ENTRETENIMENTO
16/08/2018 10:16 -03 | Atualizado 16/08/2018 10:34 -03

'Sex', livro de Madonna, ainda é o momento mais radical do pop

'Sex' e 'Erotica' marcaram o capítulo mais ousado da carreira da cantora. Alerta de spoiler: ela sobreviveu.

Há pouco mais de 25 anos, Madonna deixou o mundo em transe com o lançamento de Sex. Bem, ela colocou parte do mundo em transe: Durante o primeiro dia nas lojas, o livro de US$ 50, que fez jus ao seu título carnal, vendeu 150 mil cópias e logo encabeçou a lista de mais vendidos do jornal The New York Times. Claro que, por se tratar de arte popular promovendo prazer libidinoso, um protesto puritano veio logo atrás. Muitos críticos, teóricos culturais e fãs acharam a coleção de fotos com temática BDSM um escândalo, até mesmo repugnante. Para eles, Madonna, que já havia enfrentado adesões de superexposição, após uma década de provocações, tinha passado dos limites.

Hoje, Sex é ainda o passo mais radical dado por uma estrela pop.

Durante a fase imperial de Madonna ― o período efêmero na carreira de um artista quando tudo vira ouro comercial ― ela cantou sobre gravidez na adolescência, introduziu o famoso sutiã de cone, queimou cruzes cristãs, simulou masturbação em uma turnê e fez um vídeo tão lascivo que até a MTV voltada para juventude, se recusou a coloca-lo no ar. Isso foi uma brincadeira de criança.

A publicação de Sex ― em 21 de outubro de 1992, um dia depois de seu álbum "Erotica" ser lançado com críticas mistas ― marcou o momento em que as prioridades de Madonna foram do fazer você dançar para o deixar você com tesão. Michael Jackson havia agarrado sua virilha durante anos e o príncipe usou um terninho que deixava o bumbum à mostra no MTV Video Music Awards de 1991, mas as mulheres não podiam chegar a tanto. As estrelas pop femininas concorrentes da década de 1980 expressavam sua sexualidade em outras estéticas: acampamento punk (Cyndi Lauper), androginia (Annie Lennox), hinos sobre respeito (Janet Jackson), salubridade sedenta de amor (Whitney Houston). Para Madonna, no entanto, houve um continuum entre "Like a Virgin", o single de 1984 que despertou o seu primeiro contato com a controvérsia, e "Erotica", um álbum conceitual sobre prostituição, concebido na sombra da era conservadora de Reagan e a crise da AIDS.

Sex foi uma declaração audaciosa, calculada o suficiente para irritar as pessoas, mas decente o suficiente para manter a integridade artística. Ninguém hoje ousaria imitá-la. Mesmo que o desejo tenha ficado mais estranho desde então, a economia dos artigos especulativos teria um dia cheio com as imagens pornográficas, bissexualidade descarada e autoria pós-feminina prensadas entre as capas de alumínio do livro.

Uma das primeiras fotografias em preto e branco brilhante, mostra Madonna sentada em um banquinho, usando equipamentos de escravidão, seios expostos. Ela chupa um dos dedos enquanto aparentemente insere outro na vagina. Várias páginas depois, um homem parece estar fazendo sexo com ela. O resto do livro inclui sexo a três, homens beijando homens, mulheres acariciando mulheres, coleiras, chicotes, facas ― tudo menos sexo violento. No livro todo, ela escreve sobre o prazer e a dor do sexo, às vezes roteirizando cartas para um amante fictício chamado Johnny.

Para Sex e "Erotica", Madonna assumiu um alter ego, a amante Dita. Como evidenciado com "Material Girl" e "Vogue", Madonna sempre idolatrou estrelas antigas do cinema, e agora ela tinha transformado um capítulo inteiro de sua carreira em um personagem baseado na arte da performance. Nem de longe seu alter-ego pop foi o primeiro (Ziggy Stardrust de Bowie é o exemplo primo), mas nenhuma das que vieram depois (a variedade de personas de Janet Jackson em "Damita Jo", Sasha Fierce de Beyoncé, Mimi de Mariah Carey) foram tão ousadas ou inovadoras como a persona de Madonna.

