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03/09/2018 02:29 -03 | Atualizado 03/09/2018 12:09 -03

A Ciência brasileira está em luto. Perdemos o passado, mas também o futuro

Pesquisadores e comunidade científica repercutem incêndio do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro.

Incêndio no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista destrói séculos de Ciência no Brasil.
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Incêndio no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista destrói séculos de Ciência no Brasil.

O HuffPost Brasil começaria nesta segunda-feira (3) a Semana Temática de Educação, Ciência e Tecnologia para refletir sobre os desafios do próximo presidente e Parlamento nessas áreas. Infelizmente, teremos de abrir a série com este artigo em luto pela Ciência no Brasil com a destruição do Museu Nacional da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), devastado por um incêndio de causas desconhecidas neste domingo.

Com o museu em chamas, perde-se a História da arqueologia brasileira. O conhecimento produzido com séculos de pesquisa em paleontologia, zoologia, botânica se esvai. Esqueletos, múmias, fósseis, inclusive o fóssil humano mais antigo das Américas, viram cinzas. Assim como milhões de insetos. Milhares de livros de ciências naturais. Um acervo de 20 milhões de peças severamente afetado.

A SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) do Rio de Janeiro diz que o incêndio é símbolo do descaso do governo de Michel Temer com ciência, cultura e patrimônio. Mas admite que essa indiferença vem da gestão petista. "Desde 2014 o governo federal não faz os repasses apropriados para a manutenção do museu", afirma a SBPC do Rio em nota.

Uma tragédia anunciada!

O presidente da SBPC, Ildeu de Castro Moreira, postou no Facebook propostas elaboradas em 2010 pela comunidade científica ressaltando a necessidade de "uma política pública para preservação do patrimônio cultural e científico do País". O texto, que reunia diretrizes para governantes e parlamentares, foi elaborado ao fim da 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, em Brasília. "Resta dizer que não foram implementadas", lamenta Moreira.

A curadora e pesquisadora acadêmica Ivana Bentes, ex-secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, classifica o incêndio de "barbárie" e não "acidente". Ela também ressalta o descaso com o Museu Nacional, que resultou na precariedade de suas instalações. "O museu sobrevive com o mínimo de recursos do Estado; o público fazia vaquinha ajudar na manutenção", lembra.

Bentes recorda outros incêndios que atingiram o MAM (Museu de Arte Moderna), há 40 anos no Rio, e a Cinemateca Brasileira e o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, mais recentemente. Em 2010, também na capital paulista, um incêndio no Instituto Butantan destruiu maior acervo de cobras do País.

Todos, segundo Bentes e tantos outros pesquisadores, refletem o total desinteresse do poder público em preservar séculos de Ciência e, claro, História e Cultura.

Emocionado, o divulgador científico Hugo Fernandes-Ferreira, professor na UECE (Universidade Estadual do Ceará), argumenta em vídeo no Facebook que o Brasil não perdeu apenas o passado com o incêndio, mas também o futuro.

"Hoje, você não descobre espécies novas andando no campo, não é assim para a Ciência. Essas espécies são descobertas em coleção [para comparar] que esta é diferente daquela. Então, o animal coletado há 200 anos serve para ser descrito hoje", explica Fernandes-Ferreira.

Uma explicação que expressa o luto da Ciência brasileira neste início de semana.

Afinal, nas palavras do professor, "perder o futuro dói muito mais".

Ricardo Moraes / Reuters
Comunidade científica lamenta destruição de acervo do Museu Nacional da UFRJ.