POLÍTICA
12/08/2018 10:31 -03 | Atualizado 12/08/2018 10:32 -03

Por que a declaração do general Mourão sobre negros e indígenas é racista, sim

Vice de Bolsonaro disse que brasileiro herdou 'indolência' do índio e 'malandragem' do africano. Dois especialistas comentam o episódio.

'Não há racismo na minha declaração. Como eu mesmo disse, eu também sou indígena', disse Mourão.
Reprodução/YouTube
'Não há racismo na minha declaração. Como eu mesmo disse, eu também sou indígena', disse Mourão.

Indicado como vice na chapa de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência da República, o general da reserva Hamilton Mourão (PRTB) disse que o povo brasileiro tem heranças culturais que vêm do negro e do indígena: a malandragem e a indolência.

"Está aí essa crise política, econômica e psicossocial (...) Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. E eu sou indígena, meu pai era amazonense. E a malandragem é oriunda do africano. Então esse é o nosso cadinho cultural", disse Mourão na última segunda-feira (6), em evento no Rio Grande do Sul.

A reação foi imediata. Em nota, o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) disse que as declarações de Mourão "alimentam o racismo". Já a ONG Educafro afirmou que causa preocupação "a visão equivocada da participação do negro na construção do Brasil".

O combate ao racismo vai muito além da reforma da consciência, da reforma da moral. E vai muito além de ação afirmativa, que é importante. O combate ao racismo depende de uma mudança nas estruturas sociais.Silvio Almeida, professor e autor do livro O que é racismo estrutural?

Diante da repercussão, o general afirmou que foi mal interpretado.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, o professor e escritor Silvio Almeida, autor do livro O que é racismo estrutural? (Letramento), afirma que a leitura feita por Mourão tem sua origem no século 19, segundo a qual a prosperidade do País é resultado da elite branca e europeia e os negros e indígenas representam "o que há de pior".

"O que o general Mourão diz não é uma coisa que surgiu da cabeça dele, da imaginação dele. Essa leitura tem as suas origens no século 19 e pode ser vista nos autores do começo do século 20, dos quais eu destaco Oliveira Vianna [1883-1951]. Com o fim do Império, era necessário, segundo Oliveira Vianna, um Estado autoritário para colocar ordem na casa e colocar negros e indígenas em seu devido lugar", afirma o professor.

"Essa visão do general Mourão, portanto, é um problema do Brasil. O que demonstra que o Brasil é um País dominado por um imaginário racista", completa.

Na obra recém-lançada, Almeida trata o racismo como processo histórico e político, e não como "patologia". "O combate ao racismo vai muito além da reforma da consciência, da reforma da moral. E vai muito além de ação afirmativa, que é importante. O combate ao racismo depende de uma mudança nas estruturas sociais", diz.

Mourão indígena?

Para Cleber Buzatto, secretário-executivo do Cimi, a declaração do militar é "fortemente preconceituosa, extremamente desconectada com a realidade, falaciosa e injusta".

Preocupa que alguém com tanta visibilidade dê uma declaração rasa como essa, com potencial para aumentar ainda mais o preconceito contra os povos indígenas no Brasil.Cleber Buzatto, secretário-executivo do Cimi (Conselho Indigenista Missionário).

"Ele diz isso no momento em que trata de uma série de crises do País, jogando nos povos indígenas e nos negros a responsabilidade por essa situação", disse Buzatto ao HuffPost Brasil. "Os povos indígenas não são os culpados por essa situação; pelo contrário, eles são as vítimas primeiras de todo o massacre do processo de colonização."

Buzatto informou que, nesta semana, o Cimi irá entrar com uma representação no Ministério Público Federal pedindo para que seja investigada a prática de crime no discurso de Mourão.

Ao jornal O Globo, o general Mourão disse que não vê racismo em sua declaração porque se identifica como indígena. "Não há nenhum tipo de racismo na minha declaração. Como eu mesmo disse, eu também sou indígena."

Pertencimento étnico, porém, não depende apenas da autodeclaração do indivíduo. Essa identidade precisa ser reconhecida por uma coletividade, conforme determina a Convenção 169 da OIT sobre Povos Indígenas e Tribais.

O HuffPost Brasil entrou em contato com a assessoria do general para saber a qual grupo indígena ele pertenceria, mas não obteve resposta. A reportagem foi informada apenas de que "este é um assunto encerrado".

Para Buzatto, é preocupante que esse tipo de "pensamento raso" seja difundido por um candidato a vice-presidente.

"Esse modo de pensar preconceituoso ainda está presente em parcela significativa da sociedade brasileira, e há um esforço de muitas organizações para superar essas lacunas e deficiência de compreensão em relação aos povos indígenas. Então preocupa que alguém com tanta visibilidade dê uma declaração rasa como essa, com potencial para aumentar ainda mais o preconceito contra os povos indígenas no Brasil."