12/08/2018 15:14 -03 | Atualizado 12/08/2018 15:20 -03

Gabriela Masson, a Lovelove6: A quadrinista que retrata a sexualidade feminina

Em seus desenhos e histórias, ela ilustra e aborda a masturbação feminina, os prazeres do sexo do ponto de vista da mulher e questões feministas.

Tatiana Reis/Especial para HuffPost Brasil
Gabriela Masson é a 158ª entrevistada de Todo Dia Delas, projeto editorial do HuffPost Brasil.

A Garota Sirica é apenas uma das personagens que permeiam o imaginário e o trabalho real da quadrinista Gabriela Masson, 28 anos, mais conhecida como Lovelove6. Em suas HQs, ela retrata a masturbação feminina, os dilemas e prazeres do sexo do ponto de vista de uma mulher que vive em pleno século 21 e as questões do movimento feminista. É uma artista que vive da sua arte e promove a autopublicação para que sua voz e suas imagens cheguem aonde ela quiser.

O pseudônimo surgiu depois que ela fez uma busca na internet e surgiu uma janela de propaganda de um site pornô do tipo: "oi, sou lovelove6. quer teclar comigo?". Ela gostou do nick e adotou pra si.

Gabriela sempre desenhou, gostava de fotografar e resolveu cursar Artes Plásticas na Universidade de Brasília. Desenvolveu melhor algumas técnicas e, apesar de não ter nenhuma aula específica sobre quadrinhos, encontrou outras pessoas e começou a publicar zines e algumas histórias a partir de 2013. Não parou desde então.

Tatiana Reis/Especial para HuffPost Brasil
Gabriela só conseguiu se sentir ouvida por meio das histórias em quadrinho, muito mais eficazes que textão em Facebook, na opinião dela.

Eu entendi que era muito melhor fazer histórias em quadrinhos do que textão no Facebook. É a minha melhor ferramenta de comunicação.

Foi o questionamento da própria sexualidade que fez Lovelove6 transmitir o que ela sentia ou testemunhava para os quadrinhos. "As ideias surgem a partir de alguma vivência minha, algo que eu tô precisando expressar, comunicar pras pessoas. Mas vem cada vez menos de mim e mais das minhas pesquisas sobre gênero, sobre feminismo, sobre desenvolver narrativas e criar imagens pra provar um imaginário mais interessante em benefício das mulheres", conta.

A Garota Sirica foi seu primeiro quadrinho lançado e fala sobre experiências com a vulva, a masturbação e a relação entre mulheres. "Estava passando por uma fase de explorar minha sexualidade, de me descobrir sexualmente. E dentro do rolê profissional não havia mulheres fazendo e escrevendo essas histórias. Faltava isso no mercado", conta. Gabi precisava de uma forma de se comunicar. "Eu não tinha com quem falar sobre masturbação. Eu era uma mulher de 22 anos que nunca tinha se masturbado, nunca tinha tido um orgasmo, não tinha com quem falar sobre bissexualidade. Então me sentia muito sozinha, isolada."

Tatiana Reis/Especial para HuffPost Brasil
Quando tinha 22 anos, Gabriela tinha questionamentos sobre masturbação e bissexualidade e não encontrava ninguém com quem compartilhar suas dúvidas.

Criar, no entanto, não é um processo fácil. "Quando tenho uma ideia, fico mastigando muito tempo e estruturo um esqueleto de roteiro. Aí me isolo do mundo, um dia ou mais pra produzir o quadrinho. Eu ainda uso papel, nanquim, lapiseira, borracha, só depois passo digital, trato e coloco cor. Estou fazendo uma história em quadrinhos chama Sheiloca... Cada episódio tem 8 páginas, passo 3 dias em casa, sem atender telefone, sem responder e-mail, pra focar total nesse rolê", explica.

No mundo dos quadrinhos, as mulheres foram retratadas muitas vezes de uma forma clássica e machista. Seios grandes, lábios fartos, em perigo. "Existe um termo chamado 'male gaze" que é sobre como as visualidades são construídas a partir do desejo heterossexual masculino, e ele coloca a mulher num lugar frágil de que ela sempre tem que recorrer ao homem para sair da situação", aponta. De uns anos pra cá, mulheres como Lovelove6 têm surgido para tomar seus lugares de fala e exporem suas próprias histórias com dilemas reais.

Tatiana Reis/Especial para HuffPost Brasil
A sexualidade feminina, considerada tabu em muitas sociedades, é essência do trabalho da cartunista Gabriela Masson

O mercado editorial ainda é muito machista. O público de quadrinhos feminino existe, e são as mulheres que fazem quadrinhos que estão revelando isso.

Profissionalizar-se é um passo difícil para uma quadrinista no Brasil, mas é possível. Além de desenhar e escrever, ela publica e vende os próprios quadrinhos de forma independente, sem depender da edição ou distribuição de uma editora. "Não estou no mercado convencional. Se a gente que publica de modo alternativo usa a mesma gráfica, imprime a mesma quantidade e consegue vender bem e os autores [homens] ainda ganham mais grana, tem algo errado aí no tradicional", reflete.

Ela se dedica exclusivamente ao trabalho de fazer arte, presta serviço de ilustração, realiza oficinas e organiza a Feira Dente em Brasília, voltada para o mercado de publicações independentes. "É preciso muita organização e disciplina pra ser um profissional de arte no Brasil."

Tatiana Reis/Especial para HuffPost Brasil
Lovelove6 é o pseudônimo da ilustradora que ousa abordar as intimidades de uma mulher nos quadrinhos.

Não existem perfeições no 'faça você mesmo'. Tem que colocar o imperfeito no mundo porque depois você tem a chance de melhorar.

Os quadrinhos dela falam sobre assuntos delicados e que, de alguma forma, podem causar polêmica. Ainda que a autora faça pesquisas e use da autocrítica antes de publicar, Lovelove6 acredita que é importante deixar o material falar por si e ser solto, sem temer. "Publicar sem ter vergonha é complicado, mas eu meio que tô dependendo disso profissionalmente. Então não tem mais isso; tem que produzir. Eu vejo as histórias como a Garota Sirica e a Sheiloca como uma parte da minha vida profissional, mas ainda virão outras coisas e tem que ir soltando mesmo".

As primeiras zines da Lovelove6 foram feitas com fotocópias simples e vendidas a R$ 2 pelos corredores da universidade, e os papéis acabaram rodando o País.

"Quando comecei a receber mensagens de gente de outras cidades, é que saquei como as coisas circulam e como as pessoas se relacionam com esses objetos. Se você publicar uma história em quadrinho, mesmo que seja autobiográfica e que você possa ficar constrangida, quando uma pessoa está com aquilo na mão ela não pensa mais em você. Aquilo diz respeito a elas", conclui.

Tatiana Reis/Especial para HuffPost Brasil
A obra literária de Lovelove6 provoca o impacto menos pelo que diz a cartunista e mais pela subjetividade de suas leitoras.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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