10/08/2018 15:08 -03 | Atualizado 10/08/2018 15:14 -03

Letícia Bianchi e a história a partir dos olhos e das palavras de uma mulher

A diretora teatral que mostra que é possível fazer arte com as mulheres no comando: "É preciso ocupar espaços ocupados por homens, ficar falando o tempo todo, porque a gente não é reconhecida sem isso".

JUH ALMEIDA/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL
Letícia Bianchi é a 156ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil."

Os admiradores da 5ª arte sabem de cor e salteado a tragédia Medeia, escrita por Eurípedes e apresentada pela primeira vez no festival Dionístico de 431 a.C. A mulher que, tomada de uma fúria terrível, mata os filhos que teve com o marido por pura vingança, é um prato cheio para aqueles que gostam de uma boa história com reviravoltas e personagens bem construídos.

Tida como uma peça avançadinha demais para os seus contemporâneos, a obra chamou a atenção por mostrar uma mulher – motivações à parte – decidindo sobre o próprio caminho em um mundo dominado pelos homens. Medeia traz consigo, ao mesmo tempo, amor e ódio, junto à vontade louca de livrar-se das amarras do conformismo tradicional.

Uma das tragédias gregas mais encenadas ao longo da história, o espetáculo foi renovado constantemente, ao decorrer dos anos, para se adequar às tendências feministas vigentes. No Brasil, por exemplo, uma das adaptações mais famosas é "A Gota D'Água", escrita por Chico Buarque de Holanda e Paulo Pontes, que leva ao palco uma protagonista negra, carioca, macumbeira e periférica.

Não haveria, portanto, texto mais adequado para a mente inquieta e revolucionária da jovem de 27 anos, Letícia Bianchi, apresentar como conclusão do curso de Direção Teatral, na Ufba. Mas, antes de chegar ao fim da trajetória da artista como estudante – com direito a prêmio de diretora revelação antes mesmo de pôr as mãos no canudo –, é importante passear sobre os acontecimentos que a transformaram na Medeia de sua própria narrativa – sem morte alguma, por favor.

Nem era o meu foco. Quando eu fui para o Rio, ainda tava na pilha de fazer interpretação. Achava que direção era uma coisa que iria rolar só lá na frente, com mais experiência.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
A jovem de 27 anos Letícia Bianchi descobriu o encanto pelo teatro aos 10, em uma das idas e vindas da vida.

Nascida em Vitória, no Espírito Santo, rodou bastante antes de chegar em Salvador, onde vive até hoje. Filha única de um militar, até no interior do Amazonas já teve de morar para acompanhar o ofício do pai. Em uma dessas idas e vindas, aos 10 anos de idade, acabou conhecendo a grande paixão da sua vida: o teatro.

"Eu nunca tinha ido ao teatro, não sei explicar de onde veio, o que aconteceu. Estava andando no Colégio Militar, vi que tinha um teatro, entrei, perguntei se podia participar e a professora falou venha", conta ao HuffPost Brasil. O papel de estreia, como uma das fadas de Sonhos de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, foi o suficiente para que ela não quisesse largar a coisa nunca mais.

De volta a cidade onde veio ao mundo, aos 17 anos, teve de escolher o que prestar no vestibular. Sem teatro na grade das universidades capixabas, se debandou para as artes visuais, curso mais parecido com o que queria para si. A entrada para o mundo dos artistas plásticos só serviu para ela ter a certeza que o amor de infância era o que iria mesmo prevalecer. "No primeiro ano percebi que não tinha talento algum, que, para mim, nada fazia sentido e falei: vou embora estudar".

O Rio de Janeiro foi o destino escolhido. Passou um ano estudando e trabalhando, até conseguir passar no curso de direção teatral na UFRJ. "Nem era o meu foco. Quando eu fui para o Rio, ainda tava na pilha de fazer interpretação, achava que direção era uma coisa que iria rolar só lá na frente, com mais experiência. Só que como eu não passei na UniRio, tive que fazer isso mesmo".

Por que o nosso currículo é todo construído em cima de europeu ainda? Vamos tirar o complexo de colonizado e lembrar que tem preto e mulher na Bahia, vamos começar a ressignificar isso.

