ENTRETENIMENTO
31/08/2018 10:21 -03 | Atualizado 31/08/2018 10:52 -03

Estou apaixonada por 'Para Todos os Garotos Que Já Amei', da Netflix

Eu me casaria com este filme, ou pelo menos o namoraria por algum tempo. Ele tem suas falhas, é claro, mas nenhum namorado é perfeito.

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A comédia romântica é um gênero abrangente. Pode incluir filmes de arte incomuns, filmes cheios de humor pastelão, para serem vistos com um balde de pipoca na mão, ou, ainda, filmes cheios de chavões, feitos para serem curtidos em maratonas da Hallmark (rede de televisão americana paga). Gosto de todos, mais ou menos, mesmo aqueles dos quais desaprovo (estou olhando para você, A Verdade Nua e Crua. Na realidade já olhei para você de ponta a ponta, apesar de sua trama incrivelmente misógina.)

Mas o melhor tipo de comédia romântica, na minha opinião, não é na realidade a melhor comédia romântica, no sentido de ser aquela que é mais bem feita, com a narrativa mais ambiciosa ou o roteiro mais aguçado. Não precisa ser o tipo de filme que ganha Oscars. É a comédia romântica que me atinge como uma paixão dos tempos colegiais, irracional e obsessiva.

Para Todos os Garotos Que Já Amei é minha nova paixão. O filme enche minha cavidade peitoral de emoções borbulhantes, agridoces. Eu me casaria com este filme, talvez, ou pelo menos o namoraria por algum tempo. Ele tem suas falhas, é claro – alguns fios narrativos que ficam soltos, alguns detalhes improváveis, deixa um pouco a desejar no lado cômico --, mas nenhum namorado é perfeito.

Será que poderia dar certo? Bom, os relacionamentos exigem compromisso, como minha dedicação em assistir a este filme do começo ao fim três vezes nos três dias desde que o vi pela primeira vez. Os relacionamentos exigem trabalho, como o esforço incansável que estou dedicando para localizar e rever as cenas mais objetivamente adoráveis no filme, mais ou menos 43 vezes cada (não foi fácil – há muitas dessas cenas).

Quero falar com todo o mundo sobre o filme, mas também me sinto possessiva, ciumenta. Quero que as pessoas concordem e entendam como eu me sinto em relação a ele, mas, se elas o fazem, sinto uma dorzinha no coração por saber que outra pessoa pode compartilhar esse sentimento tão especial meu.

Infelizmente para meu cérebro primitivo egoísta e felizmente para outros fãs de comédias românticas, Para Todos os Garotos Que Já Amei chegou ao Netflix. Agora ele pertence a todos nós.

Baseado no romance homônimo de Jenny Han, adaptado para as telas por Sofia Alvarez e dirigido por Susan Johnson, Para Todos os Garotos Que Já Amei acompanha a primeira história de amor de uma garota de 16 anos obcecada por histórias de amor, Lara Jean Song Covey (Lana Condor). No início do filme ela é uma garota que vive em casa, tem poucas amigas e nunca saiu com nenhum menino. Ela é muito amiga de suas duas irmãs e ama seu pai, um ginecologista bem intencionado (John Corbett) que encarregou suas filhas mais velhas de manter a casa e a família funcionando após a morte precoce da mãe delas.

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Lara Jean é uma romântica inveterada, que enche a cabeça com livros de romance e tem uma caixa azul-petróleo onde coloca cartas de amor que escreve aos garotos por quem já foi apaixonada no passado. Uma dessas suas paixões passada, seu vizinho e melhor amigo Josh Sanderson (Israel Broussard), não está exatamente no passado. Porém, infelizmente, ele é também há muito tempo o namorado da irmã mais velha de Lara Jean, Margo (Janel Parrish). Mas quando Margot parte para fazer faculdade a meio mundo de distância, ela termina com Josh e deixa um vazio tremendo na vida social de Lara Jean.

A irmã de 11 anos de Lara Jean, Kitty (Anna Cathcart), garota esperta e sociável, fica com pena de Lara Jean, que é tímida e desajeitada, e, num gesto impulsivo que visa jogá-la de cabeça no mundo dos romances colegiais, coloca no correio todas as cinco cartas de amor da caixa de Lara Jean – incluindo a carta endereçada a Josh.

Horrorizada com a ideia de que o objeto de sua paixão mais proibida e secreta agora tem provas dos sentimentos dela, Lara Jean faz de tudo para lhe dar a impressão contrária. Quando o garoto mais popular do colégio, Peter Kavinsky (Noah Centineo), outro que recebeu uma carta de amor dela, a procura para lhe dizer gentilmente que está em outra, Lara Jean aproveita para lhe tascar um beijo na frente de Josh. Peter percebe que isso pode ser útil para ele também – sua namorada, Genevieve (Emilija Baranac), a ex-melhor amiga e atual inimiga de Lara Jean, acaba de terminar com ele para namorar um universitário. Ele está louco para provocar ciúmes em Gen para que ela queira voltar com ele. Ele e Lara Jean assinam um contrato, combinando que vão fazer de conta que estão namorando, até que Josh abandone a ideia de que Lara gosta dele e até que Gen queira Peter de volta.

