COMPORTAMENTO
31/08/2018 16:23 -03 | Atualizado 31/08/2018 16:23 -03

Por que (às vezes) nos sentimos tristes depois do sexo, mesmo quando foi bom

Aquela tristeza inexplicável que você talvez sinta depois do sexo é muito comum.

Marin via Getty Images

Quando tinha 20 e poucos anos, o jornalista Brandon G. Alexander, de Los Angeles, frequentemente sentia uma tristeza inexplicável depois de fazer sexo, mesmo quando tinha sido um sexo "bom" com uma pessoa de quem ele gostasse.

"A melhor maneira de descrever o sentimento é de vazio ou às vezes vergonha, dependendo do relacionamento e da intenção que você tem com a pessoa", disse Alexander – que tem 30 anos e é o fundador do site de estilo de vida para homens New Age Gents – ao HuffPost.

"Nossa cultura ensina os homens como terem ligação física com alguém, mas passamos por cima da verdade de que o sexo é algo altamente emocional e espiritual. A ideia de que os homens não sintam alguma coisa antes, durante ou depois do sexo é irreal, mas a maioria dos homens foi condicionada a pensar de outro modo."

O que Alexander sentia anos atrás é o que pesquisadores descrevem como "disforia pós-coito". A DPC, como eles a descrevem, é uma condição que se caracteriza por sentimentos de agitação, melancolia, ansiedade ou tristeza após a relação sexual, mesmo quando foi sexo bom e consensual. A condição pode durar entre cinco minutos e duas horas.

Ela também é chamada de "post-coital tristesse" (tristeza pós-coito). O filósofo Baruch Spinoza, no século 17, resumiu o problema dizendo: depois que "o gozo do prazer sensual passa, segue-se a maior tristeza".

Muitos estudos já analisaram as três primeiras fases do ciclo de resposta sexual humana (excitação, platô, orgasmo), mas muitas vezes se passa por cima da fase da resolução.

Mas isso está começando a mudar. Em um estudo de 2015 publicado pelo Journal of Sexual Medicine, quase metade das mulheres entrevistadas relatou ter sofrido DPC em algum momento da vida, e 5% disseram que a sentiram regularmente nos 30 dias anteriores.

Um novo estudo dos mesmos pesquisadores, publicado em junho, sugere que a DPC seja quase igualmente prevalente entre os homens: em uma pesquisa online realizada com 1.208 homens, 40% dos entrevistados revelaram que tiveram DPC em algum momento da vida e 4% disseram que o problema é comum para eles.

Em trechos da pesquisa, os homens admitiram que depois de fazer sexo, têm "um sentimento forte de autoaversão" e "muita vergonha". Outros relataram ter sofrido "acessos de choro e episódios de depressão grande" depois de fazer sexo, coisas que às vezes deixaram seus parceiros preocupados.

Os homens que sofrem de DPC acham que são a única pessoa do mundo a passar por isso, mas precisam saber que há uma diversidade de coisas que as pessoas vivem na fase de resolução do ciclo sexual."Robert Schweitzer, professor de psicologia na Queensland University of Technology, na Austrália.

Apesar do grande número de homens que relata sentir DPC, não é fácil estudar a condição porque a maioria dos homens reluta em falar do assunto, disse Robert Schweitzer, autor principal dos dois estudos e professor de psicologia na Queensland University of Technology, na Austrália.

"Os homens que sofrem de DPC acham que são a única pessoa no mundo a passar por isso, mas precisam saber que há uma diversidade de coisas que as pessoas vivem na fase de resolução do ciclo sexual", disse Schweitzer ao HuffPost. "Como é o caso com muitos diagnósticos, a possibilidade de dar nome ao fenômeno pode proporcionar algum alívio. (Schweitzer continua a colher relatos de pessoas com DPC para sua pesquisa.)

Quanto às razões por que a DPC é tão comum entre homens e mulheres, um estudo de gêmeos sugeriu que a genética pode exercer algum papel nisso. A DPC também é vinculada frequentemente a abuso sexual, traumas e disfunção sexual, mas não é esse o caso sempre, com certeza. No estudo mais recente, a maioria dos homens que relatou sofrer de DPC não tinha passado por esses problemas e estava em relacionamentos de outro modo sadios e satisfatórios.

Schweitzer acredita que a DPC é fruto de fatores físicos e psicológicos somados. Fisicamente falando, o orgasmo ativa uma enxurrada de endorfinas e outros hormônios que geram sensações de prazer, mas é seguido pela prolactina, que leva esse efeito prazeroso a passar, às vezes de maneira intensa. Psicologicamente falando, o estudo aponta para uma correlação entre a frequência de DPC e "sofrimento psicológico elevado" em outros aspectos da vida de uma pessoa.

Às vezes os fatores psicológicos são intensificados porque a pessoa sabe que não tem conexão emocional alguma com seu parceiro sexual, disse Kimberly Resnick Anderson, terapeuta sexual de Los Angeles que não teve envolvimento no estudo.

Ela explicou: "Alguns de meus clientes, especialmente homens com compulsões sexuais, relatam sofrer disforia pós-coito porque no íntimo sabem que não existe vínculo entre eles e a pessoa com quem estão tendo sexo".

Outras vezes os pacientes receiam que o parceiro não tenha gostado tanto assim da relação sexual.

"Se você acha que seu parceiro estava apenas transando para agradar a você e não estava genuinamente interessado, isso pode gerar um sentimento de vergonha e culpa", explicou a terapeuta.

Segundo ela, é importante manter em mente que o sexo pode ter significados diferentes para as pessoas em fases diferentes da vida. E, como revelam esses estudos recentes, é totalmente natural ter sentimentos complicados e nuançados após a relação sexual.

Precisamos conversar mais sobre os homens e a intimidade. Quanto mais dissermos aos homens que é tudo bem sentir emoções – ou, às vezes, proteger seu coração, esperando um pouco antes de transar com alguém --, mais vamos transformar as ideias antigas sobre os homens e o sexo.Brandon G. Alexander, jornalista

Pode haver maneiras de combater os sentimentos negativos. Para começo de conversa, em vez de se levantar e ir embora logo depois de transar, fique um pouco mais com a pessoa. Se você está num relacionamento, em vez de levantar e ir para a sala assistir a algo no Netflix, continue abraçado com seu parceiro, trocando carinhos. Um estudo de 2012 sobre a fase de resolução do sexo mostrou que os casais que trocam beijos e abraços após a relação sexual sentem maior satisfação sexual e no relacionamento.

E seja sincero sobre seus próprios sentimentos depois do sexo, sem culpar a você mesmo ou a seu parceiro. Como mostram as pesquisas, homens e mulheres sentem todo um espectro de emoções depois do sexo, e isso é perfeitamente normal.

Isso é algo que Brandon Alexander, o jornalista que sofria de DPC com frequência quando estava na casa dos 20 anos, aprendeu por conta própria quando chegou mais perto dos 30.

"Como homem, você não deve tentar ficar indiferente ou encarar a DPC em silêncio", ele falou. "Precisamos conversar mais sobre os homens e a intimidade. Quanto mais dissermos aos homens que tudo bem sentir emoções – ou, às vezes, proteger seu coração, esperando um pouco antes de transar com alguém --, mais vamos transformar as ideias antigas sobre os homens e o sexo."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.