26/08/2018 00:00 -03 | Atualizado 26/08/2018 12:19 -03

Thais Lago, a atriz que cria pontes para contar histórias que importam

Atriz e produtora cultural encontrou no teatro e cinema suas formas de expressão e posicionamento.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Thaís Lago é a 172ª entrevistada de "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Um dia quando foi visitar a família no bairro em que morava, em Salvador, as meninas da rua tinham organizado um café da tarde para ela. Nessa época já era atriz e tinha feito uma novela infantil. As garotas quiseram organizar esse evento, uma espécie de homenagem, digamos assim. Foi muito massa, lembra. Um momento de troca e carinho. Mas na verdade, sempre que voltava para casa acontecia uma espécie de evento. Essas meninas, crianças, negras como ela, celebravam simplesmente em vê-la ali. Ou em se verem um pouco nela. Uma questão de reconhecimento e pertencimento.

Thais Lago, 28 anos, atriz e produtora cultural, saiu cedo de casa, ainda adolescente. Nessa época era modelo. "Sai com 15 anos e sempre voltada para casa e nesse período houve uma transição capilar e fui ficando mais black e via as meninas do meu bairro ficando também. Toda vez tinha uma que falava que pediu pra mãe não alisar mais e vi essa transição delas. É muito legal ver essa geração falando muito mais o que quer. Aí você vê que está mudando alguma coisa". Hoje ela fala o que quer também. Busca contar as histórias que quer – na frente ou por trás das câmeras. Gosta dessa possibilidade de ser narradora. Seja como for. Na frente das câmeras, hoje é Elisa, da série 3%, da Netflix. Por trás, formou-se em cinema e atua em sua produtora de conteúdo, a Casa 38.

Vi que precisava me dedicar, encarar isso de fato e quando decidi ser atriz foi quando as coisas começaram a acontecer. Foi uma decisão mesmo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Thais interpreta "Elisa" na série 3% da Netflix e se encanta Gosta com o poder coletivo desse tipo de construção.

Thais acredita na força e na energia do movimento. Sente que as coisas acontecem e tem seu fluxo próprio. Mas não sem dedicação e posicionamento, que fique claro. Com ela foi assim. Chegou em São Paulo para ficar três meses e já está há 13 anos. Estava começando a carreira de modelo e veio com um grupo de 16 pessoas ver como as coisas rolavam na capital paulista. Começou a trabalhar, conseguiu pagar suas contas, decidiu que queria ficar. A mãe permitiu com uma condição: tinha que estudar.

Para isso, ela tinha que saber o que realmente queria. "Eu comecei a fazer muita publicidade e precisava aprender mais sobre câmera, como me posicionar e vi que tinha alguma coisa ali que eu precisava aprender e comecei a fazer teatro e fui me apaixonando, querendo saber mais, vi uma oportunidade de carreira. Sabia que precisava me dedicar, encarar isso de fato e quando decidi ser atriz foi quando as coisas começaram a acontecer. Foi uma decisão mesmo".

Eu era muito nova, vim para uma aventura e deixei as coisas acontecerem.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Thaís chegou em São Paulo para ficar três meses e já está há 13 anos.

A partir daquele momento não era mais só modelo. Era atriz. Se colocava assim. E sabia que tinha que correr atrás. Começou a conhecer o meio artístico na cidade e ficava de olho nos artistas que admirava. "Via o que eles estavam fazendo de curso, workshop e fui aprendendo e as oportunidades foram surgindo, mas veio de uma busca, uma insistência. Tinha que focar que era isso que eu queria fazer."

Foi estudar cinema. Nessa fase, ralava muito como modelo para pagar sua faculdade. "Eu era muito nova, vim para uma aventura e deixei as coisas acontecerem. Lembro que pagava um semestre da faculdade e o outro tinha que esperar um pouco [risos]. E fazia em paralelo os cursos de teatro. Foram quatro anos em que eu sabia que precisava de conteúdo, precisava aprender, foi pura dedicação. E as coisas começaram a vir".

Isso é o mais bonito do cinema. Ele se transforma quando grava, quando finaliza e na hora que chega ao espectador.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Com uma energia que se espalha, da troca e da conversa, Thaís constrói as pontes para contar histórias.

