25/08/2018 00:00 -03 | Atualizado 27/08/2018 11:48 -03

Bruna Militão, a menina que aprendeu a garimpar roupas e transformá-las em ouro

Ela mantém um brechó com uma amiga, já foi finalista de prêmio e faz planos de expandir o negócio. "Aprendi a garimpar as roupas porque minha mãe recebia muitas doações para a igreja."

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Bruna Militão é a 171ª entrevistada de "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Bruna Militão acredita em duas coisas: Deus e planejamento. Foi graças a eles, segundo ela, que chegou entre os 30 finalistas do Troféu Inova Jovem Empreendedor (oferecido pela Secretaria Nacional da Juventude), em julho deste ano. Ela não ganhou, mas isso é só um detalhe. A trajetória da empreendedora de 25 anos que já viveu em situação de rua tem vitórias muito maiores do que essa poderia ser.

Moradora do bairro Mario Quintana, na periferia de Porto Alegre, Bruna criou o brechó online chamado La Vie en Rose com uma amiga. A ideia surgiu do projeto final dela para o curso de tecnólogo em Publicidade que fez em 2017. Peças de roupas vintage são garimpadas, reformadas e vendidas pelas redes sociais. Com o negócio, Bruna consegue sustentar a casa onde mora com a mãe e seu irmão mais novo.

Sem planejamento, eu não sobrevivo. Por toda a minha história, ter pé no chão sempre foi muito importante para mim.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil

A jovem é provedora da família desde a adolescência. Começou a trabalhar com 14 anos e, aos 17, já tinha um emprego de turno integral que sustentava a mãe e seus dois irmãos mais novos. "Minha mãe sempre foi ciganinha", conta Bruna. "Quando eu nasci, a história com meu pai não deu certo, e vivíamos entre a rua e as casas em que ela trabalhou. Lembro de uns flashes de quando tinha três ou quatro anos de idade, embaixo das marquises".

Do pai, ela não guarda lembrança. Perdeu o contato com ele muito pequena. Quando tinha cinco anos, foi com a mãe, Isabel Cristina, viver em um abrigo. É dessa época que vem a inspiração do brechó. "Quando eu morava no abrigo, o brechó era o nosso shopping. Adorava ficar provando as roupas. Eu era a boneca [das outras moradoras]", conta ela. Já com duas filhas, a mãe de Bruna foi selecionada para receber uma casa da prefeitura - onde vivem até hoje. Depois, Isabel teria mais dois filhos - o caçula viveu apenas até um ano e meio de idade.

Lembro de uns flashes de quando tinha três ou quatro anos de idade, embaixo das marquises.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil

A adolescência foi "conturbada", recorda Bruna. "Eu sabia que tinha de ajudar minha mãe, mas tinha aquelas revoltas de adolescente. Não querer dividir a casa com outras pessoas, ter irmãos que ao mesmo tempo são filhos". Ela trabalhava o dia inteiro e estudava à noite. Quase não terminou o segundo grau. Apesar de tudo, Bruna frequentou o Serviço de Apoio Socioeducativo (Sase), da prefeitura, que oferece atividades no contraturno escolar para crianças e adolescentes. Aos 16 anos, também começou a acompanhar a mãe na igreja Ministério Apostólico e Profético Maanaim, perto da casa delas. "A igreja e o Sase me tiraram dessa revolta, aprendi a lidar com os pensamentos ruins", conta.

Tem problemas? Sim, mas tem gente com problemas bem maiores do que os teus.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil

No Sase, Bruna aprendeu informática, trabalhos manuais, fez reforço escolar e aulas de dança. Mas foi na igreja que descobriu o amor pela dança, criando apresentações e coreografias. Hoje, ela também dá aulas para crianças e jovens da comunidade.

E não para por aí. Bruna faz planos de voltar a estudar, mas na área de gestão empresarial. Ficou especialmente empolgada depois do resultado do Inova Jovem. "Não esperava ser finalista do prêmio. O brechó tem dificuldades, mas se cheguei até lá quer dizer que vai dar certo". O objetivo é transformar o brechó em uma confecção, e também fazer a restauração e reciclagem de peças garimpadas.

Aprendi a garimpar as roupas porque minha mãe recebia muitas doações para a igreja e entregava para meus irmãos.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil

Para avançar na carreira de empresária, conta com um dom que descobriu no curso de tecnólogo em Publicidade: o de planejar. "Sem planejamento, eu não sobrevivo. Uso para tudo. Acho que por toda a minha história, ter o pé no chão sempre foi muito importante para mim". Menos quando está "na presença de Deus", ressalta.

Estar nesse lugar me traz a lembrança de que nem sempre tudo vai depender de mim e sair como eu planejei.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil

A religião é parte importante da vida de Bruna, que lidera o grupo de jovens e organiza várias atividades na igreja - a primeira coisa, claro, foi fazer um planejamento. "Estar nesse lugar me traz a lembrança de que nem sempre tudo vai depender de mim e sair como eu planejei. Minha família sempre dependeu muito de mim. Hoje, eu já não abraço tudo ao mesmo tempo, como antes". Mas sim, abraça a si mesma.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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