POLÍTICA
10/08/2018 02:58 -03 | Atualizado 10/08/2018 04:33 -03

Em debate morno na Band, candidatos evitam enfrentamento

Primeiro confronto presidencial de 2018 abre a temporada de presidenciáveis cara a cara com poucos ataques.

Kelly Fuzaro/Band
Participaram do debate 8 candidatos à Presidência: Alvaro Dias, Cabo Daciolo, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Jair Bolsonaro, Guilherme Boulos, Henrique Meirelles e Ciro Gomes.

Quem esperava um embate entre os ânimos acirrados de Ciro Gomes (PDT) e Jair Bolsonaro (PSL) no debate da Band, o primeiro presidencial de 2018, acabou levando a sinceridade de Cabo Daciolo (Patriota). Pouco conhecido do eleitorado, o candidato do Patriota foi o único que destoou do tom sereno dos demais candidatos, até mesmo de Guilherme Boulos (PSol). O socialista abriu o debate questionando a ausência do candidato do PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde 7 de abril.

Sem se exaltar, alguns candidatos chegaram até a fazer dobradinhas. Jair Bolsonaro, por exemplo, elogiou o trabalho de Alvaro Dias, do Podemos, por querer "abrir a caixa preta do BNDES". Na réplica, Bolsonaro criticou a política de incentivos que vinha sendo adotada pelo banco.

Marina Silva (Rede) também levantou a bola para Ciro cortar, ao perguntar para ele sobre a transposição do rio São Francisco, quando ele era ministro da Integração Nacional e ela do Meio Ambiente. Aos jornalistas, Marina alfinetou os demais candidatos. "A mesma fórmula que foi com Dilma está sendo reeditada pelo PSDB. É preciso que a população entenda que aqueles que criaram os problemas não vão resolver os problemas. A gente está no fundo do poço e pode ir para o poço sem fim."

As explicações ficaram por conta principalmente de Geraldo Alckmin, do PSDB. A união com 9 partidos do centrão, incluindo o PP (com maior percentual de investigados na Lava Jato), da candidata à vice Ana Amélia, foi alvo de questionamentos. Embora o tucano tenha afirmado que os partidos têm pessoas ótimas, Marina disparou: "As vezes em nome de uma pessoa que é boa, pega o condomínio inteiro. (...) Só que não é um governar com base em programa, mas no exercício puro e simples do poder". Por sua vez, Alckmin lembrou que Marina foi do PT e governou com o PT.

Henrique Meirelles (MDB) também teve que que explicar sobre ser "banqueiro" e herdeiro do governo do presidente Michel Temer (MDB). O candidato tentou se descolar da imagem do correligionário, destacou que foi um crítico de Lula na campanha de 2002, mas como ele "era o único que podia resolver o problema do País, foi chamado para ser presidente do Banco Central" do petista no ano seguinte.

'Tom manso'

Questionado por jornalistas se Cabo Daciolo havia tomado seu espaço de "brigão", Bolsonaro negou que tenha tentado se segurar e que se esforçara para passar tranquilidade. "Eu sou assim mesmo, você esperava que fosse diferente?" No entanto, quando os repórteres insistiram, o candidato do PSL esboçou irritação.

Bem-humorado, Ciro Gomes, que não foi questionado no primeiro bloco no embate entre os candidatos, negou que tenha sido isolado. "As pessoas sabem que se deixarem eu falar, elas vão ouvir", ponderou.

Kelly Fuzaro/Band
Nas falas durante o debate, Bolsonaro e Ciro Gomes adotaram um tom mais brando que o usual.

Aqui o que os candidatos falaram sobre:

Emprego

Em um país com 13 milhões de desempregados, a proposta para mudar o cenário foi o ponto inicial do debate. Pouco conhecido do eleitorado, Cabo Daciolo afirmou que, se eleito, vai "capacitar e preparar a mão de obra e, a partir daí, baixar os juros, retirar impostos, e isso vai oxigenar o país". Alckmin negou que vá aumentar impostos, disse que vai reduzir as despesas, simplificar os tributos e promover abertura econômica.

Para Marina, a solução é recuperar investimento "e, para isso é preciso recuperar a credibilidade. Para ter credibilidade é preciso ter uma mudança profunda". Embora não tenha detalhado qual mudança, afirmou que "os que criaram o problema não vão ajudar a resolver". Bolsonaro quer promover o comércio sem viés ideológico. "O Brasil precisa ser desburocratizado, é um cipoal de leis que desestimula qualquer um a abrir uma empresa", emendou.

Já Boulos, além de revogar as reformas do presidente Michel Temer, disse que vai retomar investimento público e mexer nos privilégios dos mais ricos. Ciro Gomes prometeu criar 2 milhões de empregos com reformas estruturais, "descartelizar o sistema financeiro", retomar obras públicas que estão paradas e ajudar a limpar o nome dos brasileiros que estão endividados. Reiterou que vai revogar a reforma trabalhista e atualizar a legislação de modo que proteja o trabalhador.

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Alckmin e Marina: algumas alfinetadas, mas em tom ameno.

Corrupção

No combate à corrupção, Alvaro Dias insistiu que vai convidar o juiz Sergio Moro, responsável pela Lava Jato na 1ª instância em Curitiba, para o Ministério da Justiça. O candidato pelo Podemos enfatizou que vai refundar a República.

Alckmin negou qualquer possibilidade de mudar a Lava Jato. "O que nós precisamos é aprofundá-la, é acabar com a impunidade, com o chamado crime do colarinho branco. Quem deve, cadeia", disse.

Saúde

A saúde da mulher foi abordada em falas de Boulos, Marina e Bolsonaro. Ao ser questionado sobre a legalização do aborto, Boulos afirmou que o tema será tratado como questão de saúde pública em um possível mandato. Acrescentou que serão adotadas políticas públicas de amparo às mulheres e propostas que garantem a igualdade salarial entre homens e mulheres.

Minutos antes, Bolsonaro havia alegado que o Estado não pode fazer nada pela equiparação salarial, afirmou que há mulheres com salários maiores que os dos homens. Em outro momento, defendeu a castração química voluntária como solução para estupros. Já Marina defendeu um plebiscito, caso a lei atual sobre aborto precise ser ampliada.

Ciro e Alckmin falaram em ampliar o saneamento básico.

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Boulos adotou tom um pouco mais combativo no debate, comparado aos adversários.