Madonna descreveu o conteúdo do livro como "fantasia", mas certos opositores sentiram que Sex, de alguma, forma os coagiram a adotar as suas expressões de paixão. "Claro, alguns de nós na verdade gostamos do sexo oposto," uma crítica do New York Times escreveu em uma review, encapsulando o paradoxo inerente à reação que Madonna experimentou. "Alguns de nós acreditamos que é possível ter sexo maravilhoso, sem chicotes, terceiras pessoas ou animais domésticos. [...] Talvez o sexo possa ser um aviso sobre o que acontece quando ícones pop se inflam, de uma maneira ou outra."

Sex foi uma declaração audaciosa, calculada o suficiente para irritar as pessoas, mas decente o suficiente para manter a integridade artística.

Mesmo as reinvenções de estrelas pop que mais se assemelham a Madonna ― Britney Spears, Christina Aguilera, Lady Gaga, Miley Cyrus, Rihanna ― nunca fizeram declarações políticas tão descaradas quanto Sex, se é que fizeram alguma. Gaga é uma aliada LGBTQ proeminente, como Madonna foi muito antes de tal defesa ser comum na indústria do entretenimento, mas sua música sempre foi centrada no convite à pista de dança e comentários sobre a natureza da fama. Como a revista Rolling Stone sugeriu no início desta semana, "Erotica" e Sex operaram mais na veia de "Lemonade" da Beyoncé também inspirada por conflitos sócio-políticos. "Lemonade" foi acompanhada por um álbum visual cinematográfico; "Erotica" foi acompanhada por um livro cinematográfico co-estrelado por Isabella Rossellini, Naomi Campbell, Udo Kier, Big Daddy Kane, Vanilla Ice e o ator pornô gay Joey Stefano. (Acessorista de moda Steven Meisel tirou as fotos, e o diretor criativo de Harper's Bazaar Fabien Baron serviu como diretor de arte).

Sex e "Erotica" foram dois socos em um que poderiam ter extinguido a carreira de Madonna. Não é todo dia que cantores pop pedem carona nus e vivem para contar a história. "Isto não é uma canção de amor", ela anunciou no início da faixa "Bye Bye Baby", um sentimento ecoado na passagem que abre o sex: "este livro é sobre sexo. Sexo não é amor. Amor não é sexo." Tais noções, especialmente em 1992, correram contrárias a tudo o que uma celebridade feminina supostamente deveria ser: sedutora, mas não dominadora, confiante, mas não poderosa, presa mas não predadora. Madonna, conhecedora profunda da cultura popular, tinha controle total de como exibir seu corpo.

Depois que o barulho baixou e Sex foi esgotado, Madonna continuou a se reinventar, mais significativamente como uma mãe-terra espiritualmente iluminada, "Ray of Light," de 1998, o melhor álbum até o momento. Controvérsia continuou a fazer parte da descrição do trabalho dela. Nessa altura, ela recebeu tantas críticas da mídia e público em geral que ela poderia se irritar sem muito efeito colateral; é difícil alcançar algo mais ousado do que Sex.

Madonna é agora rotineiramente ridicularizada pelo restante sexual conforme se aproxima do status de idosa. É o xeque-mate. No final, aquele arranque pioneiro ― cristalizado durante sua fase "Erotica" -- definirá seu legado. Como Cher, Diana Ross, Céline Dion e Elton John tornam-se atos de nostalgia, Madonna mantém a mesma persona sem limites que quase arruinou sua carreira em 1992. Naquele ano, quando perguntada se temia ser superexposta, ela disse, brilhantemente, "só no ginecologista."

Galeria de Fotos Fotos raras de Madonna Veja Fotos