11/08/2018 12:59 -03 | Atualizado 19/09/2018 12:51 -03

Carolina Soares e o poder de unir as pessoas: Política de verdade está fora dos gabinetes

Ativista desde criança, ela dedica-se a um movimento independente para melhorar Porto Alegre.

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
Carolina Soares é a 157ª entrevistada de Todo Dia Delas, projeto editorial de HuffPost Brasil.

Carolina Soares respira política desde sempre. Na casa onde cresceu, esse era tema corriqueiro à mesa, quando se reuniam o pai e a mãe, ex-líderes estudantis (ele chegou a ser preso na ditadura) e a avó, Nair, engajada na vida da cidade. "Minha avó ligava toda semana para um vereador. Na quadra onde ela morava, tem três faixas de segurança."

E política foi o que Carolina, mais conhecida como Sosô desde pequena, escolheu fazer. Mas atenção: se você está pensando que ela é filiada a algum partido, que já se candidatou ou ocupou algum cargo público, se engana. A política praticada por Sosô é do lado de fora dos gabinetes. É reunindo as pessoas em torno de ideias, mobilizando gente comum para realizar pequenas e grandes coisas — e também organizando movimentos de pressão sobre o poder público e os donos dos mandatos.

Política é tudo, está na água que a gente bebe.

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
Política está no DNA de Carolina Soares, desde pequena acostumada com seus familiares engajados politicamente.

Sosô, psicopedagoga de 30 anos, é cofundadora do movimento Minha Porto Alegre, um dos 10 que formam a Rede Nossas Cidades. A capital gaúcha integra o movimento desde 2015, quando ela e o amigo Bruno Paim se inscreveram e foram selecionados para liderar o movimento na cidade. Para tanto, passaram por um treinamento rigoroso nas metodologias e princípios da rede, como apartidarismo, transparência e pacifismo. Todas as táticas de mobilização são padronizadas. "O Bruno é economista, então ele cuida dos números e das tabelas, enquanto eu fico inventando moda por aí", diz ela.

Entrar para a Rede Nossas Cidades foi uma consequência natural da vocação para o ativismo que Sosô sempre exerceu. Foi líder no grêmio estudantil do colégio, escoteira, voluntária em hospital. Uma das primeiras causas que a moveu foi a saúde mental, pois cresceu vendo o irmão mais velho, autista, sofrer com exclusão e preconceito.

Antes de integrar a rede, já havia criado um aplicativo para reunir informações sobre o transporte público da capital gaúcha. "Quando procurei parceiros para entrar na Rede Nossas Cidades, todo mundo dizia que era a minha cara."

E ela se atirou de cabeça mesmo. "Larguei tudo, emprego, fechei consultório, resolvi ser vidaloka." Seu trabalho é reunir pessoas, conversar e usar expertise de cada um para melhorar a vida dos outros. "Não precisa reinventar a roda, ser revolucionário", destaca.

Fazemos um ativismo diferente, que não é só combativo, pesado. A gente tenta fazer aliados, tenta sempre o diálogo.

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
Carolina Soares é cofundadora do movimento Minha Porto Alegre.

Os projetos de sucesso do Minha Porto Alegre vão da instalação de sinalização e faixa de pedestres em um cruzamento perigoso até a inclusão do termo feminicídio nos boletins de ocorrência da Polícia Civil gaúcha. A operação é sustentada por cerca de 200 microfinanciadores, pessoas que doam entre R$ 15 e R$ 200 por mês ao movimento. Para alguns projetos pontuais, busca-se financiamento coletivo.

De 2015 a 2017, Sosô dedicou-se exclusivamente ao movimento. "Quando comecei a usar o cartão do marido, porque minha poupança estava acabando, não deu mais", conta ela. Neste ano, a ativista, pós-graduada em Educação Inclusiva, voltou a dar aulas. A intenção dela é poder, novamente, dedicar-se em tempo integral ao movimento — e receber para isso.

Enquanto esse dia não chega, a psicopedagoga se divide entre o escritório do Minha Porto Alegre, as duas escolas onde dá aulas e o filho Miguel, de 2 anos, que é o dono das manhãs de Sosô.

Ela não pensa em "entrar para a política", aquela que todo mundo conhece. Inclusive, já recusou convites. "A lógica de partidos está ultrapassada. Acho que posso fazer muito mais aqui fora."

A gente é muito potência. Estamos acostumados a falar do poder, mas esquecemos a força que tem a mobilização coletiva.

Caroline Bicocchi/Especial para HuffPost Brasil
Carolina Soares rejeita o jeito de fazer política tradicional, via partidos, e aposta na mobilização coletiva e na busca por aliados.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Diego Iraheta

Figurino:C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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