15/08/2018 13:49 -03 | Atualizado 19/08/2018 23:15 -03

Celina Salomão: A advogada que planta a transformação no setor jurídico

Suas empresas usam tecnologia para automatizar processos repetitivos nos escritórios. "A advocacia é insubstituível pois a capacidade humana de encontrar os melhores caminhos para o cliente é única."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A advogada Celina Salomão é a 151ª entrevistada de Todo Dia Delas, projeto editorial do HuffPost Brasil.

As referências que tem são do interior de São Paulo, apesar de ter nascido na capital. Brinca que tem muito de "porta" e "porteira" na sua criação e hoje é em Itu que encontra seu refúgio. Tem uma casa na cidade, e o diferencial é a horta. A atividade preferida é plantar couve com a filha de 2 anos. Diz que fala isso como uma brincadeira, mas é verdade mesmo. "Tem períodos que vem aquela coisa de 'eu preciso ir pra Itu plantar couve com a minha filha'. Vamos esquecer tudo, porque o processo é muito complexo. Tem que plantar e colher e lembrar das coisas mais simples da vida. Botar o pé no chão, olhar para o céu e ver que o universo é muito maior do que essa grande roda gigante em que a gente se envolve."

É como Celina Salomão, 37 anos, advogada e dona de empresas no ramo jurídico, respira um pouco no meio de todos os desafios do seu trabalho na capital paulista. Empreendedora desde cedo, orgulha-se dos negócios que criou, mas deixa bem claro: "É sangue, suor e lágrimas. Essa é a verdade".

Isso porque, além de ser empreendedora e enfrentar todos os alto e baixos desse caminho, Celina resolveu mexer em uma área cheia de tradições. E não foi nem um pouco simples. "O mercado jurídico é muito fechado e tradicionalista e olha para o direito de uma forma muito específica porque é assim inclusive que nós somos ensinados na faculdade: falar um juridiquês robusto para não ser compreendido pelo mercado, o que sempre achei péssimo, porque o advogado tem que ser parceiro do cliente. E eu não via a advocacia como um caminho atrativo." Foi quando começou a pensar em alternativas.

Nós somos ensinados na faculdade a falar um juridiquês robusto para não ser compreendido pelo mercado, o que sempre achei péssimo.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Celina sempre se incomodou com o "juridiquês robusto" ensinado nas escolas de direito, que afasta o advogado do mercado.

Que fique claro. Sua área é o direito. Mas seus negócios querem ir além disso. Hoje, ela está empenhada na mais nova empresa que criou, a ForeLegal, uma startup que usa a tecnologia para estruturar e ajudar na automação de processos que fazem parte da rotina jurídica. Mas bem antes disso, há quase 15 anos, ela fundou a primeira empresa de logística jurídica do País, a Logjur. "Sou advogada por formação e eu tinha muita vontade de empreender no segmento jurídico de um jeito diferente porque em regra o advogado monta seu escritório."

Mas Celina não queria esse tipo de empreendimento. Foi quando viu que podia montar uma empresa especializada em prestar serviços para o segmento jurídico. A advogada lembra bem que na época perguntavam que loucura era essa e diziam que esse tipo de serviço era feito por escritórios de advocacia. Ela não pensava assim.

"Eu entendia que podia ser uma empresa especializada em processos. A primeira coisa que a gente fez foi profissionalizar a atividade de correspondência porque se eu tenho uma audiência em Manaus, por exemplo, ou eu vou para lá ou acho um colega que possa fazer, mas eu não o conheço, não sei quem é, e a gente resolveu profissionalizar isso. Você contrata uma empresa que tem uma equipe de correspondentes. Foi a primeira ideia que foi bastante disruptiva na época." Com a tempo a empresa se consolidou no mercado. Anos mais tarde, o que era apenas um braço desse negócio ganhou vida própria, e Celina ela viu mais uma oportunidade ao notar que a tecnologia usada no seu dia a dia poderia ser interessante para o mercado. Criou assim uma empresa especializada em tecnologia para o segmento jurídico.

A gente não muda o mundo; muda a gente. E o mundo é puro reflexo disso.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Startup de Celina Salomão automatiza e acelera processos em escritórios de advocacia.

