COMPORTAMENTO
20/08/2018 17:39 -03 | Atualizado 21/08/2018 19:01 -03

É aceitável checar o telefone de seu parceiro escondido? Terapeutas de casais respondem

De acordo com pesquisa, 1 em cada 4 mulheres e 1 em cada 5 homens admitiram que fazem isso.

Perguntamos a alguns terapeutas de casais quais as consequências desse tipo de espionagem para um relacionamento.
Geber86 via Getty Images
Perguntamos a alguns terapeutas de casais quais as consequências desse tipo de espionagem para um relacionamento.

Espionar um companheiro está mais fácil que nunca hoje em dia.

Com o smartphone de sua pessoa amada em mãos, bastam alguns toques para você acessar as mensagens de texto dela, seus e-mails, histórico de mensagens diretas no Instagram e muito mais.

Mas o simples fato de você poder obter essas informações rápida e facilmente e de isso ser tão tentador não quer dizer que você deva necessariamente fazê-lo.

A verdade, porém, é que parece que muitas pessoas andam espionando: segundo pesquisa de 2014 da Avast, uma empresa de software antivírus, 1 em cada 4 mulheres e 1 em cada 5 homens revelaram que costumam conferir o telefone de seu namorado, marido, etc.

Perguntamos a alguns terapeutas de casais quais as consequências desse tipo de espionagem para um relacionamento e como reagir se você ou seu companheiro o cometem.

Afinal, por que as pessoas fazem isso?

Falta confiança

Como seria de se imaginar, esse tipo de comportamento muitas vezes aponta para uma falta de confiança no relacionamento.

"Esse comportamento revela que você não confia no que seu companheiro lhe diz e mostra a você quem ele ou ela realmente é", disse o psicólogo Ryan Howes ao HuffPost. "O verdadeiro eu do companheiro se reflete nas palavras dele e nas buscas feitas em seu telefone."

Muitas vezes as pessoas vasculham o telefone de um companheiro porque temem que ele (ou ela) possa estar escondendo segredos ou atividades ilícitas. Mas bisbilhotar em segredo vai apenas perpetuar mais comportamento sigiloso no relacionamento.

"Quando as pessoas vasculham o celular de seu companheiro em segredo, isso imbui o relacionamento de sigilo e desconfiança, ambas as razões principais, provavelmente, que levaram as pessoas a espionar em primeiro lugar", explicou o terapeuta Kurt Smith, especializado em atender homens. "Naquele momento essa atitude pode parecer uma boa ideia, algo que se justifica, mas ela vai acabar apenas criando mais problemas que precisam ser resolvidos."

Falta comunicação ou há problemas de intimidade

A psicóloga e terapeuta sexual Shannon Chavez disse ao HuffPost que checar o telefone do companheiro pode também estar ligado a problemas de intimidade e comunicação. Se as duas pessoas do casal não são abertas e sinceras uma com a outra, passam por cima de problemas, sem resolvê-los, e as desconfianças começam a crescer. Em vez de enfrentar os problemas de frente, o companheiro "espião" talvez sinta a necessidade de bisbilhotar um pouco, porque isso parece ser mais fácil do que ter uma conversa potencialmente tensa com seu amado.

"O problema é que checar o telefone do seu companheiro virou mais fácil do que mostrar a ele que você é vulnerável, compartilhar com ele o que você está sentindo e por que se sentiu impelido a vasculhar o telefone dele", explicou Chavez.

E, se seu companheiro não anda se abrindo com você ultimamente – se ele ou ela parece distante, mas você não entende o porquê --, talvez você confira o telefone dele em busca de respostas para entender o que ele está pensando ou sentindo.

"Se a pessoa não anda se abrindo muito com você, você pode sentir curiosidade, querendo saber o que está acontecendo na vida dela", acrescentou Chavez.

Os parceiros estão inseguros ou desconfiam de infidelidade.

Reflita seriamente: por que você está desconfiado de seu companheiro ou inseguro em relação ao relacionamento como um todo? Seu parceiro já mentiu ou traiu você antes? Ele (ou ela) lhe deu algum motivo para imaginar que ele pode estar escondendo alguma coisa?

