MULHERES
29/08/2018 12:25 -03 | Atualizado 29/08/2018 17:31 -03

Quatro mulheres amaram outras mulheres na literatura e foram punidas por isso

Dia Nacional da Visibilidade Lésbica denuncia as diferentes formas de opressão e silenciamento vividas pelas mulheres lésbicas.

"Para mim, não há diferença entre escrever um bom poema e me esfregar até o amanhecer no corpo da mulher que amo", disse Audre Lorde.
Montagem/Getty Images
"Para mim, não há diferença entre escrever um bom poema e me esfregar até o amanhecer no corpo da mulher que amo", disse Audre Lorde.

O amor entre mulheres faz parte da história da humanidade desde antes de Cristo. Inspiração para o termo lésbica, a poeta Safo, da ilha de Lesbos, falava desse sentimento na Grécia antiga. "A mais bela coisa deste mundo para alguns são soldados a marchar, para outros uma frota; para mim é a minha bem-querida", escreveu a poeta. Boa parte de sua obra foi perdida durante a Idade Média, pois era considerada muito erótica pela Igreja Católica, mas nos trechos que sobreviveram à censura encontramos declarações às mulheres que amava.

Ao longo da história, o machismo e o preconceito silenciaram e invisibilizam outros tantos relacionamentos afetivos e amorosos entre mulheres. Para lembrar e celebrar esse amor, a cada 29 de agosto comemoramos o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.

A data marca o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas realizado no Brasil, em 1996, para tratar de temas relacionados à violação de direitos das mulheres em razão da sua orientação sexual. Há 22 anos o movimento social já denunciava as diferentes formas de opressão e silenciamento vividas pelas mulheres lésbicas.

Hoje lembramos um pouco da história de quatro mulheres que amaram mulheres e que quebraram de alguma forma esse silêncio através das palavras.

Alice Walker (1944)

A ativista e escritora Alice Walker é uma dos principais nomes da literatura norte-americana no século 20. Em 1982, lançou o livro A Cor Púrpura, que venceu o Prêmio Pulitzer de ficção no ano seguinte e virou filme dirigido por Steven Spielberg em 1985. Até aquele momento, nenhum romance de destaque nos Estados Unidos havia tratado o amor entre duas mulheres de forma tão natural.

A narrativa ambientada no Sul dos Estados Unidos, conta a história de Celie, uma jovem negra, pobre e vítima de uma série de violências, que tem sua vida transformada pela chegada de Shug, uma proeminente cantora de blues."Quando eu estava pensando sobre o processo de cura de Celie, eu olhei para todos aqueles homens com quem ela podia se relacionar. Honestamente, não nenhum deles seria um relacionamento de cura pra ela, porque eles não podiam vê-la", explicou a autora no documentário "Alice Walker: Beauty in truth" (2013). "Shug, por outro lado, podia ver e afirmar todas as qualidades dela e se importar com Celie. Então era muito natural como isso ia acontecer", completou Walker.

Walker foi casada com o ativista Melvyn Roseman Leventhal por dez anos. Nos anos 1990, a escritora viveu um romance com a cantora Tracy Chapman e, posteriormente, se relacionou com outras mulheres. Porém, a autora rejeita o rótulo de lésbica ou bisexual, e se define apenas como "curiosa".

Audre Lorde (1934-1992)

Negra, lésbica e feminista, Lorde dedicou sua arte e sua vida à luta contra as injustiças sociais, contra o machismo, o racismo e a lesbofobia. Com a poesia, ela rompia silêncios com paixão e sinceridade e falava abertamente sobre suas vivências. O amor por mulheres esteve presente na sua obra. "Para mim, não há diferença entre escrever um bom poema e me esfregar até o amanhecer no corpo da mulher que amo", disse Lorde em texto publicado 1978 sobre erotismo, poder e mulheres.

Em "Zami: a new spelling of my name" (1982), a escritora faz uma reconstituição narrativa dos encontros afetivos, eróticos, textuais, de caráter sexual ou não, que Lorde tem com outras lésbicas e mulheres, explica a pesquisadora Tatiana Nascimento do Santos, em artigo publicado na revista Palmares. "Ser negra, mulher, gay, assumida em um ambiente branco, mesmo nos limites da pista de dança do Bagatelle, era considerado, por muitas lésbicas negras, simplesmente suicida", escreveu a poeta.

Elizabeth Bishop (1911-1979)

Foi o amor por uma mulher brasileira que inspirou boa parte da obra de Elizabeth Bishop, uma das mais importantes poetas do século 20 a escrever em língua inglesa. A americana desembarcou no Brasil em 1951, mas o que seria uma visita rápida a conhecidos americanos se tornou uma longa estada de 15 anos, embalada por um romance intenso com a arquiteta Lota de Macedo Soares.

Quando se conheceram, Lota estava terminando de construir sua casa de Petrópolis e convidou Bishop para viver com ela, presenteando-a com um estúdio onde pudesse escrever. Anos mais tarde, a poeta escreveria: "Nunca na minha vida alguém tinha feito um gesto daqueles por mim, e então aquilo simplesmente significou tudo".

Os anos vividos na Serra fluminense foram marcados pelo afeto. O período também foi produtivo para a Bishop, que publicou seu segundo livro "Poems: North & South" (1955), que recebeu o prêmio Pulitzer de poesia, em 1956. A relação das duas acabou desgastada quando Lota assumiu o projeto do Parque do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. A história de amor de Lota e Bishop é contada no livro Flores Raras e Banalíssimas (1995), de Carmen de Oliveira, que foi transformado em filme estrelado por Glória Pires em 2013.

Virginia Woolf (1882-1941)

Ícone feminista, a escritora britânica Virginia Woolf foi revolucionária ao falar sobre as restrições impostas às mulheres no início do século 20. Mesmo casada com um homem, a escritora teve um romance intenso com a poeta Vita Sackville-West. Ela foi mais do que uma amiga, mais do que a inspiração da escritora para dar realidade a Orlando - Uma biografia (1928). Ela foi sua grande paixão.

As provas deste amor estão documentadas no livro The 50 Greatest Love Letters of All Time (As 50 melhores cartas de amor de todos os tempos, em tradução livre - sem edição em português). "Pense nisso. Largue o seu homem, eu digo, e venha", escreveu Woolf, em janeiro de 1927. "Eu sinto falta de você ainda mais do que eu poderia acreditar; e eu estava preparada para sentir sua falta como uma coisa boa. Então, esta carta é realmente apenas um grito de dor", respondeu Vita.