POLÍTICA
21/08/2018 19:20 -03 | Atualizado 21/08/2018 19:42 -03

Venezuelanos: Presidenciáveis defendem até campo de refugiados contra crise migratória

Brasileiros atacaram imigrantes em Pacaraima (RR). Candidatos criticam negligência de Michel Temer e dos governos petistas.

Isac Dantes/AFP/Getty Images
Acampamento de venezuelanos foi incendiado em Pacaraima (RR), na fronteira com a Venezuela.

Candidatos à Presidência nas eleições 2018 têm se posicionado a respeito do agravamento da crise migratória em Pacaraima (RR), na fronteira entre Brasil e Venezuela. Nos últimos 2 anos, cerca de 60 mil venezuelanos entraram no País por Roraima, fugindo da crise e da fome que assola a nação governada por Nicolás Maduro.

A tensão na cidade de apenas 10 mil habitantes atingiu níveis preocupantes na última sexta-feira (17), após um comerciante relatar que foi assaltado e agredido por venezuelanos. A resposta dos brasileiros foi violenta: no sábado (18), grupos incendiaram acampamentos de venezuelanos e os agrediram, expulsando-os da cidade.

Os presidenciáveis têm criticado a "omissão" do governo Michel Temer (MDB) diante da crise, mas também não poupam críticas aos governos do PT.

O primeiro candidato a se manifestar sobre a escalada da violência na região foi Guilherme Boulos (PSol). "Condenamos os ataques contra os venezuelanos em Roraima. Somo um País acolhedor e que respeita os imigrantes. Não podemos tolerar atos movidos pelo ódio e pela xenofobia", escreveu em sua conta no Twitter, no domingo (19).

Marina Silva (Rede) usou a mesma rede social para defender que o Brasil lidere uma "coalizão internacional de países sul-americanos para dar ajuda humanitária" aos venezuelanos.

Em nota divulgada em seu site, Marina ressaltou que o episódio de Pacaraima é consequência do "encontro entre dois grupos de desvalidos": de um lado, "os refugiados produzidos pelo colapso da Venezuela" e, de outro, os habitantes de Roraima, "em cujas costas o governo brasileiro jogou a tarefa de assistir praticamente sozinhos" os imigrantes.

Geraldo Alckmin (PSDB) também se manifestou pelo Twitter. "Só chegamos a esse ponto por omissão do governo federal, que precisa apoiar o Estado. Temos que garantir a segurança da população e acolher quem foge do caos econômico provocado na Venezuela por um governo apoiado pelo PT", escreveu nesta segunda-feira (20).

Jair Bolsonaro (PSL), que também critica a "irresponsabilidade dos governos brasileiro e venezuelano", defende a criação de um campo de refugiados em parceria com a ONU.

"Tem que abrir um campo de refugiados. Você não pode simplesmente deixar um pessoal habitar todos os espaços vazios de Pacaraima, de Boa Vista. Não pode deixar o pessoal jogado na rua, deixar o pessoal fazendo necessidades fisiológicas na rua, ficar na rua praticando atos de vandalismo ou de crimes", afirmou nesta segunda.

Ciro Gomes (PDT) disse que, ao ver cenas dos ataques, sentiu "vergonha".

"Eu nunca me senti com vergonha de ser brasileiro, [mas] me senti ontem, quando eu vi nacionais, pessoas do Brasil, queimarem roupas de quem já está miserável e sendo humilhado porque não consegue sobreviver no seu país, mulheres, crianças. O Brasil está doente, tem uma parte da sociedade brasileira que está muito doente", disse Ciro a jornalistas, após evento em São Paulo.

Ciro também criticou o governo Temer e atribuiu a escalada da violência em Roraima ao "ódio que está se disseminando no debate político, especialmente pelo Bolsonaro".

Crise

Após os ataques, cerca de 1.200 imigrantes retornaram à Venezuela, de acordo com estimativa do Exército. Um vídeo que circula na internet mostra uma multidão de brasileiros cantando o hino nacional enquanto os venezuelanos cruzam a fronteira de volta ao país de origem.

Nesta terça-feira (21), uma equipe com representantes de 11 ministérios se reúne em Pacaraima para buscar soluções para a crise.

O governo de Roraima pediu ao STF autorização para fechar temporariamente a fronteira para conter o fluxo migratório – que continua mesmo após os ataques –, mas a AGU (Advocacia-Geral da União) se manifestou contra a medida. Segundo a AGU, o fechamento da fronteira violaria tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.

O Comitê para Migrações de Roraima (COMIRR), que reúne mais de 40 entidades, divulgou nota na qual defende um "programa de interiorização eficaz" para acolher os venezuelanos. A organização, contudo, também faz críticas ao governo do estado.

"Ao tentar restringir direitos à população de determinada nacionalidade através de decreto e com seus reiterados pedidos de fechamento de fronteira, o governo estadual de Roraima alimenta o discurso xenofóbico de parte da população local, o que contribuiu significativamente para o acirramento da tensão social e disseminação de discursos de ódio."