ENTRETENIMENTO
04/09/2018 10:43 -03 | Atualizado 04/09/2018 10:52 -03

'Podres de Ricos' não é sobre pessoas brancas. Por isso todas elas deveriam ver o filme

Hollywood ajuda a moldar a visão que temos das pessoas, e há muito tempo ela nos mostra retratos estereotipados de asiáticos.

Há anos os produtores e estúdios vêm sugerindo que filmes que giram em torno de pessoas não brancas simplesmente não atraem grande interesse das plateias.

Tome-se o caso de Ridley Scott. Criticado por chamar atores brancos para estrelar Êxodo: Deuses e Reis, ele respondeu dizendo: "Não tenho como produzir um filme com este orçamento, para o qual dependo de incentivos fiscais na Espanha, e dizer que meu ator principal é Mohammad não sei quem, de não sei qual país".

Ou o produtor de Quebrando a Banca, Dana Brunetti, explicando que "teria adorado chamar atores asiáticos para os papéis principais, mas a verdade é que não tínhamos acesso a nenhum ator asiático-americano 'bancável' [visto como prestigioso o suficiente para garantir que o filme fosse rentável] que quiséssemos".

Ou, ainda, Aaron Sorkin, cujo e-mail vazado de 2014 a Amy Pascal, então co-presidente da Sony, questionava se o estúdio deveria fazer um filme sobre o executivo de Wall Street Bradley Katsuyama, porque "o protagonista é asiático-americano [na realidade, asiático-canadense] e não há astros de cinema asiáticos".

Mesmo Kevin Kwan, o autor do romance Asiáticos Podres de Ricos foi pressionado a "branquear" sua história quando ela foi transposta ao cinema. "Queriam converter a heroína numa garota branca", Kwan contou à Entertainment Weekly. "Eu disse: 'Vocês não entenderam o xis da história. Não, obrigado.'"

Seu "não, obrigado" acabou gerando um filme que foi um grande sucesso do verão. Podres de Ricos, o primeiro filme de estúdio de Hollywood em 25 anos a ter elenco inteiramente asiático, arrecadou US$ 25 milhões nas bilheterias no fim de semana de estreia e US$ 34 milhões em seus cinco primeiros dias em cartaz. É o filme mais visto nos cinemas dos EUA no momento.

Podres de Ricos é em primeiro lugar um filme de, para e sobre asiáticos, mas as pessoas brancas também deveriam vê-lo (e muitas já viram).

Podres de Ricos é o melhor do que uma comédia romântica deve ser. A história gira em torno de Rachel Chu (Constance Wu), bela professora de economia em Nova York que namora Nick Young (Henry Golding), professor universitário igualmente belo e dotado de um sotaque britânico sexy. A trama contém elementos familiares: sem que Rachel, com quem namora há mais de um ano, saiba disso, Nick vem de uma família muito rica. Mas Rachel só toma conhecimento disso quando vai à casa da família de Nick em Singapura para ir ao casamento do melhor amigo dele (também belo). O resultado é um caos. A história é divertida e simpática, suscitando no espectador todos os sentimentos receptivos e doces apropriados.

Outra coisa que ajuda é que o filme é baseado em um romance best-seller que faz você sentir vontade de sair de férias imediatamente – ou pelo menos de algum dia fugir da sua vidinha com uma passagem na primeira classe. As paisagens são belíssimas, a comida é maravilhosa, os figurinos são incríveis, as pessoas são lindas! E todas essas paisagens, as comidas e as pessoas são, por acaso (ou não por acaso), asiáticas.

Podres de Ricos já virou a comédia romântica de maior sucesso dos últimos três anos. Hollywood, preste atenção.

Desde o sucesso inegável de filmes como Corra!, Pantera Negra e Viagem das Garotas, a indústria do entretenimento vem sendo forçada a reconhecer que projetos de estúdio sobre pessoas negras não atraem apenas espectadores negros aos cinemas – também atraem plateias brancas. Trinta e nove por cento das pessoas que foram ver Podres de Ricos no fim de semana de estreia do filme se identificam como caucasianas.

Em outras palavras, o fato de ser branca não impede uma pessoa de curtir um filme sobre pessoas que não se parecem com ela – algo que as pessoas negras sempre tiveram que fazer no cinema.

De fato, eu, como pessoa branca que está acostumada a fazer parte do público muito bem servido em matéria de cinema, sinto que há algo de profundo em aprender a mergulhar na história de outros. Assistir a filmes sobre pessoas que não se parecem nem falam com a gente nem têm nossa história nos ensina a ter empatia e imaginação. Como disse a acadêmica Jenny Lee à Deadline, "por mais que possamos querer minimizar a TV (e o cinema), enxergando-a como mero entretenimento, é inegável que ela contribui para nossa paisagem cultural e a compreensão que temos do mundo".

Podres de Ricos entende isso. O filme conserva os elementos que adoramos nas comédias românticas e descarta muitos dos piores estereótipos que sempre perseguiram os atores asiáticos nas telas. As pessoas brancas deveriam poder ver personagens asiáticos que não sejam apenas o vilão, o estrangeiro, a mulher hiper-sexualizada e retratada como exótica, o homem risível e assexuado.

Portanto, Hollywood, aprenda com esse sucesso todo e continue a fazer certo. Reiterando, Podres de Ricos é o primeiro filme de Hollywood em 25 anos que tem como trama principal uma história asiático-americana; enquanto isso, vejo quase diariamente histórias sobre pessoas que se parecem comigo.

Como mulher branca, meus interesses já são priorizados pelos estúdios de cinema (se bem que não tanto quanto os dos homens brancos!). Estou aqui para dizer que eu gostaria de ver menos dessas histórias. Esqueçam o próximo suspense, filme de herói ou filme sobre Wall Street que tratam de um homem branco. Procurem histórias escritas por, sobre e para pessoas que não dominam os cinemas americanos desde que os cinemas americanos foram inaugurados.

E se todos pudessem incluir um papel para Awkwafina, seria melhor ainda.

Podres de Ricos estreia no Brasil em 1º de novembro. Assista ao trailer abaixo:

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