Odontogeriatria: O papel da especialidade na saúde e na autoestima dos idosos

Não basta olhar o paciente apenas como uma boca que precisa ser cuidada.
O Brasil tem cerca de 30 milhões de idosos.
O Brasil tem cerca de 30 milhões de idosos.

A população do Brasil está envelhecendo. Atualmente, são cerca de 30 milhões de idosos no País. Mas como estamos cuidando destas pessoas?

Um do fatores primordiais para garantir uma boa qualidade de vida é cuidar da saúde. E quando falamos em saúde, estamos nos referindo a um ter um olhar atento e especializado para as necessidades de cada fase de vida. E é justamente isso que propõem os profissionais da odontogeriatria.

"A grande característica da odontogeriatria é você entender que este será um tratamento multidisciplinar. O dentista faz um trabalho em conjunto com outros profissionais e tem uma visão do paciente como um todo, não olha o paciente só como uma boca", explica a dentista e odontogeriatra Tânia Lacerda.

Para quem cursou odontologia durante a graduação, a especialização em saúde bucal para idosos pode soar como novidade. Apesar de essa especialidade ter sido certificada em 2002 pelo Conselho Federal de Odontologia, hoje no País existem apenas 279 especialistas formados.

Ou seja, há 1 odontogeriatra para cada grupo de 107.536 idosos. Portanto há um déficit de profissionais da área, ainda mais se considerarmos o crescimento constante da população de idosos.

"Eu fiz essa prova de título no 1º concurso e me tornei uma das primeiras odontogeriatras do Brasil. Junto com o título veio uma grande missão: fazer com que essa especialidade cresça", explica a especialista.

Soma-se ao vácuo de profissionais especializados os altos índices de perda dentária nesta faixa etária. No País, mais de 39 milhõesde brasileiros convivem com a perda total ou parcial de dentes e utilizam dentaduras. Destes, 41,5% são pessoas com mais de 60 anos.

"Um paciente tem a sua autoestima elevada quando ele sente vontade de sorrir de novo. O paciente chega ao consultório sem conseguir comer, e se alimentar também é um processo de prazer. É sobre estética, alimentação, disposição, tudo. E isso melhora quando a gente compreende a necessidade dos nossos idosos", explica Lacerda.

Leia a entrevista completa com a odontogeriatra.

HuffPost Brasil: A ondotogeriatria é uma especialidade nova dentro da formação em odontologia?

Tânia Lacerda: A especialidade é nova. O Conselho Federal de Odontologia reconheceu a necessidade de que houvesse um atendimento específico para os idosos apenas em 2002. Para receber o título de especialista, você precisa fazer um concurso, uma prova. Eu fiz essa prova de título no 1º concurso e me tornei uma das primeiras odontogeriatras do Brasil. Junto com o título veio uma grande missão: fazer com que essa especialidade cresça.

Para que as pessoas tenham interesse na odontogeriatria, seria muito importante que elas já tivessem um conhecimento sobre o tema na graduação. Porém, as faculdades de odontologia diluíram as cargas horárias. Então, é difícil implementar mais uma disciplina. O ideal seria ter, do mesmo modo que existe a odontopediatria, uma disciplina que compreende a singularidade do envelhecer. O nosso desafio é conquistar esse espaço nas universidades, levar esse conhecimento para os dentistas formados e em formação.

Qual a diferença entre o atendimento que é oferecido para um adulto e um idoso no consultório?

Hoje temos 30,2 milhões de idosos no País. E é diferente você tratar um adulto em relação a um idoso. Existem diferenças sistêmicas e cognitivas. O dentista precisa estar informado e instruído. O consultório precisa estar adaptado às limitações do idoso, como por exemplo ter portas para cadeirantes, barra de apoio no banheiro para o paciente. As cadeiras na sala de espera precisam ter o braço de apoio para facilitar. Precisamos investir na parte de acessibilidade.

Além disso, é preciso ter conhecimentos para identificar as demências ou doenças como a depressão. Ter essas informações é uma forma de ajudar a família a fazer o encaminhamento para o profissional específico. O dentista faz o controle desse paciente de 6 em 6 meses. Nesses encontros, você consegue perceber se o paciente está desenvolvendo algum diagnóstico. Com esse olhar mais atento, o dentista faz o encaminhamento para o médico, e isso ajuda o paciente a ter uma qualidade de vida melhor. Em outros casos, a gente precisa encaminhar o idoso para uma fonoaudióloga, uma nutricionista ou até mesmo uma fisioterapia. A grande característica da odontogeriatria é você entender que este será um tratamento multidisciplinar. O dentista faz um trabalho em conjunto com outros profissionais e tem uma visão do paciente como um todo, não olha o paciente só como uma boca.

A grande característica da odontogeriatria é você entender que este será um tratamento multidisciplinar. O dentista faz um trabalho em conjunto com outros profissionais e tem uma visão do paciente como um todo, não olha o paciente só como uma boca.

Como o cuidado com a saúde bucal pode melhorar a qualidade de vida dos idosos?

Às vezes, basta a gente entrar com orientações específicas para transformar essa qualidade de vida. Você pode ensinar o paciente a escovar os dentes, por exemplo. E se o paciente não conseguir fazer a higiene sozinho? Você precisa avaliar isso. Há contextos em que a gente só precisa fazer adaptações. Como um idoso que está acamado pode escovar os dentes? Basta a gente adaptar a escova de dente, engrossar um cabo da escova, ter espelho adaptado. São coisas bem simples, mas que melhoram muito a qualidade de vida dos idosos. Mas, para isso, é preciso ter um olhar específico de cuidado com esse idoso. E é esse espaço que a gente vem buscando.

Um paciente tem a sua autoestima elevada quando ele sente vontade de sorrir de novo. O paciente chega ao consultório sem conseguir comer, e se alimentar também é um processo de prazer. É sobre estética, alimentação, disposição, tudo. E isso melhora quando a gente compreende a necessidade deles.