29/08/2018 00:00 -03 | Atualizado 30/08/2018 18:40 -03

Caroline Bispo e a luta para mudar a realidade das mulheres encarceradas

Advogada carioca criou grupo para mulheres discutirem ações efetivas para população carcerária feminina: “Um mundo sem prisões seria o melhor para essas mulheres."

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Caroline Bispo é a 175ª entrevistada de "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Na infância Caroline Bispo, 30, tinha um sonho: fazer a diferença na vida das pessoas. Guiada pela vontade dos tempos de criança, ela escolheu o Direito, a carreira que poderia ajudá-la a realizar sua vontade. No início da faculdade, contava à família, em tom talvez de brincadeira, que iria receber para orientar de graça, na garagem de casa. Mas os caminhos da sua carreira alcançaram outros muros. Certo dia, nas escadas da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, logo após ver um relatório que apresentava as condições precárias a que meninas e mulheres privadas de liberdades são submetidas, uma luz acendeu: era essa a luta que iria travar. "Essas mulheres existem, e elas precisam ser lembradas, faladas e notadas", conta Caroline sobre o objetivo principal do grupo que viria a se tornar a Associação Elas Existem.

"A última refeição das grávidas é às 17h, e a primeira às 7h. São mais de 12 horas sem comer, e por que ninguém falava disso amplamente no Rio? Uma mulher recebe, se muito, quatro absorventes por período menstrual. E ninguém questiona, ninguém fala. Disso surgiu a vontade de levar para a sociedade a realidade dessas mulheres", explica sobre o princípio fundador do grupo, lá em 2016.

Por mais que estejamos nesse lugar de privilégio, de sermos livre, podemos fazer alguma coisa.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"As pessoas ainda me perguntam se eu tiro as tranças para fazer uma audiência."

Para Caroline, o que leva a realidade de mulheres encarceradas a ser pouco discutida na sociedade é o fato de que as mulheres sofrem com essa invisibilização em diferentes áreas. "Eu sofro por elas, mas entendo que cada vez que eu entro posso trazer um outro olhar aqui para fora e atingir outras pessoas. Conseguimos chegar em um lugar com o Elas que eu posso estar numa mesa de debates com desembargadores e falar que homens não se preocupam com quatro absorventes por período menstrual, porque eles não sabem, como eu, que usamos cerca de quatro por dia. E eles sequer querem falar sobre menstruação", aponta a cofundadora do grupo que hoje tem 17 integrantes.

Ela destaca que a criação dos presídios femininos como conhecemos hoje não teve nenhum cuidado com as especificidades que a rotina de uma mulher tem. Para além das mulheres presas, a advogada destaca o papel fundamental de outras mulheres no processo.

"Quando um homem está preso, é a esposa dele quem visita, vai ao fórum saber o andamento do processo, procura a Defensoria Pública. Quando uma mulher está presa, é outra mulher que faz isso por ela. Muitas das vezes, é a mãe, mas a mãe também teve que ficar com os filhos dela. Como a mãe dessa mulher vai conciliar sua vida com o cuidado dos netos, procurar a Defensoria, acompanhar o processo e ainda fazer as visitas? A mulher encarcerada acaba sendo esquecida, mas não porque a mãe quer abandoná-la, mas pela situação que socialmente as coloca nesse lugar", afirma.

Em 2014, no Acre, 100% das mulheres encarceradas eram negras, mas ninguém viu essa discussão ser feita.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Caroline defende que a criação dos presídios femininos como conhecemos hoje não foi pensada para mulheres.

A partir de observações como esta, Caroline e o grupo começaram a analisar como as questões de raça estão dispostas na trama do sistema carcerário. "Em 2014, no Acre, 100% das mulheres encarceradas eram negras, mas ninguém viu essa discussão ser feita. Falavam que havia muitas mulheres presas, mas só. O Elas Existem quer fazer essa discussão. Não é só falar que é negro e pobre, mas sim que é negro e pobre por conta do racismo estrutural e institucional, que existe dentro e fora do sistema prisional.", aponta a advogada.

Na sua própria vida, Carol demorou a passar pelo processo de autoconhecimento enquanto mulher negra, mas acredita que hoje é fundamental para travar suas lutas. Dentro e fora da carreira, ela ainda convive com comentários e opiniões racistas, mas que só provam que ela escolheu o caminho certo.

As pessoas ainda me perguntam se eu tiro as tranças para fazer uma audiência.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Essas mulheres existem, e elas precisam ser lembradas, faladas e notadas": Este é o objetivo da Associação Elas Existem.

"Eu fui me descobrindo, descobrindo quem eu era e o que eu gosto de vestir. Ainda assim é muito difícil: as pessoas ainda me perguntam se eu tiro as tranças para fazer uma audiência. Se eu estou de jeans em determinados espaços, não me veem como advogada. Em alguns espaços ainda me obrigo estar de salto alto, principalmente em audiências criminais. Reafirmar o espaço dentro do Direito é difícil", conta.

