03/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 03/09/2018 00:00 -03

Patrícia Santos, a missão de revelar talentos ofuscados pelo racismo

Profissional de RH criou consultoria focada na diversidade étnico-racial e sonha em ver igualdade no mercado de trabalho. "A gente faz diagnóstico e oferece opções de cura para o racismo."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Patrícia Santos é a 180ª entrevistada de "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

"Pensa naquela senhora preta que te dava colo, te contava história... eu ficava horas no colo dela, ela fazendo 'chuquinha', dividia meu cabelo, enrolava e falava sobre a fazenda e a época da escravidão". Patrícia Santos, 38 anos, lembra com carinho da avó, dona Nenzinha. "Não posso falar da minha avó que me emociono demais". Foi ela a responsável por muito do que Patrícia é hoje. Foram essas histórias que ela contava, junto com muitos ditados típicos da avó, que trouxeram algumas consciências para Patrícia. Ela lembra que ia dormir com a cabeça cheia, pensando em tudo que tinha ouvido e no que podia fazer para mudar alguma coisa.

Dona Nenzinha nasceu em uma fazenda de café no interior da Bahia. Não sabe onde foi parar sua mãe. Não tem informações sobre seu avós e bisavós. Casou-se com "um homem branco da casa grande", como conta Patrícia. Não estudou, não trabalhou e teve 12 filhos. "Para mim, ela continuou sendo escravizada. Ficou servindo meu avô e tendo filhos. E contava as histórias e não eram as histórias que eu ouvia na escola. Foi ela que me trouxe uma consciência que percebi que muitos negros ao meu redor não tinham. Minha avó me deu uma responsabilidade, mesmo sem querer, de que eu tinha que fazer alguma coisa pelo nosso povo que foi tão injustiçado".

Minha avó me deu uma responsabilidade, mesmo sem querer, de que eu tinha que fazer alguma coisa pelo nosso povo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Patrícia mostra foto de quando era criança, ao lado de sua avó, Dona Nenzinha.

Nessa época, não sabia bem como poderia atuar. Na adolescência, chegou a pensar em ser médica e cuidar da saúde da população negra. Como resposta, seu pai disse que isso era uma bobagem, pois não havia médicos negros. Desistiu dessa carreira, mas não da ideia de promover uma espécie de cura na sociedade. Hoje, Patrícia comanda a EmpregueAfro, uma consultoria de Recursos Humanos focada na diversidade étnico-racial. A empresa atua no treinamento, recrutamento e seleção de profissionais para que os negros se sintam incluídos no mercado de trabalho. A definição do trabalho é bem simples: "Falo que somos vendedores de talentos ofuscados pelo racismo". E, para Patrícia, não deixa de ser uma forma de usar aquela ideia de medicina de quando era adolescente. "Brinco que a gente pratica a medicina nas empresas de uma forma diferente. A gente faz diagnóstico e oferece opções de cura para o pior câncer da sociedade que é o racismo".

O projeto começou em 2005, com um formato totalmente diferente. Patrícia estudava pedagogia e fazia estágio na área de RH de uma emissora de TV de São Paulo. Foi quando ela começou a perceber que nos processos seletivos que organizava não iam negros. "Pensei que onde em morava, na quebrada, perto de Heliópolis, tem uma negrada. A família do meu pai tem uma negrada, a família da minha mãe tem uma negrada e por que essa negrada não vem para os processos seletivos? E isso começou a me dar uma angústia". Passou a buscar informações sobre mercado de trabalho e a participar de coletivos de estudantes negros. Viu que as pessoas não tinham acesso às informações sobre as vagas. "Fui identificando que não se viam nas empresas por causa das propagandas, dos sites das empresas que costuma ter imagens de pessoas brancas e isso afasta as pessoas negras de se candidatar e de querer estar nas empresas".

Falo que somos vendedores de talentos ofuscados pelo racismo. A gente faz diagnóstico e oferece opções de cura para o pior câncer da sociedade que é o racismo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Patrícia desistiu da carreira na medicina, mas não de promover algum tipo de cura na sociedade.

Com os contatos que começou a fazer, chegou a um coletivo que relatou que os jovens tinham dificuldade de ter acesso às vagas e de montar currículo e sugeriu que ela, por ser da área de RH, criasse algum projeto de empregabilidade para negros. Ficou com isso na cabeça até que começou a dar os primeiros passos do seu trabalho e em janeiro de 2005 fez sua primeira palestra com a EmpregueAfro. Voltada para estudantes negros, ela dava dicas e orientações de como montar um currículo e como se sair bem nas dinâmicas dos processos seletivos.

Fez isso por alguns meses, até que foi procurada por uma grande multinacional de tecnologia. "Pediram para eu fazer um processo seletivo para estudantes negros porque o vice-presidente na época, americano, negro, veio para o Brasil e percebeu que não tinha negros e começou a pressionar o RH para fazer alguma coisa e me chamaram para ajudar". Patrícia nunca tinha pensado em falar para as empresas, mas passou a fazer alguns trabalhos do tipo e seguia com as palestras e sua carreira em RH.