A cena está montada: uma situação improvável que leva a um relacionamento de mentirinha. É um cenário clássico de comédia romântica. A história segue adiante com cenas e imagens familiares, coisas das quais me lembro de comédias românticas anteriores que também adorei como Um Amor Para Recordar, Ela é Demais, Dez Coisas Que Eu Odeio em Você – filmes que fazem você lembrar visceralmente da emoção assustadora do primeiro amor.

Mas Para Todos os Garotos Que Já Amei acerta em cheio em todos os quesitos, em parte porque remodela os clichês misóginos e superficiais do gênero.

Mas Para Todos os Garotos Que Já Amei acerta em cheio em todos os quesitos, em parte porque remodela os clichês misóginos e superficiais do gênero de maneiras que o fazem parecer mais fiel à realidade, mas também mais otimista.

O filme faz um aceno um pouco controverso à história problemática do gênero comédia romântica. É numa cena em que Lara Jean e Kitty, cuja mãe era americana de origem coreana, compartilham com Peter o filme favorito delas, Gatinhas e Gatões.

"Esse personagem [Long Duk Dong] não é meio racista?", pergunta Peter, confuso. "Não meio racista, extremamente racista", Lara Jean responde sem pestanejar.

Ela e Kitty assistem ao filme porque curtem Jake Ryan, o galã da história. É claro que comédias românticas contendo caricaturas abertamente racistas não eram as únicas que as irmãs Covey podiam assistir, mas essa é a questão: as garotas asiático-americanas precisam procurar suas doses de cultura pop onde puderem encontrá-las, mesmo correndo o risco grave de ser não apenas deletadas, mas ironizadas.

Em Para Todos os Garotos Que Já Amei, uma garota asiático-americana é a heroína, não a melhor amiga da heroína nem uma personagem caricata. Mas não é só isso. Há o pai ginecologista viúvo (pense em Dez Coisas Que Eu Odeio em Você), mas agora, em vez de militar pela abstinência das filhas, ele dá apoio a elas e é a favor da educação sexual. Há a garota popular e do mal, Gen, que exerce um fascínio sobre Peter, mas isso não é mostrado como uma espécie de controle sexual mental estranho, e sim como o resultado realista de um primeiro amor entre duas pessoas falhas que sempre vão ter sentimentos uma pela outra. É o relacionamento de mentira que não é mostrado como uma brincadeira do garoto cool às custas da nerd tímida, mas como um projeto que os dois compartilham. Nem sequer há uma cena em que Lara Jean muda seu visual completamente e então Peter finalmente entende que ela é capaz de ser sexy – em vez disso, ele se apaixona por ela exatamente do jeito que ela é, porque ela é alguém com quem ele consegue conversar e se divertir.

Mas o ingrediente mais importante para um filme realmente apaixonante tem que ser protagonistas por quem podemos nos apaixonar. Lana Condor e Noah Centineo são exatamente isso. Condor é inocente e irresistível no papel da garota tímida de 16 anos, com toda a falta de malícia de uma garota que se descobre ao lado do menino mais desejado do colégio. Noah Centineo, com suas sobrancelhas escuras expressivas, seu sorriso torto e voz rouca, é igualmente sedutor quando está brincando com Lara Jean ou olhando para ela de coração aberto. Mesmo em seus momentos mais desagradáveis – afinal, ele começa a história como o jogador de lacrosse que namora a garota sensual e insuportável --, ele transmite uma gentileza e vulnerabilidade fundamentais, qualidades pelas quais parece inevitável que a romântica Lara Jean acabe se apaixonando por ele.

Francamente, quem não se apaixonaria? Olhem para os dois, vocês monstrinhos! Não me digam que não queriam estar no relacionamento fictícios deles neste exato instante!

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Quando o filme chegou ao fim, eu estava chorando, principalmente de tristeza por minha adolescência desperdiçada que passei garantindo que garoto algum soubesse que eu gostava dele, para me poupar de possíveis rejeições. Com essa estratégia você não ganha um lindo romance juvenil que poderá guardar na memória para sempre.

Como minhas lágrimas abundantes provavelmente deixam entrever, podemos discutir se este filme é exatamente uma comédia romântica. Para Todos os Garotos Que Já Amei não é um drama choroso como Um Amor Para Recordar ou Diário de Uma Paixão, mas também não tem muitas piadas ou gags que façam você rolar de rir. Em vez disso, é algo que cala muito mais fundo: um filme suave, espirituoso, delicado e cheio de nuances que trata da família, do amor e do amadurecimento, tudo isso envolto em uma história de amor ao mesmo tempo verossímil, por ser tão desajeitada, e uma fantasia irresistível.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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