05/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 07/09/2018 12:20 -03

Joanna Burigo, a especialista em gênero que fez do feminismo profissão

"Nunca foi tão bom [ser mulher] e nunca estivemos tão próximas de perder tudo. Vivemos um 'backlash', uma onda retroativa aos avanços do feminismo", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Joanna Burigo é a 182ª entrevistada do Todo Dia Delas, projeto editorial do HuffPost Brasil, que celebra 365 mulheres.

Quando Joanna Burigo tinha 25 anos, perdeu seu tio mais querido. Tio Rogério ainda estava na casa dos quarenta anos quando teve um câncer fulminante. Joanna queria guardar alguma recordação do homem inteligente, estudioso e caladão que enchia os sobrinhos de mimos quando a família se reunia em Criciúma, sua terra natal. Foi à estante de livros. Levou para casa o livro O Relatório Hite.

"Eu queria ter um registro dele e calhou de mudar toda a minha vida". Foi a obra de Shere Hite, publicada em 1976 e cuja venda era proibida para menores de 18 anos, que abriu os olhos da publicitária, que antes da maioridade saiu de uma cidade pequena, para estudar em Porto Alegre. "Eu não virei feminista; eu me dei conta de que eu era feminista lendo esse livro".

Não me importo mais com a fama de chata. Se você não está desconfortável, não está mudando um paradigma.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Joanna vivia em Londres quando assistiu - na primeira fila - a uma palestra da pesquisadora norte-americana, Share Hite.

Joanna, hoje com 39 anos, mostra com orgulho o exemplar gasto pelo uso, onde se vê a assinatura da própria Shere Hite, datada de 2011, logo abaixo do nome do antigo dono da obra, em caneta azul já desbotada. Joanna vivia em Londres quando assistiu - na primeira fila - a uma palestra da pesquisadora norte-americana. E, bem de perto, pôde ver o lado menos glamoroso do ativismo. "Lúcida e doidona", Hite estava claramente sob efeito de remédios, e contou como, depois da publicação do livro, foi hostilizada pelos homens, questionada pela comunidade acadêmica e rechaçada pela própria família.

É fácil vender um discurso, e na prática ter um comitê de diversidade composto por cinco homens brancos.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Como consultora, Joanna coloca em prática o conhecimento acumulado em anos como executiva de marketing.

"É um processo muito difícil as pessoas entenderem a voz de uma feminista. Por causa da palestra dela, fiz um ano de análise em preparação antes de lançar a Casa da Mãe Joanna", conta. Definida como "um experimento feminista de comunicação e educação sobre gênero, a CDMJ começou a ser gestada ainda em Londres, onde Joanna morou por oito anos e cursou mestrado em Gênero, Mídia e Cultura na London School of Economics. O projeto idealizado "para coligar com outros projetos, e não para ser um fim em si mesmo", começou em 2015, com uma página no Facebook, e hoje é um trampolim para Joanna se conectar com outras pessoas e instituições que querem trabalhar pela igualdade de gênero.

Toda crise de masculinidade é uma resposta ressentida aos avanços das mulheres.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
"Tem Saída" e "Novas contistas da literatura brasileira" são os livros publicados pela editora Zouk, com a CDMJ.

Junto com a editora Zouk, a CMJ criou um selo apenas para publicar autoras mulheres. No primeiro projeto, fizeram um concurso para selecionar contos e publicar a coletânea Novas Contistas da Literatura Brasileira - receberam mais de mil textos em três semanas. "Isso provou o que a gente já sabia: que as mulheres escrevem, mas não são publicadas. A barreira é institucional. A barreira é sempre um homem branco".

O projeto seguinte, lançado em dezembro do ano passado, é o Tem Saída - segundo Joanna, "o primeiro livro sobre política deste País escrito só por mulheres". Entre os 26 textos, um é especialmente caro: "A emergência da vida para superar o anestesiamento social frente à retirada de direitos: o momento pós-golpe pelo olhar de uma feminista, negra e favelada", escrito por Marielle Franco, vereadora do Psol-RJ assassinada em março deste ano.

Como consultora, Joanna coloca em prática o conhecimento acumulado em anos como executiva de marketing. Avalia posicionamento de marcas, auxilia na prevenção de riscos de campanhas (no lançamento de um produto específico para mulheres ou para homens, por exemplo), ajuda na programação da comunicação no que toca a gênero. "A linguagem da comunicação deve refletir o posicionamento, mas o que acontece em geral é o contrário. É fácil vender um discurso, e na prática ter um comitê de diversidade composto por cinco homens brancos", critica.

A barreira é sempre um homem branco.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
No ano passado, junto com Winnie Bueno, ela criou o curso de "formação feminista e antirracista Laudelina de Campos Melo".

Convidada frequente para ministrar cursos universitários (psicologia e psicanálise foram os mais recentes), assim como de organizações e escolas, no ano passado, ela criou, junto com Winnie Bueno, o curso de "formação feminista e antirracista Laudelina de Campos Melo", oferecido pela ONG Emancipa Mulher (o nome é uma homenagem à fundadora do primeiro sindicato de empregadas domésticas do Brasil, em Campinas). Atualmente, ela é coordenadora pedagógica do curso, enquanto Carla Zanella é coordenadora. Gratuito, aceita apenas inscrições de mulheres.

"Precisávamos que fosse um espaço seguro para as mulheres falarem. Ter brancas e negras na sala já é tensão suficiente". Joanna se refere ao contraste de cor e também de classe entre mulheres da periferia e jovens de classe média. "Nós, mulheres brancas, somos oprimidas pelo gênero, mas também oprimimos as outras pela raça. A gente percebe o desconforto na sala de aula, mas se for confortável, eu nem quero".

Quanto fundou a CDMJ, ela não sabia exatamente para quem ia falar. Surpreendeu-se com as demandas nas áreas políticas e jurídicas pelo seu conhecimento de gênero como categoria de análise. "Onde precisar de conhecimento feminista sobre gênero, estou disposta a levar". Nas suas falas, Joanna explica que o gênero é uma ordem social, e nesta ordem social hierárquica, os homens estão no poder. "O feminismo, por sua vez, fala muito da condição da mulher, e essa condição muda ao longo da história: ser mulher nos anos 1930 significava não poder sequer votar", exemplifica.

Nunca foi tão bom [ser mulher] e nunca estivemos tão perto de perder tudo.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
"O feminismo, por sua vez, fala muito da condição da mulher, e essa condição muda ao longo da história."

E o que significa ser mulher hoje? "Nunca foi tão bom e nunca estivemos tão próximas de perder tudo. Vivemos um backlash, uma onda retroativa aos avanços do feminismo. Não só no Ocidente, mas no Oriente também". Citando as recentes eleições americanas e europeias e a iminente votação no Brasil, Joanna defende: vote em mulheres para o legislativo. "Foda-se a eleição presidencial, temos de botar mulher nas câmaras".

De sua parte, Joanna, que jurou jamais ser candidata a nada, não se importa de estar próxima do poder, levar seu conhecimento ao campo da política, da Justiça e das empresas, onde possa influenciar alguma mudança. "Essa dança com as instâncias de poder, incomodar de dentro, me interessa".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delaspara celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.