COMPORTAMENTO
22/08/2018 17:51 -03 | Atualizado 22/08/2018 19:48 -03

O que são os cont(r)atinhos: Relacionamentos que surgem da tensão entre o tradicional e o match

"Os contratinhos tomam tempo, energia, trazem alegrias e tristezas e, por serem relações que normalmente não se nomeiam, não temos um fim ou um início estabelecido."

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As formas de se relacionar ganham novas nuances com os perfis em aplicativos.

Se antes estávamos seguros de que a vida online e offline possuíam limites bem claros, hoje, essa separação aparece cada vez mais tênue. O fato é: há diversas atividades que se você não tiver um perfil virtual, você simplesmente está em desvantagem. E pegar um táxi é só a primeira delas.

Por meio de uma tela, as nossas experiências no mundo físico são mediadas por aquelas que construímos em sites e aplicativos. E as formas de se relacionar ganham novas nuances.

Em pesquisa realizada pela consultoria Consumoteca, 82% dos entrevistados afirmaram que o mundo online é capaz de colocá-los em contato com potenciais parceiros que eles nunca cruzariam ocasionalmente. Para 59% deles, a selfie é o tipo de imagem que mais chama atenção em um perfil. E quase metade das pessoas (46%) afirma entrar nos sites de relacionamento já interessadas em perfis predefinidos.

"As relações beta são o novo modelo de relacionamento em que não estamos mais preocupados com o que a gente está trocando com o outro. Nesse novo modelo, o que é mais importante é o desejo", afirma Michel Alcoforado, antropólogo e sócio da consultoria em entrevista ao HuffPost Brasil.

Mas o que está em jogo nesse novo modo de se relacionar? Para além do Tinder, Instagram e mensagens no Whatsapp, o que marca a relação beta são os cont(r)atinhos.

Para poder transitar por essa diversidade de possibilidades que o mundo online oferece, surgem novas regras não verbalizadas agregadas aos relacionamentos. As regras tradicionais já não funcionam mais, mas pouco se fala sobre isso e todos estamos sujeitos a um jogo de termos invisíveis.

"Os contratinhos tomam tempo, energia, trazem alegrias e tristezas e, por serem relações que normalmente não se nomeiam, não temos um fim ou um início estabelecido. Elas surgem das seguintes tensões: a vontade de experimentar tudo em um mundo de muita oferta, a cobrança por selfies desejáveis e uma nova visão sobre o que seria intimidade", diz a pesquisa.

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Em entrevista ao HuffPost Brasil, Michel Alcoforado, antropólogo e sócio da Consumoteca, reflete sobre os destaques da pesquisa.

Por que vocês decidiram investigar as mudanças nos relacionamento?

Michel Alcoforado: Esse é um movimento básico da nossa sociedade: a distinção entre o online e offline tomou um novo tom. Agora, mais do que nunca, determinados pedaços da nossa vida social só existem por meio de plataformas sociais. Só pegamos taxi via app, não conseguimos arranjar um emprego sem Linkedin, não sabemos da vida do nosso amigo sem o Instagram, deixamos de conhecer outras pessoas se não tivermos um app de relacionamento. E as relações betas são o novo modelo de relacionamento em que não estamos mais preocupados com o que a gente está trocando com o outro. Nesse novo modelo, o que é mais importante é o desejo.

E o que caracteriza as relações beta?

Todo mundo quer parecer interessante para o outro. Não importa no que isso vai se converter. Isso é novo porque os indivíduos se veem em frente a contradições que eles não tinham que lidar antes. Há um código de conduta do que é necessário para se construir um perfil desejável nesses aplicativos. A pesquisa aponta para a existência de praticamente um manual: é preciso ter selfie, fotos de viagem e hobby. Se você não segue essa regra, ninguém vai te querer. E ai gera o desespero, por que o medo é esse - ninguém te querer.

O que muda quando temos o "desejo" como ponto central das relações? Qual a influência dos perfis em aplicativos na construção desse desejo?

A partir dessa lógica do desejo você começa a "metrificar" a sua vida. Nós geramos conteúdo e temos uma audiência online. Se você só tem 50 visualizações nos seus stories no Instagram, você não gosta. A gente se sente obrigado a se tornar a pessoa que a gente vende nas redes. E a gente sabe que é diferente.

Antes, a gente conhecia a pessoa real e procurava o Facebook para manter o contato. Agora não. As pessoas se conhecem via apps, se apaixonam pela persona virtual e quando elas se encontram no real há um "desespero".