Tem uma conta errada. Quando você olha as estatísticas, as empresas não refletem o que nós somos enquanto população.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Dona Nenzinha e seus ensinamentos são grande parte de quem Patrícia é hoje.

Foram sete anos tocando isso tudo em paralelo. Ainda era difícil vislumbrar a possibilidade de profissionalizar totalmente seu negócio e largar o mundo corporativo. "Queria ser uma consultoria com profissionalismo, mas eu sabia que tinha pouca experiência ainda. E minha família me jogava baldes de água fria. Minha mãe era a primeira a falar que eu tinha que parar de falar para empresa contratar negro. Mas eu falava que tem uma conta errada... Somos a maior parte da população e quando você olha as estatísticas de executivos, gerentes negros é tudo muito baixo! As empresas não refletem o que nós somos enquanto população e não conseguimos passar pelas barreiras do racismo que são estruturais".

Assim, não desistiu do seu projeto. E em 2012 uma empresa de auditoria a chamou para ser consultora anual do programa de diversidade deles e ela viu que havia uma possibilidade de investir somente na EmpregueAfro. Largou sua carreira construída em empresa e foi correr atrás de empreender. "Transformei o que era um projeto de fim de semana na primeira e única consultora de RH do País com foco em diversidade étnico-racial. E para mim sempre foi uma causa e uma missão pessoal, posso até dizer que é uma missão ancestral. A EmpregueAfro é para corrigir uma desigualdade de brancos e negros no mercado de trabalho".

Cada vez mais queremos praticar o blackmoney, que é fortalecer o dinheiro entre a gente para que tenhamos mais acesso e oportunidades.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Transformei o que era um projeto de fim de semana na primeira e única consultora de RH do País com foco em diversidade étnico-racial."

De lá para cá, foram muitos desafios, ela bem sabe. Já tinha dois filhos. Mais dois vieram. Lidou com todas as dificuldades de empreender e conquistar dia a dia espaço e credibilidade no mercado. Mas ficou firme. Hoje, comemora a fase de crescimento em que está e já vê mudanças no pensamento das empresas, o que foi muito bom para os negócios – e para sua causa. "As empresas estão preocupadas. Tem gente que faz só por marketing, não podemos ser hipócritas, e infelizmente o apelo maior é econômico, não tem jeito. É uma sociedade capitalista. Mas falo que nós somos a maior parte da população e cada vez mais consciente do nosso valor e cada vez mais queremos praticar o blackmoney, um conceito americano que agora a gente está praticando, que é comprar de empresas que colocam negro na propaganda, comprar de produtores negros, fortalecer o dinheiro entre a gente para que tenhamos mais acesso e oportunidades".

Essa consciência e reconhecimento do próprio valor por parte dos negros é o que tem impulsionado essa virada. Patrícia vê uma mudança de comportamento geral nos últimos anos. "Acredito que a população negra tem uma autoestima cada vez mais elevada e mais fortalecida e essa geração de 20 anos já é empoderada. Eles viram a geração anterior a minha lutar pelo dia da consciência negra, pelo estatuto da igualdade racial. A minha geração já é uma que trabalha por propósito e começou a ocupar alguns cargos, mas esses jovens de 20 anos tem uma visão de mundo que juntou propósito e engajamento e com apoio das redes sociais eles tem pressionado cada vez mais as marcas e isso fortalece muito a nossa causa porque faz com que as empresas realmente percebam o valor que nós temos e é aquela coisa...se não tiver negro vai ser feio, ou se tiver racista vai ter boicote".

Sempre foi uma causa e uma missão pessoal, posso até dizer que é uma missão ancestral.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, ela comemora a fase de crescimento em que está e já vê mudanças no pensamento das empresas.

Fala com firmeza e orgulho do que vê e do que ajudou a construir de alguma forma. Sabe que ainda há barreiras a serem passadas, mas tem certeza que as próximas gerações, a dos seus filhos, por exemplo, terão outras ferramentas para lidar com elas. "Meu sonho, minha missão é ver um mundo corporativo com uma equidade racial, com proporcionalidade do que somos na sociedade". Uma missão que não tem como esquecer. Uma responsabilidade que vem de longe. No canto de uma das mesas do escritório, está o lembrete: "Se eu pudesse e meu dinheiro desse, não há nada no mundo que eu não fizesse". Frase de dona Nenzinha. "Ela tinha vários ditados e fui criada com eles, mas ela falava muito essa frase... Sempre foi rígida e brava, mas ao mesmo tempo muito educativa com a gente [os netos]. Ela queria muito que a gente pudesse voar. Pudesse ir além das fronteiras do que ela foi".

Com certeza muita gente conseguiu voar. E muitos outros já abrem suas asas.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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