30/08/2018 00:00 -03 | Atualizado 19/09/2018 12:48 -03

Bruna Kury, a performer que busca chocar ao falar de sexo, arte e política

Artista sempre gostou de se comunicar de forma transformadora com seu entorno: "A minha performance tem uma coisa de cavucar privilégios, jogar na cara algumas situações."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Bruna Kury é a 176ª entrevistada de "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Está só com um top vermelho e uma bota preta de salto médio e cano baixo. Os cabelos presos em um rabo de cavalo, de quatro no chão. Usa uma faixa enrolada para se masturbar. Mostra que nela está escrita a palavra "desculonizacion". Depois, usa o cabo de uma faca, introduzido em seu corpo por uma mulher. Fica sozinha em cena. A performance dura pouco mais de dois minutos. Ao fim, é aplaudida. O vídeo é um dos que está em seu site. Um aviso já explica. Devido à censura, poucos estão disponíveis.

Seu lema é claro. Quer cutucar, provocar, mexer com alguma coisa dentro das pessoas. Talvez porque se sinta um pouco assim. Uma parte meio inquieta, uma potência e muita vontade de colocar alguma coisa para fora e coragem de botar a cara na rua. Literalmente. Faz muita performance no espaço público. Que é tão seu quanto de qualquer um que passa por ali. Ocupa. Coloca em cena seu corpo. E cria. Reinventa, muda. Expõe questões, tabus e sabe que esse tipo de ação ecoa de alguma forma. Ninguém é mero apreciador de uma performance. Todos participam. Até mesmo com a indiferença ou rejeição, se for o caso. "A performance reverbera diversas coisas depois, as pessoas não ficam em uma situação mental inerte. A minha performance tem uma coisa de estar cavucando privilégios, jogar na cara algumas situações".

Tem gente que se emociona, chora e se identifica e tem pessoas que jogam coisas, já teve até processo. Só sei que as performances movimentam.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Com a pós-pornografia, Bruna conta que o objetivo e questionar

Ela sabe que pode esperar de tudo depois de uma apresentação. "Quando faço na rua, tem diversos tipos de reação. Tem gente que se emociona, chora e se identifica e tem pessoas que jogam coisas, já teve até processo. Só sei que [as performances] movimentam". E isso é essencial para Bruna Kury, 31 anos. Há cerca de dez anos atua com pós-pornografia e pornoterrorismo, além de ter criado e integrar alguns coletivos como o Coiote e a coletiva Vômito. Sempre com o mesmo objetivo. "Tem a ver com cavucar privilégios com essa localização e esses recortes de gênero, classe, raça e trazer a tona essas questões. O trabalho é também pensar sobre essas marginalidades e faço parcerias com outros coletivos também e essa rede pós-pornográfica tem a ver com uma rede afetuosa de corpos dissidentes que se encontram para produzir performance".

"Não reivindicamos aceitação, queremos a destruição e a ruína do heterocapitalpatriarcal, por outras conjunções nas relações, por afetos livres e sinceros; queremos com nossos corpos-bomba e desobedientes a detonação dos gêneros. O queer já não nos é suficiente, queremos revolução trans, sudaka, mestiça, pobre e precária. Arte com excrementos, desprogramações sociais, guerrilha e subpolíticas desviantes no cotidiano."

[trecho do manifesto da coletiva Vômito]

Bruna conta que sempre teve esse tipo de postura e interesse por arte. Já fez pintura, pichação, lambe-lambe, fanzine. "Gosto de me expressar de uma maneira catártica desde criança. Sempre gostei de me expressar de maneira que seja transformadora de alguma forma tanto para mim quanto para o redor, pensando nessa performance como algo que possa ser um modificador social". Sua vida foi cheia de mudanças. Saiu de casa, no Rio de Janeiro, onde nasceu, cedo, aos 13 anos. De lá para cá, foi amadurecendo seu trabalho, morou por alguns anos no nordeste, conheceu muita gente e passou sete anos viajando com o coletivo Coiote. "Essas viagens tinham muito a ver com fortalecimento de ocupações, movimentos de resistência indígena e eu me considerava nômade. Chegamos até o Uruguai e tive algumas vivências nas ruas, a gente ficava em diversos espaços tanto de ocupação quanto de resistência artística".

