POLÍTICA
19/08/2018 08:06 -03 | Atualizado 19/08/2018 08:06 -03

'PT está sangrando e insistência por Lula pode ser tiro no pé', diz cientista político

Heni Cukier, professor de Relações Internacionais da ESPM, acredita que Lula está mais preocupado com a sua sobrevivência do que com a renovação do PT.

Preso desde o início de abril por ter sido condenado em 2ª instância por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera a corrida presidencial em todos os cenários, mesmo sem ter a certeza de que poderá concorrer no pleito do dia 7 de outubro por causa da Lei da Ficha Limpa.

A insistência do PT em registrar Lula como candidato mesmo diante da impossibilidade legal tem uma explicação simples. Pelo menos na visão de Heni Cukier, cientista político e professor de Relações Internacionais na ESPM.

Reprodução/Globo News
Professor Heni Cukier vê PT "sangrando" e erro estratégico na aposta em Lula.

"Quem manda no PT é o Lula. Tudo gira em torno dele e nada é aprovado se o Lula não disser 'sim'. O petismo não é uma divagação. Ele é maior do que o PT", disparou, em entrevista ao HuffPost Brasil. "O PT está morto, sangrando, e o Lula é a última esperança deles", completou.

Erro estratégico pode custar caro

Tentar se aproveitar do apoio popular na esperança de burlar a Lei e formalizar a candidatura do ex-presidente até o último instante possível, no entanto, pode se voltar contra o partido.

"É um tiro no pé para o partido, mas não para o Lula, que pode voltar depois. Ele usa o PT apenas como uma ferramenta para manter vivo o mito que se criou em torno dele e à narrativa do golpe. O Lula está mais preocupado com a própria sobrevivência e com a História dele do que com a renovação e a depuração do PT."

Na visão do professor da ESPM, mesmo que Fernando Haddad, ex-Prefeito de São Paulo, seja oficializado como candidato após uma possível negativa do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ao registro da candidatura de Lula, a presença do PT no segundo turno das eleições fica ameaçada.

"O Lula não pode ser eleito e é um erro de estratégia carregar isso até o final, pois sobrará pouco tempo para a transferência de votos ao escolhido (Fernando Haddad)", projetou.

Rodolfo Buhrer / Reuters
Migração de votos de Lula para Haddad pode não acontecer da forma que o PT espera, prevê cientista político.

Esquerda fora da 'decisão'

Essa demora em carregar os votos de Lula para Haddad pode, segundo o professor Heni Cukier, gerar um cenário que não ocorre há décadas na política brasileira.

"Pode ser que se mantenha a polarização entre PT e PSDB, mas eu não acredito nisso. Apesar de 'parecer menos PT', que está com a imagem bem queimada, o Haddad não é uma figura com exposição nacional. Por isso eu acho que, talvez, não tenhamos alguém representando a esquerda no segundo turno", finalizou, projetando um duelo final entre Jair Bolsonaro (PSL) e Geraldo Alckmin (PSDB) nas urnas.

O próprio Haddad já admitiu que tal cenário é possível e que, diante dessa situação, aceitaria formar uma aliança com o ex-governador Alckmin para impedir a chegada de Bolsonaro à Presidência da República.

Reforço à narrativa

Embora o cientista político considere um erro estratégico, a narrativa petista ganhou força na sexta-feira (17) com a recomendação do Comitê de Diretos Humanos da ONU para que o País autorize o ex-presidente a concorrer às eleições. Trecho do documento da ONU pede que o Brasil "tome todas as medidas necessárias para garantir que Lula possa desfrutar e exercer seus direitos políticos enquanto estiver na prisão, como candidato nas eleições presidenciais de 2018".

A justificativa do comitê é que o processo contra Lula ainda não foi transitado em julgado. O Itamaraty, entretanto, não deve acatar a orientação. Argumenta que as "conclusões do Comitê têm caráter de recomendação e não possuem efeito juridicamente vinculante".