COMPORTAMENTO
04/09/2018 17:17 -03 | Atualizado 05/09/2018 08:51 -03

O desabafo de 3 pesquisadores sobre o incêndio no Museu Nacional

"O trabalho de um museu é um trabalho coletivo e de formiguinha. Nós retroagimos e temos um buraco em nossa formação como cientistas."

O incêndio no Museu Nacional destruiu 200 anos de história.
DANIEL RAMALHO/AFP/Getty Images
O incêndio no Museu Nacional destruiu 200 anos de história.

O incêndio que se iniciou no último domingo (3) queimou 200 anos de história no Museu Nacional, mas, dois dias depois que o fogo foi controlado, os especialistas ainda tentavam determinar o tamanho das perdas. De acordo com a vice-diretora do museu, Cristiana Serejo, mais de 90% do acervo virou cinzas.

Entre os objetos queimados estavam o fóssil do maior dinossauro já montado no Brasil e o esqueleto de Luzia, que tinha mais de 12 mil anos e era considerado um dos mais antigos das Américas.

Para os pesquisadores associados ao Museu Nacional, o incêndio não só destruiu gerações de trabalho de grupos de cientistas, como também "abriu um buraco na formação de novos pesquisadores".

"Nós vamos ter um buraco na formação de pesquisadores do Brasil por falta de material, além dos cortes nas bolsas e da falta de incentivos. A gente apagou uma parte da nossa história que não poderá ser mais acessada", desabafou a paleontóloga Gabriela Sobral, em entrevista ao HuffPost Brasil.

O prédio na Quinta de Boa Vista era conhecido por seu vasto acervo que agregava temas como a arqueologia, paleontologia, antropologia e estudo de invertebrados (este com cerca de 5 milhões de insetos), além dos laboratórios e salas de aulas. Tudo perdido.

Nesta terça-feira (4), o governo federal anunciou medidas para a reconstrução do prédio: a publicação de uma medida provisória que cria a Lei dos Fundos Patrimoniais, a instalação de um comitê gestor e a liiberação de R$ 25 milhões.

NurPhoto via Getty Images

Não há, no entanto, estimativa de tempo para que o acervo seja recuperado - se é que isso será possível. Para os pesquisadores, isso só será possível com uma força-tarefa e um trabalho coletivo das entidades.

Em depoimento ao HuffPost Brasil, 3 pesquisadoras comentam como o incêndio no museu deve afetar a ciência no País.

Taissa Rodrigues, paleontóloga, 36 anos

O museu era uma testemunha da biodiversidade brasileira e esse acervo foi perdido

A minha pesquisa é com fósseis de pterossauros. Eu fiz o meu mestrado e meu doutorado no Museu Nacional. Os meus alunos usavam todo o material de lá. E como pesquisadores, nós estudamos a biodiversidade. As nossas perguntas são sobre quantas espécies existiram, como elas viviam, como se reproduziam. Então, a gente usava muito os fósseis do Museu Nacional. As pessoas não sabem, mas o Brasil tem os melhores fósseis de pterossauros do mundo. Eles são extremamente bem conservados e é realmente raro encontrar uma coleção assim. É triste demais ver o que aconteceu. Saber que o material que eu usava para a minha pesquisa, o material da minha coleção que não estava acessível ao público, não deve ter resistido.

Eu frequento o Museu Nacional desde 2005, principalmente entre a pesquisa do meu mestrado e o doutorado. Depois disso eu mantive um relacionamento estreito com eles. O espaço, por incrível que pareça, melhorou demais nesses últimos anos. Houve uma aprovação de um projeto com uma agência de fomento e conseguiram comprar estantes novas e robustas para as salas. Essas estantes ajudaram a diminuir a quantidade de poeira, a evitar infiltração e o mofo nos fósseis. Mas óbvio que a gente tinha problemas. O principal deles era o espaço físico do prédio, que era muito pequeno para o número de pesquisadores. O prédio não foi feito para ser um museu. Era uma casa, um palácio. Eu testemunhei várias reformas enquanto estive lá, tivemos que improvisar salas, caía a energia, não tínhamos internet.

A perda do acervo foi uma tristeza muito grande. De todos os acervos, não só dos fósseis. Desde o livro de assinatura dos visitantes, até as múmias - que eram únicas - e os arquivos de áudio de línguas indígenas extintas.

O museu era uma testemunha da biodiversidade brasileira e esse acervo foi perdido. A gente tem esperança de recuperar algo, principalmente os fósseis e as rochas. A nossa biodiversidade e parte de nossa cultura foi perdida. Não dá pra diminuir isso. As pessoas que trabalham lá eram responsáveis por toda essa história, essa cultura. Elas que faziam tudo para manter o museu vivo. Elas dedicaram suas vidas na construção desse acervo, que era acessível a todos os brasileiros. A gente tem um buraco no nosso conhecimento. Algumas coisa estão em artigos publicados. Mas e o que ainda estava sendo estudado?

