MULHERES
03/09/2018 13:34 -03 | Atualizado 03/09/2018 13:34 -03

Ela usou uma camiseta com a palavra 'vagina' estampada, e homens se enfureceram no Instagram

A atriz indiana Saloni Chopra foi fortemente criticada. Afinal, por que tantos homens e mulheres acham que “vagina” é um palavrão?

Reprodução/Instagram
O quão ofensiva pode ser uma camiseta com a palavra "vagina" escrita?

"Se minha garota usasse isso e viesse para minha casa, diante dos meus pais, eu morreria de vergonha", disse um homem na seção de comentários de um post escrito por um usuário popular do Instagram. Sua reação foi ecoada por dezenas de outros usuários, incluindo contas no Instagram com nomes que soam como os de mulheres indianas. "Mulher loser", "sem-vergonha" – a polícia moral saiu em peso dos cantinhos onde se esconde nas redes sociais.

Então exatamente o que foi que perturbou a sensibilidade moral delicada desses usuários do Instagram?

Uma camiseta branca de mangas curtas usada pela atriz indiana Saloni Chopra.

Por que?

Porque trazia estampada a palavra "vagina" e sua definição segundo o dicionário.

Enquanto dezenas de usuários focaram o post simplesmente para lançar obscenidades contra feministas em geral e Chopra em particular, outros – principalmente homens – postaram definições da palavra "pênis" tiradas de dicionários e questionaram como seriam as reações se um homem usasse uma camiseta com "vagina" estampada sobre ela. Quando outros usuários, homens e mulheres, contestaram os internautas que reagiram com xingamentos, as respostas foram incoerentes e descambaram em enxurradas de palavrões.

As pessoas não pareciam saber exatamente por que estavam tão indignadas com o uso da palavras, mas estavam convencidas que vergonha e rejeição eram as únicas reações possíveis.

Noun:

A post shared by Saloni Chopra (@redheadwayfarer) on

Deixemos os homens de fora da questão por um instante. Por que as mulheres estão tão constrangidas?

Chopra disse ao HuffPost Índia: "Uma parte enorme da plateia que ataca é formada por mulheres, sem dúvida. Mas eu sempre falei que mulheres podem ser as maiores inimigas de mulheres – e não é com intenção negativa. Não é que elas queiram te ferir, é porque foram condicionadas a pensar que qualquer coisa que fuja das regras de 'minha dignidade, meu corpo, meu orgulho' é vergonhosa", disse Chopra ao HuffPost Índia.

As mulheres foram condicionadas a pensar que qualquer coisa que fuja às regras de "minha dignidade, meu corpo, meu orgulho" é vergonhosa.

"Acontece que são mulheres que também criam todos os homens. Logo, quando um homem vira adulto e desrespeita qualquer mulher que não cala a boca e concilia, como sua mãe faria, ele falta ao respeito com a própria mãe."

Chopra disse que, independemente de como as mulheres se relacionam com seu corpo – quer elas "queiram cobrir a cabeça ou arrancar o sutiã" --, ela quer que as mulheres defendam umas às outras.

Esta não é a primeira vez que a palavra "vagina" leva uma parcela dos usuários de redes sociais na Índia a se levantarem em protesto. Quem se lembra da confusão em torno da carta aberta da atriz Swara Bhasker em que ela disse que o filme "Padmaavat" a fez sentir-se reduzida a uma vagina?

"Sim, as mulheres têm vagina, mas têm mais que isso", escreveu Bhasker. "Então a vida inteira delas não precisa girar em torno da vagina, do controle e proteção dela, de conservar sua pureza. (Talvez esse fosse o caso no século 13, mas no século 21 não precisamos subscrever essas ideias limitantes. Certamente não precisamos glorificar essas ideias.)"

Muitos homens (e algumas mulheres) pregaram para Bhasker, Chopra e quem quisesse defendê-las que o feminismo não envolve falar palavras como "vagina" em voz alta sem se envergonhar disso, mas significa lutar por questões "mais importantes", como resolver o problema da fome e da disparidade salarial. É claro que a maioria desses defensores infelizes do feminismo deixou de entender que eles continuam a sexualizar o corpo feminino obsessivamente e a exigir que as pessoas "sintam vergonha" dessa parte do corpo. As culturas patriarcais pelo mundo afora sempre associaram a vagina à fraqueza e passividade e usaram a palavra como xingamento para denotar falta de coragem e convicção.

Mahabanoo Mody-Kotwal, que adaptou Monólogos da Vagina, de Eve Ensler, para uma série de produções teatrais icônicas na Índia, se lembra de uma atriz que veio fazer um teste para a peça. "Ela falou que ela própria não diria a palavra 'vagina' em voz alta sobre o palco", Kotwal contou ao HuffPost Índia. "Ficava falando 'o que vou dizer ao meu guru e a meus amigos?'."

Ela considera a reação à camiseta de Saloni Chopra "lamentável" e disse que, se as pessoas não forem capazes de verbalizar a palavra "vagina", deveriam realmente questionar sua própria existência. "Gostem disso ou não, o fato é que antes de nascer elas passaram um bom tempo sendo gestadas dentro de um corpo feminino, bem pertinho de uma vagina", ela comentou.

Gostem disso ou não, antes de nascer elas passaram um bom tempo sendo gestadas dentro de um corpo feminino, pertinho de uma vagina.

Kotwal contou que, embora poste notícias sobre sua peça com frequência no Facebook e tenha quase 5.000 pessoas em sua lista de seguidores e amigos, nunca sofreu o tipo de críticas virulentas direcionadas a Chopra ou Bhaskar. Ela atribui isso ao privilégio de conhecer pessoas que já tiveram a oportunidade de se educar sobre questões de sexualidade. Para ela, a ansiedade moral sentida por pessoas ao verbalizar a palavra "vagina" se deve, em última análise, à falta de informação.

Ela relatou um incidente em que a diretora de uma escola mista em Mumbai a convidou recentemente a encenar a peça na escola. Kotwal, que vem apresentando a peça há 16 anos em cidades de toda a Índia, não sabia o que esperar e ficou apreensiva, pensando nas reações de espanto e escárnio que uma peça desse tipo poderia evocar entre estudantes secundaristas. Mas a diretora estava convencida da importância de a peça ser encenada. Então ela foi encenada duas vezes, em apresentações separadas para meninos e meninas. "A reação foi surpreendente. Os estudantes foram tão receptivos e inteligentes que fizemos um workshop de dois dias para discutir questões de sexualidade com eles", contou Kotwal. "Meninos e meninas assistiram ao workshop juntos."

Ela disse que é importante, também, não usar nomes fictícios ao falar com crianças sobre a genitália. "A educação começa com as crianças. Tenho netos que chamam a vagina de vagina e o pênis de pênis desde que tinham 3 anos de idade. Eles nunca usaram termos como choo choo ou chee chee, como as pessoas tendem a fazer. Em contextos de higiene ou de sentir desconforto, eles usam especificamente os termos 'vagina' e 'pênis'. É assim que ensinamos a eles", ela disse.

Para Kotwal, a demonização e sexualização da vagina também faz com que seja mais difícil para as vítimas de violência sexual denunciarem publicamente o que sofreram. "Recentemente uma mulher me procurou depois da apresentação e me abraçou. Contou que tinha sido violentada e mal conseguia falar do assunto. Mas, depois de assistir a Monólogos da Vagina, ela entendeu que há pessoas como ela, que já passaram por algo semelhante."

*Este artigo foi originalmente publicado no HuffPost India e traduzido do inglês.