É difícil, mas Carol tem conseguido. Nos próximos dias, ela embarca para a Colômbia para contar as experiências exitosas do Elas Existem. No início, o grupo se preocupava em mostrar para quem está fora dos muros de uma prisão o que se passa lá dentro. Mas pouco tempo depois, Carol e as outras colegas abraçaram também a missão de estar dentro do sistema prisional.

"Poucos meses depois da criação, conseguimos autorização para estar em um hospital penal psiquiátrico durante um ano. E depois, também, em uma unidade para adolescentes. Trabalhamos com rodas de conversa e outras atividades, como oficinas de escrita. Aqui fora, arrecadávamos absorventes e itens de higiene para levar para as unidades, e foi uma porta de entrada para conhecer as unidades prisionais aqui no Rio", explica.

A gente não é trabalho de caridade, mas quem tem fome, tem pressa.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Se eu estou de jeans em determinados espaços, não me veem como advogada."

Pela necessidade de estar em contato com as mulheres, Carol explica que o trabalho não pode ser estilo "pé na porta", para não correr o risco do grupo ser impedido de trabalhar. "O que a gente pode fazer é estar ali dentro, ouvir as histórias e analisar o que pode ser feito", analisa. E ali dentro, além de ouvir histórias, o Elas Existem se preocupa em criar momentos de lazer para as mulheres e meninas privadas de liberdade.

"Às vezes reclamam das doações que levamos, das festas que organizamos, como a festa junina. E eu digo: a gente não é trabalho de caridade, mas quem tem fome, tem pressa. Se a gente consegue arrecadar 400 absorventes e aquela mulher tem quatro, a gente faz a diferença. E a festa é o momento de conversar, entender o que acontece e ter maior proximidade com elas", afirma Carol.

Por isso, estar junto delas em um momento de amizade é importante. "A gente vê nos olhos dessas adolescentes, seja em uma roda de conversa ou atividade, que elas entendem que existem", conta emocionada. E completa que é um dever da sociedade olhar para a realidade delas. "O Elas Existem conseguiu estar ali, mas como sociedade temos que começar a questionar para onde está indo o dinheiro do sistema prisional, ou estar presente em discussões na Assembleia Legislativa sobre o tema. Estar lá brigando por isso", defende.

Eu penso que o mundo sem prisões, ainda que seja utópico, seria o melhor para essas mulheres.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Por lidar diariamente com essas realidades, ela acredita em um mundo "sem prisões".

Tanta proximidade e ser filtro de tantas histórias de vida que conhece dentro do sistema prisional mexe com a advogada. "Muito emotiva", por autodefinição, Carol não esconde que a realidade daquelas mulheres sempre a impacta, principalmente das meninas.

"Uma adolescente contou que a mãe dela gastava R$ 200 de passagem a cada vez que a visitava, por isso só conseguia vê-la uma vez por mês. E ela reconhecia que em alguns meses a mãe não conseguiria visitá-la. É muito pesada toda essa situação", cita em exemplo.

Por lidar diariamente com essas realidades, ela enfatiza que o sonho principal é por um mundo "sem prisões": "Eu penso que o mundo sem prisões, ainda que seja utópico, seria o melhor para essas mulheres. Se a gente não consegue isso, que a gente possa analisar o que fazer para mudar, de fato, a realidade dessas mulheres."

Uma mulher recebe, se muito, quatro absorventes por período menstrual. E ninguém questiona, ninguém fala.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Fazermos as pessoas se questionarem e se preocuparem mais com isso já é uma realização pessoal."

Para lidar com a carga emocional, Carol descobriu, depois de dois anos de Elas Existem, como "se desligar" em alguns momentos. Ao chegar em casa, foca em fazer as atividades domésticas e conversar com a filha Eduarda, de oito anos. "Eu consegui entender que não dá para militar o tempo inteiro, senão a gente surta. Não dá para externar isso o tempo todo. Nos meus tempos 'de folga' não vou entrar em brigas aleatórias com todas as pessoas, toda a minha família, senão eu não vou viver", afirma.

Hoje, Carol reconhece os privilégios de viver em liberdade e poder, por exemplo, usar um vaso sanitário, coisa que muitas das mulheres encarceradas não conseguem. "Por mais que estejamos nesse lugar de privilégio, de sermos livre, podemos fazer alguma coisa. E eu acho que aquele sentimento lá atrás, desde nova, de querer fazer a diferença, mudar alguma coisa, faz sentido. Fazermos as pessoas se questionarem e se preocuparem mais com isso já é uma realização pessoal", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inboxna nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.