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Gabriela Sobral, paleontóloga, 35 anos

O trabalho de um museu é um trabalho coletivo e de formiguinha

Eu estudei dinossauros no Museu Nacional durante a minha graduação. Depois, voltei ao museu como pesquisadora associada em um projeto no pós-doutorado. Mas eu não tinha financiamento, estava por minha conta. Depois consegui uma pesquisa via CNPq, com vínculo com um museu da USP. Mas a minha pesquisa de pós-doc sempre envolveu alguns materiais do museu. Eu trabalhava com toda parte de fósseis de jacarés.

No tempo em que eu frequentei o espaço do museu, a infraestrutura era péssima. A rede elétrica sempre foi um problema no prédio. Diversas vezes não tinha energia nas salas e isso atrapalhava o nosso trabalho, ou então os ratos comiam os fios, enfim. Não tinha wi-fi, tinha elevador, mas vivia quebrando; e isso era importante para movimentar os materiais pesados. A gente também enfrentava problemas com goteiras, que arriscavam impactar as coleções. E quando você tem problemas na rede elétrica, isso atrapalha qualquer pesquisa. Já tiveram ocasiões em que precisei deixar o computador ligado rodando uma análise durante um, dois dias, e quando voltei o trabalho tinha sido interrompido porque houve uma queda de energia ou algum pico que desligou o computador. E isso atrasava tudo.

Em níveis simbólicos e práticos, o trabalho de um museu é histórico. É um trabalho coletivo e de formiguinha. Para as coleções biológicas, por exemplo, cada pesquisador vai coletando um pouquinho e, de coleta em coleta, os grupos de pesquisadores vão criando o acervo. Com o acervo, você faz registros históricos das regiões: "Olha, há 50 anos a gente coletava onças aqui, hoje não mais. Antes do homem chegar, as aves se alimentavam de insetos, agora de caramujos. O que será que aconteceu?".

Fora isso, tem a coisa mais básica da coleção científica: toda vez que você coleta uma espécie nova, você faz um relatório dos dados e deposita no que nós chamamos de "tipo". Significa que você descreve uma espécie baseada em um ou alguns indivíduos. E ao depositar isso no museu, você cria base de dados para comparar outras especies. Depois, você pode comparar tudo isso na literatura. A gente tenta publicar ao máximo em artigos para que essas informações fiquem acessíveis, para que nem todos os pesquisadores precisem ir ao museu sempre. Mas não tem jeito, o trabalho em primeira mão que acontecia la é imprescindível. E agora tudo isso se perdeu.

A coleção do Museu Nacional é muito antiga e muito extensa. Ao perder esse registro histórico, talvez a gente esteja perdendo materiais que não tenham sido importantes agora, mas que seriam muito importantes no futuro. Ok, nos perdemos 20 milhões de exemplares, mas e o impacto disso para o futuro? As coisas que não foram estudadas? E as pessoas que acabaram de passar em concursos para estudar acervos que existiam lá? Uma vida de pesquisa e ensino em que você deixa de ter perspectivas porque o principal acervo foi destruído. Agora, a dedicação desses pesquisadores será praticamente toda concentrada em coletar material. E fazer um trabalho repetitivo, porque ao invés de pegar materiais novos, você regride e tem que pegar materiais que já tinham sido coletados. Nós vamos ter um buraco na formação de pesquisadores do Brasil por falta de material, além dos cortes nas bolsas e da falta de incentivos. A gente apagou uma parte da nossa história que não poderá ser mais acessada.

MAURO PIMENTEL via Getty Images

Elena Monteiro Welper, antropóloga, 43 anos

Todo o arquivo que eu pesquisava foi destruído. Eu não tenho palavras, é um choro que não acaba

A minha pesquisa de pós-doutorado no Museu Nacional dava continuidade à minha pesquisa de mestrado, que foi sobre a vida e obra de Curt Nimuendajú, um etnólogo alemão que é considerado um dos fundadores da etnologia brasileira. Nimuendajú produziu uma quantidade enorme de material sobre os índios do Brasil e foi uma inspiração para grandes nomes da etnologia brasileira, como Darcy Ribeiro, por exemplo. Após a sua morte em 1945, o Museu Nacional comprou o seu espólio científico, que incluía livros, cartas, diários de campo, cadernetas, relatórios, mapas, fotografias e manuscritos inéditos, e constitui um arquivo composto por milhares de itens.

Desde aquele tempo em que iniciei o mestrado, em 1999, era bastante evidente que as instalações do prédio eram precárias, tanto para a conservação quanto para o manuseio de documentos tão frágeis. A estrutura física do museu sempre era concertada na gambiarra, conforme a necessidade imediata.

Eu não consigo nem falar direito. Acabei de saber que todo o arquivo que eu pesquisava foi perdido. É um choro que não para. A destruição do museu foi para a ciência e cultura do Brasil, como a morte do rio Doce para os brasileiros: uma tragédia anunciada, com consequências imensuráveis e irreversíveis. Não só para o meio científico, mas também com impactos diretos sobre a vida de tantas pessoas que ali trabalhavam.