27/08/2018 00:00 -03 | Atualizado 27/08/2018 11:55 -03

Do pânico ao comer até o comércio de orgânicos: A vitória de Mirella Malta

A empreendedora desenvolveu medo de comer fora de casa e, com ela, síndrome do pânico; mas superou seus medos e desenvolveu uma empresa de entrega de produtos orgânicos.

Tatiane Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Mirella Malta é a 173ª entrevistada de "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Quando tinha 18 anos, Mirella Malta, hoje com 31, foi diagnosticada com síndrome do pânico. Ela tinha medo, em especial, de comida. Acreditava que qualquer coisa que fosse comer podia lhe fazer mal e simplesmente parou de se alimentar. Chegou a pesar 39 quilos, e precisou renascer para encarar a doença. No meio do caminho travou uma batalha com ela mesma para aprender a ressignificar. Foi no processo de fazer a própria comida que resolveu cuidar de si mesma e dos outros. Ela se formou num curso de culinária e desenvolveu uma empresa de entrega do orgânicos em Brasília. Hoje, além de ser empreendedora, promove cursos de alimentação saudável e busca o equilíbrio.

A questão do pânico com a comida começou quando ela entrou na faculdade de sociologia e passou a não querer mais comer em restaurantes ou fora de casa. "Eu achava que poderia ter alguma coisa contaminada ou estragada ou que alguém podia estar cuspindo na minha comida, que podia morrer envenenada. Fiquei com receio de ser alérgica à algum ingrediente. Fui tirando tudo até o ponto que nem comia a comida da minha mãe", relembra. "Depois tive um problema com uma dose alta de medicação que eu tomava, fiquei quase seis meses sem sair de casa. Foi o fundo do poço e foi muito difícil sair", aponta Mirella, que fez um tratamento com neurologista e terapeuta para conseguir seguir em frente.

Minha cabeça funciona de um jeito diferente de outras pessoas.

Tatiane Reis/Especial para o HuffPost Brasil
O slogan da empresa Carota - Comida Sem Veneno, foi uma referência à ela mesma.

Ela se formou, fez especialização em política e começou a dar aula no ensino médio, além de fazer consultoria para o terceiro setor e para partidos políticos. Há três anos, estava nos EUA de férias e começou a se sentir estressada e viu o pânico voltar mais forte. "Resolvi durante a viagem que eu estava cansada da minha vida e precisava de um novo foco. Queria muito mexer com orgânicos e sabia que ainda não tinha delivery na minha cidade. Queria mexer com uma coisa que não fizesse mal e isso foi o meu medo que me trouxe. Voltei, e em uma semana já estava com o plano de negócios e praticamente a empresa montada".

Ter uma empresa de orgânicos foi como o meu pânico me ajudou de uma forma legal.

Tatiane Reis/Especial para o HuffPost Brasil
A empresária lançou um e-book recentemente chamado "Prazer, Paniquenta" e criou um grupo no Facebook para discussões sobre distúrbios do pânico.

Para uma pessoa que vive com o transtorno de pânico não há um alívio total dos sintomas, o medo sempre está lá, a forma como você lida com ele é o que faz a diferença. "A terapia não acaba nunca. É uma coisa que eu vou viver a minha vida inteira. E como eu trabalho com comida isso é ainda mais sensível, porque vivo rodeada de pessoas que se preocupam muito com a alimentação e fazem dietas restritivas".

Paralelo à empresa, ela resolveu estudar culinária natural. "Foi muito empoderador pra mim poder fazer minha própria comida. Aprender a cozinhar me ajudou muito nesse processo de me reerguer diante da fase brava. Você começa a entender o que vai para o seu prato e levar isso pra outras pessoas é muito prazeroso". Apesar de buscar a alimentação mais equilibrada, ela acredita que a restringir não é o caminho. "Vejo que muita gente hoje em dia entra na paranóia da alimentação. A minha dieta, por exemplo, não pode ter restrição. Então, é necessário trabalhar a individualidade de cada um e entender isso".

Mirella sentiu que ao se envolver com a comida, curava algumas feridas. "Fazer meu próprio alimento, participar do processo me fez reagir de forma positiva. Quero fazer uma comida natureba, mas com equilíbrio, incentivando o produtor local, pensando no processo de como ela chega no prato, e não pensando em como grão de bico tem muito carboidrato", comenta.

Se eu disser: só vou consumir orgânico a partir de amanhã, a paranoia volta. Tem que ter equilíbrio.

Tatiane Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"A terapia não acaba nunca. É uma coisa que eu vou viver a minha vida inteira."

A empresária lançou um e-book recentemente chamado "Prazer, Paniquenta" e criou um grupo no Facebook para discussões sobre distúrbios do pânico, depressão e ansiedade com o mesmo nome. A ideia de Mirella também é fazer pelo menos um bate-papo por mês com convidados sobre os assuntos. "Esse é um projeto que vai andar junto com a Carota porque acho que é algo que precisamos falar sobre", aponta. Ela planeja abrir um espaço para cursos com mercearia natureba e coworking de cozinha ainda este ano.

O slogan da empresa Carota - Comida Sem Veneno, foi uma referência à ela mesma. "Quando fui fazer a logo, o pessoa da publicidade me alertou: você não pode colocar 'veneno' porque remete à uma coisa negativa. Mas era uma parte de quem eu era e tudo o que eu sempre procurei na comida".

Para Mirella a questão dos distúrbios de alimentação e pânico atinge ainda mais as mulheres pelo constante busca em se adaptar ao padrão imposto pela sociedade, a obsessão por emagrecer e estar sempre em forma. "A gente não pode ter uma relação ruim com a comida porque se não perdemos a nossa força, eu vivi isso. É muito difícil para as mulheres e até pras meninas e adolescentes ficarem com esse peso de só pensar em dieta e deixamos de pensar em outras séries de coisas, perdemos tempo com isso. E hoje vejo que 99% da minha clientela com dietas restritivas são mulheres"

A dieta é um instrumento de alienação da mulher, e é cruel.

Tatiane Reis/Especial para o HuffPost Brasil
A tatuagem é uma frase da poeta Adelia Prado e, para Mirella, é um lembrete de que nem tudo são flores e não precisa ser.

No braço ela carrega a tatuagem com a frase "dor não é amargura", verso da poeta Adélia Prado. Um lembrete de que nem tudo são flores e não precisa ser. Ela divide nas redes sociais de sua empresa todos os processos que passa, luzes e sombras. "A gente tem que falar do que dói. Gosto de falar do sucesso e das angústias também. Quantas vezes eu não escutei: 'pânico, isso é frescura!' Como se a gente escolhesse sofrer e não é por aí. E tem muita gente passando pelas mesmas dores e podemos nos ajudar".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projetoTodo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail paraeditor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale porinbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.