Tudo que empreendia era um pouco novo para a área, segundo Celina. Ao longo de sua carreira, ela percebeu que era possível tornar os processos jurídicos mais ágeis e até mesmo mais confiáveis com algumas mudanças de pensamento. E isso é algo que ela foi construindo aos poucos e desafiando os próprios conhecimentos e os hábitos que tinha.

O processo de transformação começou nela. "A gente não muda o mundo; muda a gente, e o mundo é puro reflexo disso. Então para mim também foi um grande desafio esse processo de disrupção mental meu, porque você tem que tirar a carapuça 'adevo' que você incorpora dentro de você... aquele advogado típico, engravatado, prolixo", explica.

Não que ela fosse exatamente isso. Mas Celina não nega a classe. Hoje fala rápido e não usa termos jurídicos. Na sua fala existem muito mais palavras em inglês e relacionadas a tecnologia e startups do que qualquer outra referência legal. É que para ela é muito claro. "Estamos em uma nova revolução industrial que é tecnológica. Para o segmento legal é sempre um pouco mais difícil, tem mais resistência porque é da natureza da profissão o tradicionalismo, essa formalidade dos advogados, somos formados e temos uma barreira cultural — inclusive de comunicação — com a sociedade então é um processo de transformação mesmo."

E transformou. "Eu tinha uma total aversão [à tecnologia]. Como uma típica advogada [risos]. Quando me envolvi foi por necessidade de mercado, eu tinha que implementar tecnologias na minha empresa para ser competitiva. Então comecei a me envolver e entender que é possível aplicar tecnologia para fazer atividade típicas de back office e que é muito mais seguro do que um humano fazendo."

O erro está em um advogado fazer atividade de copiar e colar. Isso não é advocacia, isso é atividade operacional. Agora advocacia mesmo, isso é insubstituível.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
A empreendedora trabalha dia a dia na capital paulista, mas busca refúgio em sua horta em Itu, no interior de SP.

Depois, chegou a hora de mostrar para os outros profissionais da área que estava tudo bem, digamos assim, em abraçar essa mudança. "Nossa proposta era mostrar que a tecnologia é uma grande aliada e quando os advogados me falavam que eles têm 10 advogados júnior que passam o dia fazendo atividades repetitivas que serão reproduzidas por um robô, eu falava então que o erro está em um advogado fazer atividade de copiar e colar. Isso não é advocacia, isso é atividade operacional. Agora advocacia mesmo, isso é insubstituível porque a capacidade humana de relacionamento, de encontrar os melhores caminhos para conduzir o cliente para sua defesa, é única."

Na verdade, o grande negócio de Celina é esse. Ajudar a transformar e democratizar a área do direito. Ela acredita que suas empresas têm contribuído com isso de alguma forma. Diz que se não acreditasse na ideia, nem ia se esforçar desse jeito. "Eu acredito em uma perspectiva de diálogo aberto, um novo mindset, nova forma de pensar, tirar a gravata da cabeça, da mente mesmo. Acho o advogado essencial para a sociedade, ele merece todo respeito e credibilidade como todos. Agora ele não tem um papel que dá uma oportunidade de isenção de por isso se comunicar de uma forma equivocada com o seu público ou de uma forma a não ser compreendido. Como você é um profissional que faz reserva de conhecimento ao invés de democratizar isso? Essa é a minha crença", argumenta.

É por causa disso que topou perder o sono, ficar angustiada, enfrentar todas as dificuldades de empreender, correr atrás. Recusou propostas tentadoras de trabalho para largar seus negócios. Porque foi isso. Sangue, suor e lágrimas, como ela disse.

"O que pega mesmo é o dia a dia, a complexidade das relações humanas, você estar em um país que o incentivo é nenhum, é um desincentivo diário empreender, aí você e mulher, é mãe... Mas não imagino outra perspectiva senão essa porque isso dá uma autonomia e uma liberdade de ser quem você é na sua essência e isso é um valor que eu não negocio", desabafa.

Não se arrepende. Sabe que sempre vai, como diz o ditado, colher o que plantou.

Como ela faz em Itu, de tempos em tempos. Só para não esquecer das coisas que realmente importam.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delaspara celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.comcom assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC