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03/09/2018 13:03 -03 | Atualizado 03/09/2018 13:35 -03

Como era o Museu Nacional do Rio antes do incêndio

Einstein, Marie Curie e Santos Dumont visitaram o museu destruído neste domingo.

Localizado na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio,  o Museu Nacional abrigava um acervo de cerca de 20 milhões de itens.
Divulgação/Roberto da Silva
Localizado na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio, o Museu Nacional abrigava um acervo de cerca de 20 milhões de itens.

Destruído na noite deste domingo (2) em um incêndio de grandes proporções, o Museu Nacional do Rio de Janeiro era a mais antiga instituição científica do Brasil. Criado por D. João VI, em 6 de junho de 1818, sediado no Campo de Sant'Ana, serviu para promover progresso cultural e econômico do País.

Localizado na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio, o prédio abrigava um acervo de cerca de 20 milhões de itens. A maior parte foi totalmente destruída. O fogo começou por volta das 19h30 de domingo e foi controlado no fim da madrugada desta segunda-feira (3).

Residência de um rei e dois imperadores, a instituição vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) completou 200 anos em 2018.

As exposições contam a história do museu e as atividades de pesquisa em ensino nas áreas de antropologia e ciências naturais.

De 1808 a 1821, o palácio serviu de residência à família realportuguesa. Em seguida, abrigou a família imperial brasileira até 1889 e sediou a primeira Assembleia Constituinte Republicana de 1889 a 1891. No ano seguinte, passou a ser usado como museu.

Tânia Rêgo/Agência Brasil
Museu Nacional do Rio foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1938.

O museu conta também a história da família real. O conjunto de salas remanescentes do antigo Paço de São Cristóvão foi tinha a sala do trono de Dom Pedro II, além de jóias, vestimentas, móveis, estátuas e louças pertencentes.

Construída para ser o templo do imperador e um dos maiores símbolos do Segundo Reinado, a Sala do Trono era um dos ambientes mais importantes. Com pinturas do italiano Mario Bragaldi nas paredes e no teto, a decoração sugere a imagem de um templo grego sustentado por pinturas de ouro, imitando as colunas da Antiguidade.

Divulgação/Museu Nacional
Sala do trono contava história da família real no Museu Nacional.

Na exposição "Kumbukumbu - África memória e patrimônio", um ator vestido de D. João VI mostra as peças para uma atriz que representa sua mãe, D. Maria I. Com origem na língua swahili, a palavra Kumbukumbu é usada para objetos, pessoas ou acontecimentos que nos fazem pensar sobre o passado, mas de modo que se abra um caminho para o futuro.

Foram quase 200 objetos trazidos de diferentes partes da África, entre 1810 e 1940, além de itens que pertenceram ou foram produzidos por africanos ou seus descendentes diretos no Brasil, entre 1880 e 1950.

Divulgação/Museu Nacional
Exposição "Kumbukumbu - África memória e patrimônio" reuniu 200 objetos trazidos de diferentes partes da África, entre 1810 e 1940.

Referência na ciência, o museu fez parte da visita de Albert Einstein ao Brasil em 1925. Foi a primeira vez do físico na América do Sul. A viagem que incluiu também Argentina e Uruguai durou 3 meses. De acordo com o jornal O Globo, Einstein ficou 8 dias no Rio, de 4 a 12 de maio de 1925, e se hospedou na suíte 400 do Hotel Glória.

Reprodução/Facebook
Albert Einstein visitou Museu Nacional do Rio em 7 de maio de 1925.

Pioneira nos estudos da radioatividade, a cientista polonesa Marie Curie esteve no museu, em 29 de julho de 1926. Ela foi a primeira e única mulher a vencer o prêmio Nobel em duas áreas distintas: física e química. No registro da visita, a cientista está acompanhada da bióloga Bertha Lutz, pesquisadora da instituição e um dos grandes nomes do feminismo no Brasil.

Divulgação/Museu Nacioal
Cientista Marie Curie ao lado da bióloga Bertha Lutz no Museu Nacional do Rio.

Outro nome célebre que esteve nas dependências da instituição foi Alberto Santos Dumont. O pai da aviação esteve no prédio algumas vezes para realizar experiências com seus inventos. O cientista chegou a levar um modelo de autopropulsão e tentou erguer-se do solo com ele. Os testes foram realizados no Jardim das Princesas, com a presença de familiares, cientistas e autoridades.

Divulgação/Museu Nacional
Uma das visitas de Alberto Santos Dumont ao Museu Nacional do Rio, em julho de 1928.

O Museu Nacional era detentor do maior acervo de história natural e antropologia da América Latina. Muitas peças do acervo eram exemplares únicos, como esqueletos de dinossauros a múmias egípcias, além de utensílios produzidos por civilizações ameríndias durante a era pré-colombiana.