"Talvez você tenha provas palpáveis de que seu companheiro anda escondendo algo de você", falou Howes. "Talvez haja exemplos concretos disso do passado; talvez você saiba que ele já foi infiel no passado, foi 'viciado' em pornografia ou alguma outra coisa. Você examina o telefone dele porque quer encontrar a confirmação de que ele a está enganando ou a prova de que não está."

Mas também é possível que seu parceiro não tenha lhe dado nenhum motivo para desconfiar dele, mas você está paranoica assim mesmo. Se você já namorou alguém no passado que lhe mentiu ou que a traiu, talvez esteja carregando a dor daquela traição para seu relacionamento atual, injustamente.

"Você sente um medo irracional de que a pessoa amada não está sendo verdadeira com você, não está comprometida com você", disse Howes. "Se você não tem nenhum indício disso, mas resolve vasculhar o telefone dela assim mesmo, provavelmente é você quem está invadindo a privacidade dela e prejudicando o relacionamento de vocês dois. Seu medo pode se dever mais à sua autoestima, sua capacidade de intimidade e seu histórico de ter sido traída em relacionamentos anteriores."

Existe algum caso em que bisbilhotar o telefone de seu amado seja OK?

A resposta simples é direta é: não, geralmente não existe. Checar o telefone de seu companheiro é uma violação da privacidade dele e uma quebra de confiança – sem falar que muitas vezes é improdutivo. Talvez você não encontre nada e então se sinta culpado por ter espionado. Talvez você encontre algo pequeno e inocente, mas você exagere essa coisa e atribua importância desproporcional a ela. Ou você pode realmente encontrar algo incriminador, mas nesse caso será obrigado a se perguntar: será que essa foi a maneira mais honrosa de conseguir a informação?

"É uma invasão de privacidade e de propriedade", disse Chavez. "Vasculhar o telefone de outra pessoa sem a autorização dela mostra que há uma quebra de comunicação. Procurar alguma coisa no telefone de seu parceiro sem a permissão dele rompe a confiança entre vocês dois para satisfazer sua própria necessidade. Isso gera desconfianças e suposições que desencadeiam insegurança e mágoas."

Em alguns casais, as duas pessoas podem decidir mutuamente autorizar uma à outra a examinar seus telefones. Se os parâmetros forem acordados mutuamente, esse arranjo pode funcionar bem para alguns casais. Isto dito, é totalmente razoável e mesmo sadio querer conservar um pouco de privacidade, mesmo quando você está em um relacionamento.

"Esse acordo mútuo pode beneficiar a confiança, mas o fato é que muitas pessoas, mesmo que estejam em um relacionamento, desejam um pouco de independência benigna", disse Howes. "Isso não quer dizer que estejam querendo se separar. Muitas vezes elas valorizam muito o relacionamento e querem que continue, mas também querem guardar um pouquinho de sua vida para elas mesmas. E isso não é necessariamente um problema."

Um relacionamento construído sobre uma base de confiança autoriza as duas pessoas a terem vínculos com outras pessoas – amigos, colegas, familiares.

"Esses são os casais que têm os relacionamentos mais sadios, porque cada pessoa não se sente ameaçada pela independência de seu companheiro", explicou o psicólogo.

Alguns conselhos para casais:

Se você ainda assim se sente compelido a vasculhar o telefone de sua pessoa amada, Smith recomenda que você pare para analisar seriamente o que o está levando a espionar.

"Pergunte a si mesmo: o que quero realizar? Essa atitude vai melhorar as coisas entre nós dois? Como eu poderia fazer isso de uma maneira que aumente a confiança entre nós, em vez de gerar desconfiança?", aconselhou Smith.

E, se você acha que seu companheiro anda xeretando em seu telefone, procure falar do assunto de uma maneira madura, sem fazer acusações.

"Pelo bem de um relacionamento sadio, é preciso falar do sigilo e da desonestidade, sem fazer rodeios", ele disse. "Fale a seu companheiro o que você sente sobre essa atitude indireta. Pergunte como ele se sentiria se a situação fosse inversa, e o telefone dele fosse vasculhado. E então discutam uma maneira melhor e mais direta de vocês dois revelarem mais um ao outro sobre o que fazem ao telefone."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.