COMPORTAMENTO
21/08/2018 19:12 -03 | Atualizado 22/08/2018 14:51 -03

'Body neutrality': O movimento que não está nem aí para a aparência do seu corpo

Especialistas dizem que a neutralidade corporal pode ser melhor para sua saúde mental do que insistir em ter uma imagem positiva do seu corpo.

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No filme Meninas Malvadas, de 2004, há uma cena famosa, na qual cada uma das meninas diz o que mais odeia em seu corpo. "Tenho ombros de homem!" e "Meu quadril é enorme!" são alguns exemplos memoráveis. Esse momento pareceu verdadeiro para muitas mulheres, porque na época amar o próprio corpo não era a regra – a regra era odiá-lo.

Avance 14 anos. Agora, falar do corpo de maneira positiva é mais normal. Modelos como Ashley Graham e Tess Holliday são mais mainstream do que pioneiras. As marcas estão colocando corpos mais variados em suas publicidades. As empresas de roupa estão cada vez mais inclusivas. E as pessoas começaram a celebrar seus próprios corpos, tanto nas redes sociais quanto na vida real.

A imagem positiva do corpo (body positive) passou por uma transformação: de ideia radical a um movimento para mulheres. Com isso, vieram conquistas importantes no que diz respeito à aceitação dos nossos corpos. Mas, para algumas pessoas, toda essa positividade pode ter o resultado contrário do que se espera. Há quem diga que a comercialização exagerada do movimento pode levar a uma vigilância ainda mais acentuada – e às vezes acidental – do corpo -- "Será que minhas curvas têm as proporções certas?" – ou então fazer com que as pessoas se sintam culpadas por não ter uma imagem positiva do próprio corpo.

Essa conversa constante também está deixando as pessoas ansiosas. Pesquisas indicam que repetir afirmações positivas nas quais você não acredita – ou pelo menos não acredita serem verdade todos os dias – pode ser um tiro que sai pela culatra.

Ou seja, quando alguém diz "Amo cada centímetro do meu corpo!" num dia em que não se sente exatamente assim, o subconsciente vai rejeitar a afirmação e, como resultado, criar mais estresse e ressentimento com o corpo.

Não existe solução mágica, mas uma forma diferente de amor próprio pode ajudar. A neutralidade corporal (body neutrality) é um movimento que aos poucos começa a entrar no vocabulário das pessoas. E ele pode ajudar (muito!) a sua saúde mental.

Entendendo o que é a neutralidade

Resumindo, a neutralidade corporal se baseia em reconhecer o que seu corpo faz, não o que ele aparenta. Seu corpo permite que você se exercite, viaje o mundo e conheça novas culturas. Seu corpo permite andar de mãos dadas e abraçar. Seu corpo te leva de A a B.

A expressão "neutralidade corporal" começou a aparecer em buscas na internet e posts em blogs por volta de 2015, mas ganhou popularidade quando Anne Poirier, do Colby-Sawyer College, começou um programa sobre o tema no spa Green Mountain da Fox Run, em 2016.

O objetivo de Poirier é ajudar as pessoas a reconhecer que amar o próprio corpo nem sempre é realista. Às vezes é OK ficar no meio do caminho – uma atitude mais neutra. A ideia da neutralidade corporal é enxergar o corpo como um veículo que, quando cuidado com carinho, vai te ajudar a se deslocar pelo mundo e te trazer alegria. É isso. Sem ficar pensando na aparência.

Quando passamos menos tempo pensando no corpo, temos tempo para nos concentrar em outras coisas. Alison Stone, psicoterapeuta de Nova York.

"Quando passamos menos tempo pensando no corpo, temos tempo para nos concentrar em outras coisas", diz Alison Stone, psicoterapeuta de Nova York. "Ficar obcecado e julgando a própria aparência o tempo todo exige muita energia mental. Acima de tudo, esse tipo de pensamento nos impede de curtir as experiências e de estar presente em nossas vidas."

"Muitas vezes caímos na armadilha de amar ou odiar nosso corpo. Acho que esse movimento é uma oportunidade de encontrar um meio termo", afirma Stone.

Além disso, Stone diz que a neutralidade corporal incentiva a conscientização, que pode ajudar a reduzir o estresse, a ruminação e a reatividade emocional (só para mencionar alguns benefícios), de acordo com pesquisas.

"A neutralidade corporal é simplesmente ser", explica ela. "É ser sem ficar julgando ou guardando emoções intensas a respeito da nossa aparência."

Bobbi Wegner, psicóloga de Boston especializada em estresse, diz que a neutralidade corporal pode ajudar a diminuir a ansiedade e melhorar o humor.

"Muitas vezes as mulheres e os homens têm uma voz interna que não para de criticar seus corpos", explica ela. "Esse tipo de 'conversa' negativa pode gerar ansiedade, sensação de perda de controle, desesperança e tristeza – o que pode acabar se virando depressão."

Como praticar a neutralidade corporal

Qualquer pessoa é capaz de entender os benefícios da neutralidade corporal em teoria, mas na prática a história é outra. Ainda temos de lidar com fixação da sociedade com o corpo, de um amigo observando que você perdeu peso e "está ótimo" a um parente perguntando se você acha que ele engordou.

Stone diz que, apesar da evolução da conversa a respeito da imagem corporal nos últimos anos, muitos clientes ainda lutam para melhorar a relação que têm com seus próprios corpos.

"Tento enfatizar a importância de se sentir saudável, em vez de focar na aparência externa", diz ela. "Incentivo a curiosidade e a exploração do que te faz se sentir bem – talvez uma aula de ioga, passear com o cachorro, fazer massagem. Há muitas maneiras de nutrir o corpo. Estamos falando da alimentação, mas também dos nossos rituais diários."

Tento enfatizar a importância de se sentir saudável, em vez de focar na aparência externa.

Wegner sugere fazer um pequeno exercício toda vez que você se pegar pensando negativamente a respeito do seu corpo.

"Note as sensações físicas, como a pressão da cintura da calça, por exemplo. Note as sensações, sem julgá-las."

Então, tente retornar a um estado neutro. Wegner recomenda pensar na força e no poder do corpo, em vez da aparência.

"Concentre-se na força das pernas, no trabalho constante e determinado dos pulmões e do coração, o poder dos braços, a inventividade do cérebro", diz ela. "Tome nota disso e concentre-se no trabalho que seu corpo faz a cada minuto de cada dia. Seja grato."

A relação com o corpo pode ser sempre um pouco complicada. Mas abraçar a neutralidade corporal pode ajudar a tornar essa relação mais harmoniosa – com o benefício adicional de melhorar sua saúde mental. Vale a pena tentar, não?

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.