Dropou na onda do "só tem tu, vai tu mesmo", só que levou uma vaca das finanças. Mesmo com o apoio dos pais e com bicos aqui e ali, a vida na capital fluminense era cara demais e o trabalho complicava a rotina de estudos de Letícia. Simultaneamente, veio um casamento. Sim, aos 21 anos. "Namoro à distância. Eu tava no Rio, ela tava no Paraná. Falei, quer saber? Foda-se, fui para o Paraná. Como toda boa história de sapatão de relacionamento à distância, a gente tem que casar".

As coisas não deram muito certo no quesito emprego, e as duas decidiram procurar algum lugar para morar onde ambas pudessem se realizar. "A área dela era superconcorrida no Rio e eu queria continuar em direção. Aí falei, vamos pensar em outra opção. Vamos pensar em um lugar que tenha direção teatral. Vamos para Bahia? Vamos. Simples assim". Depois de alguns problemas com a transferência externa, decidiu prestar vestibular de novo e começou do zero.

Logo no primeiro semestre fez seleção para a tradicional Companhia de Teatro da Ufba, e passou. Estreou como assistente de direção no espetáculo A Comédia Humana, comandada por Maurício Pedrosa, conheceu gente, fez seu nome e conseguiu ganhar terreno no novo espaço. Tempo vai, tempo vem, chegou a uma disciplina que foi decisiva para a sua breve carreira: Laboratório de Direção Teatral a Cena Aberta.

"Era um semestre no qual a gente queria levar discurso para a cena, não fazer uma peça realista, burguesa: falar sobre o que a gente quer falar. A escola de teatro que, teoricamente, é um lugar mais progressista, ainda é feita por homens brancos e héteros – ou não –, que seguem um tipo de teatro muito euro centrado. Só que a gente tá na Bahia! Por que o nosso currículo é todo construído em cima de europeu ainda? Vamos tirar o complexo de colonizado e lembrar que tem preto e mulher na Bahia, vamos começar a ressignificar isso."

Eu nunca tinha ouvido falar de uma sapatão censurada na ditadura. Achei importante e fui procurar. Google: mulheres lésbicas na ditadura. E aí apareceu Cassandra Rios.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Sem paciência para a mesmice do espaço ocupado pelas mulheres no teatro, Letícia decidiu que queria contar a história a partir de olhos e palavras de uma mulher.
Entre as principais reivindicações de Letícia, estava o papel da mulher dentro de tudo isso. As mulheres são as atrizes, são as musas; enquanto os homens são os diretores, os dramaturgos, os pensadores. "A gente sempre ocupa esses mesmos lugares, e os personagens continuam sendo os mesmos arquétipos femininos muito problemáticos. E eu tava muito sem paciência para isso". Em meio à separação, e com o tema ditadura militar nas mãos, decidiu que queria contar a história a partir de olhos e palavras de uma mulher. A pergunta que dava o tom era: Mas quem?

"Eu nunca tinha ouvido falar de uma sapatão censurada na ditadura. Achei importante e fui procurar. Google: mulheres lésbicas na ditadura. E aí apareceu Cassandra Rios. Cliquei e descobri que ela era uma escritora incrível, sapatão, que escrevia romances eróticos e que vendeu mais que o Jorge Amado, e que foi mais censurada que ninguém aqui, e eu nunca tinha ouvido falar dela. Então eu falei: velho, preciso falar dessa mulher".

A autora escreveu mais de 40 romances best-sellers, a maioria censurados pelos militares e que tratam principalmente da sexualidade feminina e erotismo. Entre outras coisas, foi a primeira escritora brasileira a atingir a marca de 1 milhão de exemplares vendidos. Assunto é o que não iria faltar. Começou a escrever, junto à colega Sophia Coletti, em colaboração com as atrizes, Alice Gramacho, Giovana Boliveira, Isadora Werneck, Larissa Libório e Luísa Domingos, a peça "Eudemonia: Em memória a uma peça nunca encenada".

