada.

Antes de tudo: o que é o colágeno?

O colágeno é a forma de proteína mais comum no organismo humano e tem papel importante na formação dos tecidos conjuntivos. Eugene Kang, co-fundador e presidente da Country Archer, empresa que produz carne seca, explica: "Pense no colágeno como uma cola que une as partes do nosso corpo. Ela ajuda a formar músculos, ossos, cabelo, unhas e tecidos fortes".

O colágeno é encontrado nos músculos, nos ossos, na pele, nas veias e artérias e nos tendões. Observe que o colágeno usado em alimentos é extraído de membranas de peixes, bovinos e aves (a gelatina é uma forma de colágeno). Então, se você é vegetariano ou vegano, melhor não consumir os produtos com adição de colágeno.

Os rótulos podem criar confusão. Tanto em itens de beleza quanto em alimentos, os produtos que afirmam conter colágeno na realidade contêm ingredientes que estimulam a produção do colágeno. Portanto, se um produto diz conter colágeno vegetariano ou vegano, saiba que essa afirmação é falsa – provavelmente se trata de algum ingrediente que estimula sua produção.

E a realidade é que tanto o colágeno quanto os ingredientes que incentivam sua produção já estão presentes nos alimentos, como caldos (preparados com ossos), salmão, verduras, ovos, frutas silvestres, sementes de abóbora, algas, sementes de chia e abacate. Até mesmo a vitamina C estimula naturalmente a produção de colágeno.

Por que o interesse recente em alimentos com adição de colágeno?

Jordan Mazur é nutricionista do time de futebol americano San Francisco 49ers e diz que muita gente está ficando ciente dos benefícios do colágeno, especialmente seus atletas. Mas eles provavelmente não se dão conta de que o colágeno já faz parte de suas refeições.

"Trabalho com muitos atletas de elite, e existem algumas pesquisas preliminares que indicam um fortalecimento dos ligamentos e das articulações", afirma Mazur. "Se o colágeno melhora a saúde da pele e potencialmente reduz rugas, naturalmente haverá apelo para a maioria das pessoas, especialmente os adultos mais velhos. Para os atletas, o interesse é na potencial melhoria da performance e na diminuição do risco de lesões."

Em resposta a essa demanda, as empresas estão inundando o mercado com alimentos com adição de colágeno.

Em março, a Country Archer lançou três barras de proteína animal com adição de colágeno. Kang acredita que seus produtos são os primeiros do tipo a conter colágeno adicionado. Mas a Country Archer não está sozinha nessa tendência.

A Bulletproof, empresa que adiciona óleos saudáveis no café, produz barrinhas – de chocolate e limão – com adição de colágeno. A empresa também vende colágeno em pó em três variações: chocolate, baunilha e sem sabor.

A Primal Kitchen usa colágeno bovino hidrolizado em suas barrinhas de proteína e em pó; A Vital Protein tem uma linha de pó de matcha (chá típico japonês). A Ancient Nutrition criou um pó para a preparação de caldos à base de ossos, com adição de colágeno de galinha.

Quanto colágeno devemos comer, e de quais fontes?

Kang afirma que o colágeno deve vir tanto de alimentos naturais quanto de produtos enriquecidos, mas sua ênfase é no segundo tipo.

Mas Jennifer MacGregor, dermatologista da Union Square Laser Dermatology, de Nova York, diz que não é bem assim. "Quem come alimentos ricos em proteínas provavelmente não precisa de colágeno extra, pois não há evidências científicas de qualidade de que isso vai manter ou garantir a síntese de mais colágeno pelo organismo. Dito isso, todo mundo precisa das vitaminas e proteínas adequadas."

Como saber quanto colágeno estamos ingerindo com esses alimentos enriquecidos? Alguns rótulos não ajudam.

O matcha da Vital Proteins, por exemplo, diz conter 10 g de colágeno por pacote. Mas os outros produtos mencionados acima listam apenas a quantidade de proteína em seus produtos, não a de colágeno.

Como o Departamento de Agricultura americano não faz recomendações em relação à ingestão diária de colágeno, a melhor opção é manter-se dentro dos parâmetros de consumo diário de proteínas. Os requerimentos variam de acordo com sua idade e estilo de vida (eis aqui uma ferramenta para ajudar no cálculo.

Mazur, por sua vez, sugere que consumir entre 10 e 20 gramas de colágeno por dia pode trazer benefícios.

"O importante a lembrar em relação às proteínas é que elas não ficam armazenadas no corpo. O excesso é evacuado naturalmente. O melhor é distribuir o consumo de proteínas ao longo do dia, para maximizar o aproveitamento", afirma o nutricionista.

"Ter peptídeos extra de bobeira não significa que você vai produzir mais colágeno", diz MacGregor. "Na realidade, os petpítdeos não-utilizados serão convertidos em gordura e armazenados na forma de gordura, como todas as outras calorias em excesso."

O colágeno é realmente importante para a saúde?

"Se você olhar as pesquisas, há um número crescente de estudos que apontam os benefícios do colágeno", diz Mazur. "Em um estudo de 2009, os participantes ingeriram suplemento de colágeno tipo II [encontrado em cartilagens]. Os resultados indicam que os sintomas de osteoartrite foram reduzidos em 33%. Outro estudo, de 2014, com 46 mulheres escolhidas aleatoriamente de um grupo de 69, de idades entre 35 e 55 anos, envolveu o consumo de suplemento de colágeno hidrolisado. As mulheres que tomaram o suplemento tiveram melhora na elasticidade da pele depois de quatro semanas. A eficácia do consumo de colágeno na forma de suplementos vai depender de cada indivíduo, sua idade e seu estilo de vida."

Se você quer saber se o colágeno vai ajudar a melhorar a pele, Mary Stevenson, professora assistente de dermatologia da Universidade de Nova York, disse previamente ao HuffPost: "Não temos bons dados para sugerir que a ingestão de colágeno signifique que ele vá chegar à sua pele. Quando você ingere proteínas, elas são quebradas em aminoácidos, e o organismo absorve os nutrientes de que precisa. Em termos gerais, a menos que você tenha deficiência proteica, o corpo é incrivelmente eficiente: absorve o que é necessário e descarta o que é supérfluo."

Apesar de alguns estudos indicarem que suplementos de colágeno e alimentos enriquecidos com colágeno funcionam para certas pessoas, uma dieta balanceada parece um caminho mais certo.

"Com base na literatura científica, minha preferência é recomendar uma dieta paleolítica, com menos grãos e basicamente nenhuma comida ou grão processado", diz MacGregor.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.