01/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 05/09/2018 11:53 -03

Carol Barreiro, o encontro da força com a determinação no kung fu

Ela foi do balé para a arte marcial e hoje usa seus movimentos para ensinar o balanço entre força e objetividade para outras mulheres. "A verdade é que ser mulher é uma luta cotidiana."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Carol Barreiro é a 178ª entrevistada de "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Diz um provérbio chinês que uma árvore flexível e delicada pode resistir a ventos e tempestades. A premissa vai de encontro com a energia feminina que traz um movimento suave, mas ao mesmo tempo de força e garra. E foi justamente essa onda entre a calma e a potência que conquistou Carol Barreiro, de 31 anos, e a levou para a prática do kung fu. A bailarina descobriu a sua guerreira interior na arte marcial depois de muito treino, estudo e quebra de padrões. Hoje ela vai além e dá aulas exclusivamente para mulheres e meninas para passar adiante seus conhecimentos.

Carol nasceu em Porto Alegre e se mudou para Brasília aos quatro anos. Desde de pequena entrou nas aulas de balé clássico e praticou durante quase toda infância e adolescência. Começou a cursar artes cênicas na universidade e se jogou na dança contemporânea. Um primo a chamou pra fazer uma aula de kung fu e lá foi ela em busca de condicionamento físico e disciplina. "Comecei a treinar mas senti que não gostava muito da coisa da violência. Não me sentia muito à vontade quando tinha um movimento mais de contato também porque a turma era só de homens. Então demorou um tempo para eu entender a prática, especialmente como defesa feminina".

Foi difícil sair da minha zona de conforto e ver a minha relação com a força e com a raiva.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
A bailarina descobriu a sua guerreira interior na arte marcial depois de muito treino, estudo e quebra de padrões.

No kung fu, Carol precisou encarar algumas barreiras que ela acreditava que a impediam de ir além, especialmente pelo fato de ser mulher. "Apesar de eu ter adquirido força e flexibilidade, colocar isso na arte marcial foi complicado, encarar a fragilidade do corpo feminino, ainda mais com 1,50 de altura, de estar no chamado lugar mais fraco, pelo nível de testosterona e a questão fisiológica, você começa ver só desvantagens técnicas, mas a gente vai aperfeiçoando e de repente começa a ver as vantagens", aponta.

Ela se esquivava nos momentos de luta da aula e confessa que demorou um pouco para perceber a relação com a sua guerreira interior que precisava acessar para seguir na arte marcial. "Eu sempre ficava sentada ou ia direto pra meditação até que cansei, e teve um dia que eu gostei do treino porque eu me senti enraizada e capaz de fazer. Depois de quase cinco canos treinando eu conseguir ter certeza do que o que eu estava fazendo era uma coisa muito mais energética do que um golpe físico. Comecei a entender que o feminino vai muito além da força e da velocidade".

Nós, mulheres, conseguimos fazer uma internalização de energia que nos dá uma outra capacidade de luta.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
O kung fu se baseia na filosofia taoista do processo de conscientização do movimento e do fluxo de energia.

Se por um lado os meninos são carregados desde pequenos com esse encontro com o guerreiro, seja com os videogames, seja com a brincadeira de luta, as meninas se sentem vulneráveis à violência. E acabam perdendo esse lugar de força. Para Carol, o tema da luta como forma de defesa ainda é tabu para muitas mulheres, mas é algo que nós encaramos constantemente no momento que dobramos a esquina de casa. "Estamos acostumadas com um silêncio muito mais cruel e intimidador que nos coloca sempre numa prontidão, onde precisamos criar uma capa, onde a gente não se sente segura ao atravessar uma rua de noite. Demorou muito tempo para eu olhar pra esse lugar, onde estava essa energia no meu corpo. Eu negava à princípio, mas ela já existia porque o ataque sempre existiu", comenta.

A verdade é que ser mulher é uma luta cotidiana.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
No kung fu, Carol precisou encarar barreiras que ela acreditava que a impediam de ir além.

O kung fu se baseia na filosofia taoista do processo de conscientização do movimento e do fluxo de energia. "Tem algumas posturas e tipos de movimentos que trabalham não só o gastar a energia, mas revitalizar o corpo. E não necessariamente tem que ter força", aponta a professora. A prática é muito mais do que uma atividade física ou um jeito de manter a forma. "É um treinamento desta composição energética e não sobre se minha perna está flácida ou não. É um trabalho duro que precisa de continuidade e disciplina".

Ser professora também foi um processo de superação e quebra para Carol. "Eu estava com uma lesão no joelho e me sentia muito frágil, ficava arrumando desculpa e me botando pra baixo 'quem vai querer uma professora mulher e lesionada?'. Mas fiz a prova por insistência do meu mestre e passei. E acabou surgindo a demanda de outras mulheres pra eu fazer a turma. E rolou um fluxo de pessoas, ainda que as minhas práticas com divulgação e rede social sejam típicas de quem nasceu nos anos 80", brinca.

Como mulheres estamos treinando o tempo inteiro. Temos uma visão de 360 graus quando saímos na rua, por exemplo.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Depois de dois anos como professora, ela sonha em levar suas aulas para a periferia em algum projeto social.

Carol hoje em dia dá aulas de kung fu para mulheres e meninas em busca de força e defesa pessoal. "Dou um treino que eu gostaria de ter". O grupo acaba de tornando uma comunidade onde uma se apoia na outra. Ela tem alunas que vão de 65 anos até 16 anos, além de dar aulas para meninas na faixa dos 10 anos. Depois de dois anos como professora, ela sonha em levar suas aulas para a periferia em algum projeto social. E segue na luta.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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