COMPORTAMENTO
21/08/2018 17:57 -03 | Atualizado 21/08/2018 18:13 -03

'Sem a dentadura, eu me sinto com 200 anos': O desabafo de idosos que perderam os dentes

A perda dentária é apontada como a segunda principal questão relacionada ao envelhecimento que afeta a vida dos brasileiros.

Acervo Pessoal
Edna e Moacir de Carvalho.

"Eu tenho 79 anos, mas eu não me sinto velha. Agora, se eu tiro a prótese, eu me sinto com 200 anos e ninguém é obrigado a ver isso. Eu não tiro a minha prótese em frente ao meu marido ou de qualquer pessoa. É horrível ficar sem a prótese, você vê o outro sorrindo... Você não tem nem coragem de abrir a boca, quanto mais de sorrir."

O depoimento acima é de Margarida Maria Marzochi, 79 anos. A aposentada usa prótese dentária desde os 18 e não foi a única a perder os dentes em sua família: seus pais e irmãos também sofreram com a falta de acesso a um tratamento de saúde bucal de qualidade.

Assim como eles, 16 milhões de brasileiros não têm nenhum dente, de acordo com dados do IBGE. Entre as pessoas com 60 anos ou mais, esse número é ainda mais alarmante: 41,5% dos idosos já perderam todos os dentes. E grande parte dessas pessoas convive com o tabu que é falar sobre as condições do envelhecer.

Sobre essa realidade, a pesquisa Percepções latinoamericanas sobre perda de dentes e autoconfiança, realizada por Corega, entrevistou mais de 600 pessoas entre 40 e 75 anos de países como Brasil, México, Colômbia e Argentina. Os resultados apontam que a perda dentária é capaz de afetar até mesmo os relacionamentos interpessoais dos pacientes.

Para 43% dos entrevistados, passar por uma perda traumática de dentes afetou os seus relacionamentos mais íntimos. E 46% deles responderam que passaram a se sentir menos atraentes após perder os dentes. Outras características como qualidade de vida (42%), rotina diária ativa e saudável (32%) e até mesmo sorrir ou comer em público (54%) foram apontadas como problemas de autoestima.

alvarez via Getty Images

Mas por que é tão difícil falar de dentadura?

Para Moacir Schul de Carvalho, 77 anos, poder sorrir normalmente é um alívio e falar sobre sua condição não deve ser motivo de constrangimento. Ele usa prótese completa e precisou passar por um procedimento cirúrgico em que retirou totalmente sua arcada dentária. Durante esse período, o aposentado sentiu na pele as dificuldades de não ter os dentes.

"Eu estava no meu segundo ano de casamento e tive sorte porque a minha esposa me apoiou totalmente. Ela nunca me disse nenhuma palavra mais crítica, mas eu sabia que não podia ficar sem os dentes. Ela preparava sopas e mingaus para mim, foi quase uma enfermeira. Mas logo depois eu comecei a usar a prótese", compartilhou em entrevista ao HuffPost Brasil.

A jornada de Moacir em busca de um sorriso saudável não foi das mais leves. Após o procedimento cirúrgico, o aposentado conviveu durante 15 anos com uma prótese provisória.

"Eu não tinha condições de ir ao dentista. Trabalhava de 10 a 12 horas por dia. Mas aí eu sofri com uma infecção que doía muito e fui em busca de um profissional", relembra.

Durante essa época, Moacir conta que o que mais afetava sua rotina era a fala e a alimentação: "Eu evitava comer qualquer castanha, qualquer carne. E eu gosto muito dessas comidas, mas não dava. Para comer carne eu precisava cortar bem pequenininhas ou fazer carne moída".

Após sofrer com dores de cabeça e inflamações na gengiva, Moacir buscou ajuda de um profissional e trocou a prótese provisória por uma adequada. O aposentado diz que até o seu humor melhorou.

"Tudo mudou para mim, principalmente na parte de comer. Eu podia almoçar e jantar sem sentir dor. É um engano achar que depois que você usa prótese você não precisa cuidar porque você não tem dentes. Você tem que cuidar, senão você começa a ter problemas... Teve uma época que eu só andava mal-humorado porque eu sentia muita dor de cabeça. E isso afetava a minha expressão, o meu rosto, a minha aparência", explica.

A perda dentária é apontada como a segunda principal questão relacionada ao envelhecimento que afeta a vida dos brasileiros, atrás apenas das dores no corpo, de acordo com a pesquisa.

Exemplos como o de Moacir de Carvalho e Margarida Marzochi mostram que tal condição não precisa ser a sentença condenatória para a autoconfiança de nenhum idoso.

Para isso, é necessário que essa população tenha acesso a tratamento de saúde bucal de qualidade e às informações corretas, bem como ao uso adequado de próteses. Tudo isso permite que seja construído um ambiente mais acolhedor e seguro para os idosos que sofrem com o problema.