O subtítulo faz referência à montagem do texto da autora que foi interrompida no primeiro ato e nunca mais voltou aos palcos. A história dela serve de pano de fundo para a encenação, que desenvolve episódios que trazem à tona questões relacionadas à sexualidade e afetividade feminina, e representatividade da mulher nas artes. A proposta é refletir sobre esses assuntos e relacioná-los no contexto atual com o das décadas de 1960 e 1970.

É preciso ocupar espaços ocupados por homens, ficar falando o tempo todo, porque a gente não é reconhecida sem isso. E é por isso que o prêmio é importante, porque é um espaço de legitimação.

Estrearam, com muito trabalho, mas estrearam. Com a Escola de Teatro em reforma, foram realocados para uma sala de outro campus. "Pintaram tudo de preto, isolaram, botaram uns refletores que o sistema elétrico da Ufba não aguenta. No dia da montagem queimou caixa de som, saía faísca da tomada, tinha um segurança no PAF e mais nenhum funcionário". Alheios ao meio, o público compareceu em peso - tanto que uma sessão extra teve de ser providenciada.

Na mesma semana, um amigo teve de abandonar uma pauta no Teatro Gamboa Nova, num festival de temática LGBT, e indicou o espetáculo de Letícia para ocupar o espaço. "A gente teve uma semana para produzir uma temporada de um mês. Esse período em cartaz possibilitou chamar a comissão do Prêmio Braskem de Teatro para avaliar a peça". Eles foram, e gostaram do que viram. Eudemonia foi indicada nas categorias melhor atriz, com Isadora Werneck, e a própria Letícia na categoria direção revelação.

Não deu outra: levou para casa o troféu – única mulher a receber os louros nessa edição, além da vencedora do prêmio de melhor atriz, obviamente. No discurso, fez questão de agradecer às mulheres da sua vida e lembrar a importância de as mulheres ocuparem a cada vez mais espaços antes majoritariamente masculinos: "para a gente lembrar, legitimar e reconhecer que existem sim grandes mulheres de teatro, grandes pensadoras da cena, diretoras e dramaturgas".

"É preciso ocupar espaços ocupados por homens, ficar falando o tempo todo, porque a gente não é reconhecida sem isso. E é por isso que o prêmio é importante, porque é um espaço de legitimação", aponta. E é esse espaço que ela pretende continuar chamando de seu. Como projeto de conclusão de curso, vai adaptar o clássico Medeia. Obviamente, com o texto de uma mulher.

É difícil você produzir uma coisa que atinja o público geral. E é mais difícil ainda você fazer isso falando de minoria, porque as pessoas não querem ouvir.

"Eu descobri Consuelo de Castro, que é uma dramaturga brasileira. Achei um livro que tinha peças dela, chamado 'Histórias de Amor e Fúria'. Na hora em que eu o abri, vi o subtítulo 'Memórias do Mar-Aberto: Medeia Conta a sua História'. Ela faz exatamente o que eu queria: tira Medeia do lugar de descontrolada, e a bota como revolucionária política. Ela não fica puta com Jasão porque ele traiu ela, ela fica puta porque eles tinham um plano e ele abriu mão dele para ganhar poder".

Como a faculdade só disponibiliza mil reais para que a peça inteira seja montada, Letícia abriu uma campanha de financiamento coletivo para garantir a plena execução do espetáculo. "O público gosta de consumir entretenimento. Tem que ter um apelo, uma pessoa famosa... É difícil você produzir uma coisa que atinja o público geral. E é mais difícil ainda você fazer isso falando de minoria, porque as pessoas não querem ouvir. Elas querem ir ao teatro para esquecer dos problemas e não para ficar ouvindo o quanto as mulheres sofrem".

"No teatro, sempre tem alguém que tá indo pela primeira vez, e alguém que tá indo pela última. O que você apresenta para as pessoas é importante nesse grau. Você pode ser a pessoa que conquista o público, ou pode ser a que faz com que o público nunca mais coloque o pé no teatro". Não importa qual dos dois papéis vai ocupar, Letícia vai permanecer questionando os clássicos, cutucando o protagonismo feminino na dramaturgia e dando voz a quem não pode nunca mais se calar. É Medeia que chama?

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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