A maior parte parte foi destruído na incêndio, mas uma da peças mais importantes, o Meteorito Bendegó, resistiu. Encontrado no sertão baiano no século XVII, ele foi trazido no século seguinte para o museu e é o maior meteorito encontrado no Brasil e 16º no mundo. A rocha é oriunda de uma região do Sistema Solar entre Marte e Júpiter e tem cerca de 4,56 bilhões de anos.

De acordo com o geólogo Renato Cabral Ramos, as pesquisas relacionadas a ele, contudo, foram queimadas. "Os meteoritos, possivelmente, tenham sido as únicas peças a resistir a essa tragédia. O Bendegó está intacto. Mas as pesquisas realizadas a partir dele, nas últimas décadas, se perderam", disse ao UOL.

O meteorito é parte do que pode ser vista no vídeo de apresentação do acervo instituição. Outro destaque era a coleção de fósseis, que incluía duas preguiças gigantes.

O museu possuía uma coleção de aproximadamente 70 mil itens relacionados às ciências da Terra, subdividida em núcleos de paleontologia, mineralogia, petrologia e meteorística. O acervo de minerais e rochas era um dos segmentos mais antigos, iniciado no fim do século XVIII.

Fernando Frazão/Agência Brasil
Exemplar de óxido Pirolussita com barita entre os Minerais da Coleção Werner, trazidos para o Brasil pela Famí­lia Real Portuguesa, em fuga após invasão das tropas francesas de Napoleão Bonaparte.

As coleções mineralógicas foram incorporadas ao acervo no início do século XIX, como a coleção particular de José Bonifácio de Andrada e Silva e os exemplares transferidos das coleções da família imperial. Destacavam-se o vasto conjunto de exemplares de quartzo, um conjunto de cristais da Califórnia e peças de importância histórica, como um exemplar de equinoide silicificado provavelmente oriundo da coleção da Imperatriz Leopoldina, e uma amostra de quartzo de Minas Gerais, doada pelo presidente Getúlio Vargas em 1940.

Fernando Frazão/Agência Brasil
Um dos destaques da coleção de pedras do museu era amostra de quartzo proveniente de Minas Gerais, doada pelo presidente Getúlio Vargas ao museu em 1940.

Os dinossauros também chamavam atenção. Um dos grandes destaques da coleção de paleontologia era o esqueleto Maxakalisaurus topai, primeiro dinossauro de grande porte a ser montado no Brasil. A ossada foi encontrada em Minas Gerais.

No acervo, constavam 56 mil exemplares e 18,9 mil registros na aérea, com peças do Brasil e de diversos países organizados nos núcleos de paleobotânica, paleoinvertebrados e paleovertebrados.

Tomaz Silva/Agência Brasil
Acervo de paleontologia do Museu Nacional, com fósseis de dinossauros, reunia 56 mil exemplares e 18,9 mil registros.

Outro importante item destruído pelo fogo era uma das principais atrações do museu: o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil, batizado de Luzia. Ele foi descoberto em 1974 pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, em Minas Gerais, teria 11.300 anos.

Divulgação/Museu Nacional
Restituição de Luzia, fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil, no Museu Nacional.

Já a parte de zoologia reunia diversas espécimes empalhadas ou taxidermizadas, como aves, crustáceos, insetos, moluscos e quelicerados, como escorpiões e aranhas. A coleção era usada para fins científicos e educacionais.

Alexandre Macieira/Riotur
Acervo de zoologia do Museu Nacional reunia peças de diveros países.

O Museu Nacional contava também com um setor educativo, voltado à difusão de conhecimentos cientifícios e culturais.

Divulgação/Museu Nacional
Área educativa do Museu Nacional transmitia conhecimentos de ciência e cultura para crianças.

O incêndio de mais de 6 horas destruiu a estrutura do prédio, de madeira, o que permitiu que as chamas se espalhassem com mais facilidade.

Tânia Rêgo/Agência Brasil
Incêndio no Museu Nacional do Rio durou mais de 6 horas.

O museu também sofria com a falta de manutenção, como cupins que corroíam a estrutura e queda de reboco.

Tânia Rêgo/Agência Brasil
Estrutura de madeira facilitou fogo se alastrar no Museu Nacional do Rio.

Com orçamento reduzido, o museu chegou a anunciar uma "vaquinha virtual" para arrecadar recursos junto ao público.

Com o enredo "Uma Noite Real no Museu Nacional", a Imperatriz Leopoldinense fez uma homenagem neste ano aos nossos 200 anos de fundação da instituição. Como retribuição, foi aberta a exposição "O Museu dá Samba – A Imperatriz é o Relicário no Bicentenário do Museu Nacional", com 30 fantasias que ficaram nas principais salas do Palácio.

Divulgação/Museu Nacional
200 anos do Museu Nacional motivou enredo da Imperatriz Leopoldinense no carnaval deste ano.