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03/09/2018 19:13 -03 | Atualizado 03/09/2018 20:04 -03

Falta de investimento expõe descaso do poder público com o Museu Nacional

A estimativa da vice-diretora do museu, Cristiana Serejo, é que serão necessários pelo menos R$ 15 milhões para restaurar o prédio.

Ricardo Moraes / Reuters
Entre 2013 e 2017, a verba destinada ao Museu Nacional - que pegou fogo no domingo (2), caiu R$ 336 mil.

"O Brasil precisa avaliar para onde estamos caminhando. Não existe nenhuma linha de financiamento dos ministérios da Educação e Cultura para prédios históricos tombados pelo patrimônio histórico. Sofremos queda brutal de orçamento, de R$ 140 milhões no custeio nos últimos quatro anos. É necessário que o governo federal olhe para o Brasil. Precisaremos de recursos importantes para recuperar o museu. No orçamento de 2019 a sociedade brasileira vai aferir se vamos ter ações objetivas ou se vamos sofrer até a próxima tragédia. Queremos compartilhar nossas lágrimas e nossa indignação."

A declaração do reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher, ao Estado de São Paulo, mostra como vem sendo conduzido o investimento no patrimônio brasileiro. À frente da unidade responsável pelo Museu Nacional, Leher viu o orçamento para ser aplicado na instituição cair nos últimos anos.

Levantamento feito pela Comissão de Orçamento da Câmara dos Deputados, com dados do Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira), ao G1, mostra que entre 2013 e 2017, a verba destinada ao museu caiu R$ 336 mil. O orçamento para a instituição era de R$ 979,9 mil em 2013 e causa para R$ 643,5 mil no ano passado. As verbas são dos ministério da Educação e da Cultura.

O dinheiro que não foi investido em preservação, entretanto, deverá aparecer para restaurar o que sobrou do prédio e do acervo. Em nota à imprensa, o presidente Michel Temer afirmou que articulou, em conversas mantidas hoje com um grupo de entidades financeiras, empresas públicas e privadas, a criação de uma rede de apoio econômico para viabilizar a reconstrução do museu no tempo mais breve possível.

"Os ministérios da Educação e Cultura estudam mecanismos para que as empresas se associem na reconstrução do edifício e na busca pela recomposição do acervo destruído ontem. Uma das primeiras alternativas é usar a Lei Rouanet para financiar a iniciativa", diz trecho da nota.

A estimativa da vice-diretora do museu, Cristiana Serejo, é que serão necessários pelo menos R$ 15 milhões para restaurar o prédio. De imediato, os ministros Rossieli Soares, da Educação, e Sérgio Sá Leitão, da Cultura, afirmaram que o governo destinará R$ 10 milhões para obras de emergência no museu.

Tanto o presidente da França, Emmanuel Macron, quanto o Conselho Internacional dos Museus (Ibcom) se ofereceram para ajudar a reconstruir o museu. " A França oferecerá seus especialistas a serviço do povo brasileiro para contribuir para a reconstrução", afirmou Macron no Twitter.

Ja o Ibcom diz que está trabalhando em contato com instituições especializadas para ajudar a superar o desastre. A parceria está sendo feita com o Comitê Permanente sobre Gestão de Riscos de Desastres (DRMC), e os comitês Internacionais para Museus Universitários (UMAC), Documentação (CIDOC) e História Natural (NATHIST).

"Neste dia sombrio, não apenas pela herança brasileira, mas também pelo patrimônio mundial, queremos reiterar nossa crença inabalável na resiliência e profissionalismo dos funcionários de museus do Brasil e nossa fé em sua capacidade de se recuperar desse evento doloroso", diz nota do conselho.

Sucateamento da ciência

Em julho deste ano, o divulgador científico Hugo Fernandes-Ferreira descreveu em artigo publicado no HuffPost Brasil "o grave sucateamento da Ciência brasileira pelo Governo Federal". "O orçamento do então Ministério da Ciência e Tecnologia já foi de R$ 8,4 bilhões em 2010 (o equivalente a atuais R$ 10 bi, corrigidos pela inflação). Após sucessivos cortes, despencou para R$ 4,1 bilhões em 2018, já contando com a pasta de Telecomunicações, que consome mais de R$ 700 milhões desse montante."

E emendou:

"A história de diversos países desenvolvidos e em desenvolvimento mostra que investir em Ciência é o caminho para a solução diante da crise. Israel, por exemplo, investe mais de 4% do PIB em C&T. China atingirá 2,5% em 2020 e cerca de 40% desse suporte é para a Ciência Básica. Ruanda investe 3% de um PIB que é 150 vezes menor que o nosso e assiste um crescimento econômico anual de 7%. O Brasil, com apenas 1,05% dessa proporção, está na exata contramão do que o mundo constata como efetivo."

Incêndio

O Museu Nacional do Rio de Janeiro foi destruído na noite deste domingo (2) em um incêndio de grandes proporções. Era a mais antiga instituição científica do Brasil. Criado por D. João VI, em 6 de junho de 1818, sediado no Campo de Sant'Ana, serviu para promover progresso cultural e econômico do País.

Pilar Olivares / Reuters
O Museu Nacional era detentor do maior acervo de história natural e antropologia da América Latina.

Localizado na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio, o prédio abrigava um acervo de cerca de 20 milhões de itens. A maior parte foi totalmente destruída. O fogo começou por volta das 19h30 de domingo e foi controlado no fim da madrugada desta segunda-feira (3).

O Museu Nacional era detentor do maior acervo de história natural e antropologia da América Latina. Muitas peças do acervo eram exemplares únicos, como esqueletos de dinossauros a múmias egípcias, além de utensílios produzidos por civilizações ameríndias durante a era pré-colombiana.

A maior parte parte foi destruído na incêndio, mas uma da peças mais importantes, o Meteorito Bendegó, resistiu.