21/08/2018 00:00 -03 | Atualizado 21/08/2018 11:02 -03

Marina Cavechia: Ela é apaixonada por queijos e valoriza o sabor nacional

Encantada por sabores nacionais, ela tem a meta de desenvolver a própria receita: “Trabalhar com queijos me fez entender que para uma coisa dar certo, ela dá muito errado antes."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Marina Cavechia é a 167ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 mulheres no HuffPost Brasil.

Ela é louca por queijos. Conhece o processo de fabricação, as texturas, os cheiros e o sabor. Seus olhos brilham seja quando conta como conseguiu fazer seu primeiro queijo, ou fala dos planos de produzir e levar pra frente suas descobertas. Marina Cavechia, 35 anos, está em busca de colocar a mão na massa, ou melhor, no leite, para criar um produto novo e único. Enquanto ela aprende tudo o que pode sobre laticínios, ela resolveu arriscar e abriu o primeiro bar especializado em queijos nacionais. Seu maior sonho? Produzir e comercializar sua própria "receita".

Marina, que mora atualmente em Brasília, é formada em jornalismo, e chegou a investir em outra paixão antes de se aventurar no universo dos queijos: a cerveja. Ela é beer sommelier e, à época, junto com um amigo, abriu uma empresa que comercializava rótulos especiais por assinatura. "No meio do caminho surgiu o interesse no queijo, mas eu não conseguia achar espaço pra ele. E quando eu perguntava onde eu podia estudar, todo mundo me dizia que tinha que ser fora do Brasil. Olha que eu sou mineira, mas ainda não existia o queijo Canastra na minha vida", lembra. Os queijos que ela cita são os produzidos na região da Serra da Canastra, em Minas Gerais, feitos com leite cru. Uma produção que até um tempo atrás era proibida. Mas por causa da força dos produtores e da qualidade do produto, ganhou destaque e legalização.

A primeira vez que comi um queijo bom de verdade, quando senti aquele gosto na boca, chega a conversa parou. Tenho essa ambição de fazer queijos incríveis.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Os queijos que Marina mais gosta de trabalhar (e comercializar em seu bar) são produzidos na região da Serra da Canastra, em Minas Gerais.

"Trabalhar com cerveja era legal mas não era um sonho incrível, descobri que queria era trabalhar com queijo, ainda que eu não saiba de onde eu tirei isso", brinca a empresária. "Pode ser que tenha a ver com a tradição de ir pra fazenda do meu avô em Minas ou pelo próprio processo de fabricação. Porque ele pode ser feito completamente sem intervenção de produto químico, você não precisa de nenhuma grande tecnologia, e existem milhares de possibilidades, de sabores. A mesma receita, inclusive pode te dar os produtos diferentes", aponta.

O interesse e a jornada de Marina se misturam a esse movimento e crescimento dos queijos brasileiros de maior qualidade. Nos últimos três anos, além do "boom" da Serra da Canastra, outros rótulos de queijo foram surgindo e uma nova geração começou a entrar na produção. "Os mais jovens estão voltando pra roça. Hoje em dia quem me vende a mercadoria são os filhos dos produtores que estão continuando a tradição e indo para um caminho super bonito. Tem muitas mulheres envolvidas também. É um produto que ainda é caro, mas acredito que o mercado já está mudando, que ainda vai ter uma explosão aí na frente", aponta a empresária.

Comecei como curiosa, até entender que o eu queria mesmo da vida era fazer queijo.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Marina se empenhou em construir a sua receita e, com ela, ganhou medalha de ouro do concurso "Sabores da Mesa".

O primeiro passo para Marina foi fazer uma vivência sobre o queijo canastra em São Paulo. "Foi quando eu comecei a entender a dimensão que existe por trás da fabricação do queijo no Brasil, saber o que está atrás da história de cada um", conta. Ela quis logo ir pra prática e resolveu pedir um estágio em uma fazenda no interior paulista para acompanhar o processo de perto. "Aprendi a fazer queijo e entendi como era coagular, o papel da fermentação e da maturação. Comecei a fazer em casa e fui vendo que você faz cinco, mas só dois dão certo, porque é muito difícil mesmo. É uma série de erros e acertos. Precisei fazer um curso de laticínios em Minas e depois fui pra França aprender a curar o produto pra poder começar a fazer melhor".

O queijo me fez entender que pra uma coisa dar certo, dá muito errado antes.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Marina é dona do bar Teta Cheese, em Brasília (DF). Lugar em que ela explora e valoriza sabores nacionais.

Durante seus estudos, começou a ficar obsessiva pelo método da casca lavada, onde o queijo passa por um processo de maturação delicado, em que é lavado com uma solução especial, escovado e enxugado em dias alternados. Marina se empenhou em construir a sua receita: batizada de "Tetinha Bêbada", que acabou ganhando medalha de ouro do concurso Sabores da Mesa no ano passado. "Eu fui estudando e fiquei maluca em cima da receita, perguntava pra todo mundo e a galera do queijo realmente se ajuda. Fui tendo alguns feedbacks legais e continuei", conta.

Quando o investimento cresceu, Marina não quis deixar a cerveja de lado. Afinal, porque não aliar o seu sabor ao dos queijos? Ela e o sócio no negócio anterior resolveram brincar com o paladar e montaram o bar Teta Cheese, em Brasília (DF). A casa vende apenas queijos brasileiros e na parte da noite, petiscos com itens do dia e que vão de sorvete de queijo azul à sanduíche de pão de queijo. "Você não vai encontrar Serra da Estrela, nem brie ou parmesão, mas vai encontrar o Tulia, o queijo do Belo, o Tropeiro, o Canastra, o Bem Brasil, um queijo incrível feito de kefir, o Azulão. São todos do Brasil justamente porque a gente tá tentando criar a nossa identidade", afirma Marina. No cardápio, o nome de cada queijo servido vem acompanhada da história dos produtores. A intenção é conectar o público com a origem e os processos de fabricação de cada item que será consumido.

As pessoas precisam começar a entender melhor o processo do queijo brasileiro.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Um dos objetivos de Marina é conectar o público com a origem e os processos de fabricação de cada item consumido.

Atualmente, Marina produz os próprios queijos em uma espécie de coworking de fazenda. "Alguns fazendeiros acham interessante dividir os custos e vender o leite que sobra da produção. No momento, vou para uma fazenda em que a gente divide funcionário; eu compro leite deles, dividimos a câmara fria e eu tenho alguns dias na queijaria também. Além disso rola muita troca de experiência". Se não está dando banho ou escovando os queijos na maturação, ela está na loja, ora no balcão, ora atentando os clientes, e tentando passar pra frente seu amor pelo sabor do queijo nacional.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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