Atualmente está feliz da vida com seu trabalho na série 3%. Assim que saiu o projeto ficou doida para participar, mas como estava gravando uma novela não conseguiu fazer o teste. Mas jogou ali sua energia e intenção. "Falei que ia fazer a segunda temporada. Joguei. E aconteceu". Fez o teste e se diz presenteada com a personagem que recebeu e com o lugar que ocupa hoje. "Nos outros trabalhos era só eu e dois, três negros em posições de mais destaque. Nessa série não, você entra e se reconhece em muitos lugares. Que massa isso, sabe?" Thais segue no elenco da terceira temporada da produção.

Gosta muito do ritmo de trabalho e se encanta com o poder coletivo desse tipo de construção. Talvez seja isso que mais a estimula em todo esse processo. "É um mecanismo vivo e isso me fez entender que não tenho o controle de tudo e está todo mundo fazendo junto e isso é o mais bonito do cinema. Ele se transforma quando grava, quando finaliza e na hora que chega ao espectador. Hoje tem gente falando da Elisa e passei a conhecer ela muito mais. Isso me ajuda a construir essa personagem, alimenta, cada um tem uma perspectiva e o que você vê é o que eu não vejo".

É como ela gosta de criar. Falando docemente, com sotaque suave e ritmo lento na fala. E ouvindo com um sorriso e um aceno leve de cabeça, com naturalidade. Assim, da troca e da conversa, ela constrói. E sente que está no caminho que tinha que seguir. Para o futuro, quer desenvolver projetos de formação para o audiovisual, além de se dedicar ao teatro e de focar em direção. "Tem muita gente querendo fazer. Olho para o lado e o pessoal quer se juntar, fazer acontecer e essa vontade me impulsiona. Quero produzir com essa galera. Porque tem tanta história aí que ainda não foi contada e que a gente precisa contar a partir do nosso olhar, do nosso ponto de vista. Cada vez mais eu tenho a certeza de que é isso que tenho que fazer. Não só ser atriz, mas de estar produzindo, contar histórias, seja na frente ou por trás da câmera."

Tem tanta história aí que ainda não foi contada e que a gente precisa contar a partir do nosso olhar.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Sua ambição? "Não só ser atriz, mas de estar produzindo, contar histórias, seja na frente ou por trás da câmera.

Essa é sua busca. Sabe que a escolha de vida que fez foi difícil. E que continua difícil mesmo com tanto projeto saindo do papel, com tanta coisa em andamento. Mas, ao mesmo tempo, algumas coisas ficaram mais claras e isso dá força. "Com o passar dos anos fui entendendo a dimensão da minha escolha e isso fez com que eu me posicionasse ainda mais, pensasse no que eu quero e para onde eu vou. Como meta mesmo, vejo com mais clareza." Com esse olhar e experiência adquirida ao longo do tempo, muita coisa acontece para ela. "Quando a mentalidade muda, você se posiciona. Estou aqui, pertenço a esse lugar e vou fazer da melhor forma que eu puder. A diferença está nas oportunidades. A partir do momento que você tem mais oportunidade... é uma onda, um círculo que te dá mais confiança, mais força e você vai. Às vezes é assustador, mas vamos assim mesmo".

A diferença está nas oportunidades mesmo. A partir do momento que você tem mais oportunidade...é uma onda, um círculo que te dá mais confiança, mais força e você vai.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil

E a vontade de criar que ela tem também investe em sua produtora, aberta com mais duas pessoas, há cerca de dois anos. "Decidimos montar para ter esse lugar de escolha, eu acho importante ter esse poder, faz com que a gente mude a mentalidade do cliente. Fazemos trabalhos com moda, publicidade e ter esse lugar meu, da mulher, escolher o que a gente quer falar, como a gente quer falar... É difícil, mas começamos a imprimir o que a gente acredita de verdade e acho que com todo esse movimento as empresas e marcas estão mais abertas, então é um bom momento de atacar, não no sentido agressivo, mas de se mostrar, falar que estamos aqui, temos o que falar, dá pra fazer de outro jeito. Existem outras histórias."

Como a dela. E as das meninas do seu bairro. Quem sabe, em breve, não serão elas também narradoras da própria história? O caminho está aberto.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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