Nesses anos todos como nômade, muitas pessoas eram integradas ao coletivo, unidas pela vontade de questionar as mesmas coisas e pelo afeto que a identificação trazia, sempre respeitando as individualidade e histórias próprias de cada uma. "As performances aconteciam em uma dinâmica de muito cuidado e pensar em marginalidades que temos em comum e marginalidades outras também por isso visibilizar outros corpos que não os nossos porque nós também temos privilégios. O trabalho [do coletivo] fala de um processo de descolonização do corpo e da mente".

A minha performance tem uma coisa de estar cavucando privilégios, jogar na cara algumas situações.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Tem a ver com cavucar privilégios com essa localização e esses recortes de gênero, classe, raça e trazer a tona essas questões."

E assim são feitos todos os trabalhos – e provocações – de Bruna. Tudo baseado em muita reflexão, apesar da natureza orgânica da criação e das apresentações em si. Com a pós-pornografia, Bruna conta que o objetivo e questionar "a norma heteropatriarcal e heterocapitalista pensando na pornografia com uma manipulação social de como a gente constrói nosso imagético político e sexual". Ela explica que há um trabalho feito para corpos dissidentes para que esses corpos se sintam representados na pornografia e uma pós pornografia que não necessariamente pretende dar prazer, mas que busca questionar o prazer. "Por isso entramos em outras questões que são tabus que são condicionadas a uma normatividade. As performances que faço tem muito a questão dos excrementos, sangue, urina, fezes. Tem um lugar da escatologia e de poder ser algo que desprograme a mente, algo assim".

Além disso, coloca em prática projetos paralelos com o de pornô pirata. Neste trabalho, Bruna coloca uma banquinha de DVD com seus trabalhos, muitas vezes ao lado de uma banca de pornografia convencional. "E performo na banca, na rua, porque tem a ver também com estar conversando com as pessoas e desses questionamentos e esses posicionamentos transfeministas de dialogar com quem importa, com pessoas marginalizadas que não estão em galerias de arte e instituições e por isso [é importante] fazer na rua."

Tem um lugar da escatologia e de poder ser algo que desprograme a mente, algo assim.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Bruna deixa claro que não pertence a lugar nenhum, na verdade.

São sempre novos encontros. Encontros tão essenciais para Bruna. "O meu processo de transsexualidade acontece entrecruzado com meus processos de performance e criação artística". E enfrenta com tranquilidade possíveis reações negativas ao seu trabalho. Isso porque ela não está em cena para agradar. "As pessoas acham agressivo corpos nus, acham agressivo quando a gente coloca na performance excrementos, e tem esse lugar de desprogramação e pensar que por exemplo todo mundo também tem esses excrementos e por que não conversar sobre isso? Por que colocar isso como tabu? Por que um corpo atrativo é branco e magro e de repente acham agressivo o que somos?"

Apesar de reconhecer que o caminho ainda é longo para desprogramar o pensamento de muita gente, sabe que conseguiu mexer em muita coisa. Nela mesma, pelo menos, pode garantir. E segue com seus questionamentos. "Questiono as diversas instituições que em algum momento se cruzam e fazem parte do que é o sistema. A família nuclear, a heterossexualidade compulsória, o que é a polícia, o estado, essas instituições que boicotam corpos dissidentes, corpos negros, trans, enfim". Tem muita coisa ainda para continuar sendo objeto de provocação para ela.

Nasci no Rio, mas não sou do Rio de Janeiro, sabe? Gosto de falar que me considero sem fronteiras.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Bruna expõe questões, tabus e sabe que esse tipo de ação ecoa de alguma forma no mundo.

E assim fará. Hoje, mora em São Paulo e tem feito trabalhos na capital paulista, mas está sempre aberta e com projetos em outros lugares. Porque Bruna deixa claro que não pertence a lugar nenhum, na verdade. "Nasci no Rio, mas não sou do Rio de Janeiro, sabe? Gosto de falar que me considero sem fronteiras".

Como uma obra de arte sem molduras – e limites. Transborda e extravasa. Porque tem coisas que não tem como segurar e controlar – mesmo que se tente. Aí fica impossível não ver e não sentir nada.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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