E nisso, o Instagram exerce uma função importante como porta de entrada da produção do desejo. A gente quer saber como a pessoa é em termos de estilo de vida. Os stories ganham uma importância porque é como eu consigo mostrar para você que eu posso atrair o seu desejo todos os dias, por 24 horas.

O encontro cara a cara, o sexo, a transa, tudo isso perde a importância. A gente quer saber se estamos sendo desejados pelas pessoas. E isso é mais importante do que o sexo com alguém.

A pesquisa trata desse novo modelo de relação em que o que importa é o desejo e ser desejado. As pessoas querem olhar e serem olhadas. Isso impacta a sociedade porque gera uma ansiedade gigantesca. E a construção das personas nos apps é quase um novo trabalho. Você tem que se dedicar para se manter desejável. E isso é um saco, é um peso.

Hoje, todas as nossas formas de interação com o outro passam por alguma necessidade de confirmação de que estamos gerando interesse em alguém, que estamos nos incluindo em algum grupo ou contexto importante.

Você enxerga essas mudanças na forma de se relacionar como algo positivo?

É preciso entender que as mudanças trazem potencialidades. O uso desses apps é uma realidade e traz problemas, óbvio. Mas é uma transformação.

O empoderamento feminino ganha um novo tom nessas plataformas, por exemplo. A sociedade é machista e patriarcal. E é cada vez mais aceitável que as mulheres tomem a iniciativa em um relacionamento. Outro ponto é a diversidade da sociedade. Por meio dos apps, você pode conhecer pessoas diferentes e sair da bolha. Quebra de estereotipos.

Mas também tem pontos terríveis: os apps funcionam a base dos algoritmos. O que é o perfil de uma pessoa que você gosta? É um modelo algorítmico que vai decidir isso por você. Você também pode se enfiar cada vez mais na bolha. Porque os encontros com perfis diferentes vão diminuindo.

Em contraponto a essa relação, há um certo saudosismo do amor à primeira vista. Isso acaba por aqui. Vivemos com o amor ao primeiro match. E isso está relacionado a uma análise do seu comportamento no app. O amor deixa de ser essa coisa que se sente, que bate o coração, e se transforma num cálculo matemático.

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Na pesquisa, vocês falam de um relacionamento à base dos "contratinhos"...

Sim. Antes, nós tinhamos um pool de regras assim que se começava um relacionamento. Ou elas eram discutidas pelo casal ou vinham direto por meio dos estereótipos. Por exemplo: quando é o momento certo para apresentar o parceiro para a família? O casal deve se encontrar todo fim de semana? A gente tinha mais clareza do que estava imbuído na troca.

Nesse novo modelo, em que o desejo é a base, não temos um começo bem definido das relações. Você tem vários contratinhos ao mesmo tempo e você vai administrando cada um deles. Várias pessoas te querendo ao mesmo tempo. E tudo a base do motor fundamental: você tem que parecer interessante para mim e vice e versa.

No dia que isso acabar, esse "interesse", eu sumo. Simples assim. E isso traz uma sensação de que estamos sendo feitos de bobos. Quando uma parte acredita que está num relacionamento sério, e o outro em apenas mais um contratinho, há um desequilíbrio. Como nunca tem uma coisa dita, verbalizada, não se sabe onde está pisando.

E como lidar com essa zona nebulosa dos relacionamentos?

Esse modelo é reflexo de um contexto em que não estamos 100% satisfeitos com o relacionamento tradicional e suas implicações, adoramos a ideia de vários contratinhos, mas ainda queremos algumas benesses do tradicional, como a segurança. É o reflexo do descompasso dessa fase de transições que marca a nossa geração.

As pessoas estão tão desesperadas com essa situação atual que buscam ajuda de especialistas para entrar no ciclo de desejo, para você ter ideia. Existem coachs de Tinder!

Isso tem outro peso, sobretudo para os mais pobres, porque vai sendo imposto um padrão de vida desejável que é muito mais próximo das elites: são os verões em Mykonos, os #tbts de comidas, de viagens, de compras.

Os jovens são os que mais sentem a ansiedade, porque passam a acreditar que não possuem uma vida tão "desejável" como no passado. É um drama que a juventude dos anos 90 viveu. Eles acreditaram que a moça da passarela era a real e buscaram por essa "realidade". A gente entendeu que não, que elas não estavam ao nosso alcance. Mas o buraco que a gente entra é que a gente passa a acredita que a vida da Bruna Marquezine na internet é a real - só que não é.

É pesado para quem produz essa vida e para quem consome. É realmente um caos e tem se mostrado um cenário perverso para todo mundo.