COMPORTAMENTO
28/08/2018 18:12 -03 | Atualizado 28/08/2018 19:56 -03

Envelhecer: O que podemos aprender sobre o amor em um relacionamento de 60 anos

"O que mais me impressiona é que agora temos tempo para nós dois."

Acervo Pessoal
Edna e Moacir de Carvalho estão juntos há 60 anos.

Pode até parecer bonita a ideia do amor romântico que os filmes da sessão da tarde costumam vender por aí. Mas o fato é que estar em um relacionamento é mais do que esperar pelo príncipe (ou princesa) encantado que será o nosso par perfeito por toda a vida.

O amor é uma decisão. Você pode até não escolher por quem você se apaixona, mas é você que decide permanecer ao lado de um companheiro ou companheira. E, para que o relacionamento dê certo, o respeito, o cuidado e a admiração devem ser uma das principais bússolas para o casal.

Quem compartilha essa visão é o aposentado Moacir Schul de Carvalho, de 77 anos. Há 60 anos ele conheceu a sua companheira Edna e, desde então, eles decidiram que iriam compartilhar as suas vidas. Mas como manter e renovar um amor por tanto tempo?

Para Moacir, o mais interessante dessa história é saber aproveitar as fases que a vida oferece para o casal. Hoje, com 2 filhas e 4 netos, Moacir e Edna garantem que nunca tiveram tanto tempo para eles.

A gente passeia, a gente fica junto, a gente namora. Eu sou muito satisfeito de ter ela como a minha parceira.

Mas nem sempre foi assim. Envelhecer e namorar raramente são palavras justapostas em uma mesma frase, não apenas pelo tabu e estereótipo que existem em relação ao desejo das pessoas, mas também por questões relacionadas à saúde e à intimidade.

Por exemplo, no Brasil, a perda dentária é um dos principais problemas do envelhecimento. Ao todo, 39 milhõesde brasileiros convivem com perda total ou parcial de dentes e utilizam dentaduras. Destes, 41,5% são pessoas com mais de 60 anos.

Na pesquisa "Percepções latinoamericanas sobre perda de dentes e autoconfiança" , realizada por Corega com mais de 600 adultos e idosos entre 40 e 75 anos, 43% dos entrevistados afirmaram que com a perda dentária, ficou muito mais difícil namorar. Isso porque, para mais da metade (52%) dos entrevistados perder os dentes afetou a sua aparência e outros 46% afirmam que isso deixou eles menos atraentes. Como resultado, 23% dos ouvidos disseram que a perda dentária afetou o relacionamento com os seus parceiros.

E é por isso que a história de Moacir e Edna serve como inspiração para muita gente. Moacir sofreu com inflamações e doenças bucais. Isso fez com que, apenas 2 anos após o casamento, ele precisasse passar por uma cirurgia de retirada de todos os seus dentes. Desde então, Moacir convive com uma prótese completa.

"Foi um período difícil, mas eu não me senti envergonhado. A minha esposa cuidou de mim melhor do que ninguém e não me julgou. As pessoas não deveriam se incomodar em usar a prótese", conta.

Conheça mais detalhes do depoimento de Moacir Schul de Carvalho ao HuffPost Brasil:

"Eu conheci a minha esposa quando ela tinha 11 anos. A Edna se mudou de Socorro e foi morar na rua em que eu morava em Sao Paulo, na Vila Maria. Quando eu tinha 16 anos e ela 14, a gente começou a namorar. Desde então estamos juntos. Namoramos 7 anos e casamos. Temos 53 anos de casados e faz 60 anos que estamos juntos.

Já vivemos diversas fases. Inclusive, quando eu perdi todos os dentes, ela cuidou bem de mim. Fazia sopas, mingau e as comidas tudo bem picadinho. Ela foi quase uma enfermeira. Em nenhum momento ela fez qualquer comentário sobre meus dentes, de crítica ou de nojo. Ela foi parceira até o fim. E assim tem sido com a gente.

Ela foi parceira até o fim. E assim tem sido com a gente.

Hoje, o que mais me impressiona é que agora temos tempo só para a nós dois. Isso porque quando eu me aposentei, nós viemos morar em Socorro, que é uma cidade mais tranquila, tem muita natureza, muitas atividades. Aqui não falta opção para esportes e aventuras e os dois amam isso.

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Eu não tenho dúvidas: Nós temos uma boa parceria, uma ótima convivência. Mas, se você me perguntar uma coisa... Acho que o nosso segredo é o respeito. Eu sempre dividi tudo com ela. Desde as tarefas de casa, como criar nossos filhos, até as minhas inseguranças. Tudo. Ao mesmo tempo, eu sempre respeitei a individualidade dela, os compromissos dela, os momentos em que a gente não necessariamente precisava estar junto.

Mas isso não quer dizer que a gente goste de se afastar. Nós também dividimos muitos interesses em comum. A gente sempre tem atividade junto, sempre vamos em eventos, ela adora ir na academia comigo. Eu faço natação e até aula de zumba com ela.

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Claro, nem sempre a gente concorda em tudo. Quando a gente tem que lidar com as nossas diferenças, é importante a gente saber que a gente precisa ceder também. Se você começa a achar que tudo tem que ser do seu jeito, que você sempre tem razão, aí complica. Vão ter conflitos, não tem como evitar, é assim em qualquer relacionamento.

Eu vivo muito bem com a minha esposa, apesar de termos 60 anos juntos. Ela é ativa, a gente faz academia juntos. Ela é muito bonita, a gente se cuida para que isso permaneça assim, um sempre admirando o outro.

Tem uns colegas lá de Socorro que até ficam bravos comigo, porque eu e a Edna fazemos tudo juntos. Ai tem outros casais que acabam comparando, sabe? Mas essa parte já não é comigo. Eu sei o que cabe a mim e à Edna.

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E não é porque nos conhecemos há 60 anos que acabou a graça. Pelo contrário. Posso te dizer que até a fase amorosa melhorou agora. Quando você tem filhos, você precisa dividir seu tempo com as crianças. E tem maridos que não aceitam, quem se sentem excluídos porque a mulher está cuidando dos filhos. Ou o marido não quer ter essas responsabilidades.

Mas não é assim, tem que entender que o tempo do casal é dividido mesmo. E hoje em dia nós temos o nosso tempo, a gente passeia, a gente sai, a gente namora. Eu tenho muita satisfação de estar junto com ela.

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Agora nós estamos em outra fase. Com os netos é outra história, porque eles vem passar as férias, então é sempre aquela bagunça. A gente faz bastante atividade nos parques, de arvorismo até o rafting. Eles me chamam de vovô maluco. Vai entender ... (risos)."