COMPORTAMENTO
10/08/2018 15:52 -03 | Atualizado 10/08/2018 15:55 -03

Depressão pós-parto: Você não precisa lidar com isso sozinha

Além das mudanças hormonais no corpo, há vários outros fatores que contribuem para a depressão pós-parto.

damircudic via Getty Images

O corpo e a mente de cada mulher reagem de formas diferentes à gravidez, ao parto e à vida com o recém-nascido. Como toda grande mudança na vida, o ajuste à maternidade pode ser difícil, especialmente quando outros fatores podem afetar com sua capacidade de lidar com a nova fase. É importante saber quando certos comportamentos precisam ser tratados com terapia ou cuidados médicos.

A depressão pós-parto é um desses fatores. Uma em cada nove mulheres apresentam o problema, segundo os Centros de Prevenção e Controle de Doenças, órgão do governo americano.

Um estudo publicado em 2009 no The Journal of Perinatal Education indicou que mais da metade das mulheres com depressão pós-parto não recebem o diagnóstico. O estudo também aponta que as mães muitas vezes não querem revelar o que sentem para as pessoas à sua volta por vergonha ou medo de perder o bebê.

Conversamos com vários psicólogos especializados em tratar de questões pós-parto para entender quais são as mudanças normais associadas à maternidade e quando você deveria buscar ajuda.

Mais que uma tristeza

Elisa Feldman, psicóloga de Nova York, descreve a depressão pós-parto como "sentir-se para baixo ou deprimida durante a maior parte do dia, na maioria dos dias, em um período de pelo menos duas semanas depois de dar à luz".

Feldman afirma que a depressão pós-parto costuma se manifestar no primeiro mês depois do nascimento do bebê, mas pode aparecer em qualquer momento do primeiro ano.

Embora não seja incomum que as mulheres sintam ansiedade e preocupação ao se tornarem mães, Feldman diz que a frequência, duração e severidade desses pensamentos e sensações são o que indicam a diferença entre tristeza e depressão pós-parto.

Essa tristeza pode incluir variações de humor, ataques de choro, ansiedade e dificuldade para dormir. Ela tipicamente aparece alguns dias depois do parto e pode durar até duas semanas, segundo a Mayo Clinic.

"Algumas mães com depressão pós-parto podem ter dificuldade em criar laços com o bebê e sentir isolamento ou desconexão mesmo que continuem convivendo com outros adultos. Além disso, elas podem ter fantasias de abandonar a família ou pensar em suicídio", afirma Feldman.

Outros sintomas da depressão pós-parto incluem sentimentos de inutilidade, cansaço avassalador, perda de apetite ou mais. apetite que o normal, forte ansiedade e ataques de pânico.

A maioria das mulheres começa a se sentir menos sobrecarregada com as mudanças depois de quatro a seis semanas após o nascimento do bebê, diz Linnea L. Mavrides, psicóloga do Brooklyn, mas para algumas os sintomas podem continuar -- ou até mesmo piorar -- depois desse período inicial.

"Uma coisa é não conseguir sair de casa com um recém-nascido porque você ainda não criou uma rotina diária ou porque ainda não sabe como tomar banho e se arrumar quando o bebê chora toda vez que não está no colo", afirma Mavrides. "Outra coisa é não conseguir sair da cama durante dias a fio porque você está sufocada com todas as decisões que tem de tomar e só pensa em se esconder e chorar."

O que causa a depressão pós-parto?

"Os primeiros meses após o nascimento são imensamente [intensos] em termos hormonais e comportamentais, o que significa um período de muita vulnerabilidade na vida de qualquer mulher", diz Cassie Kaufmann, psicóloga e diretora da Greene Clinic, no Brooklyn.

Após o nascimento do bebê, os níveis de estrogênio e progesterona diminuem drasticamente, resultando em tristeza e cansaço inexplicáveis. Apesar dessas mudanças extremas, a expectativa é que as mães imediatamente comecem a cuidar de seu recém-nascido 24 horas por dia, afirma Kaufmann.

"A mãe ainda está se recuperando do nascimento do filho, o que pode ser cansativo, e começando a se ajustar a esses novos relacionamentos, responsabilidades e identidade", disse Kaufmann.

E é claro que não só as mães sofrem de depressão pós-parto. Pesquisas apontam que os pais também podem sofrer com o problema, geralmente por causa de privação de sono ou por histórico de depressão ou doença mental na família. Além disso, os pais adotivos também podem ter depressão pós-parto devido a expectativas frustradas depois da chegada da criança, de acordo com Karen J. Foli, professora assistente da Escola de Enfermagem da Universidade Purdue.

"Pais adotivos podem questionar sua legitimidade como pais e sentir que não estão formando laços imediatos com o bebê ou a criança", afirmou Foli ao site Psych Central.

Além das mudanças hormonais no corpo, há vários outros fatores que contribuem para a depressão pós-parto. Conflitos com o parceiro, parceiros que não dão apoio, problemas financeiros e brigas com parentes estão entre as causas. Histórico de doenças mentais, traumas e violência doméstica aumenta o risco de que a mulher sofra de depressão pós-parto, acrescenta Mavrides.

"Mulheres com histórico de depressão e transtorno disfórico pré-menstrual são mais sensíveis às variações hormonais e mais propensas à depressão pós-parto", diz Cristina Dorazio, psicóloga de Nova York.

Como ela pode ser tratada?

Embora muitas vezes debilitante, a depressão pós-parto tem tratamento. Mas 60% das mulheres com sintomas de depressão depois de dar à luz não recebem diagnóstico clínico, segundo um relatório do ano passado dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

Dorazio acredita que muitas mulheres não procurem ajuda porque acham que têm de lidar com tudo sozinhas.

"Se as mulheres que acabaram de dar à luz acham que algo está errado há mais de duas semanas, é OK pedir ajuda", aconselha Dorazio. "Muitas delas tentam enfrentar os sintomas na marra porque acham que pedir ajuda é egoísmo."

A falta de tratamento é um problema ainda mais acentuado para mulheres negras e latinas nos Estados Unidos. Elas apresentam índices mais altos de depressão pós-parto que as mulheres brancas – e têm menos probabilidade de receber tratamento.

Mavrides diz que isso se explica pelos índices mais baixos de controle nas consultas médicas pós-parto, pelo estigma em torno das doenças mentais nessas comunidades, pelo medo de perder os filhos e pelos índices mais baixos de acompanhamento depois do nascimento do bebê.

O pedido de ajuda pode começar com uma conversa com a parteira ou a obstetra na consulta que costuma acontecer uma mês e meio depois do parto. Mavrides diz que muitos médicos estão atentos e podem indicar consultas com profissionais de saúde mental caso apareça sinais preocupantes.

Os tratamentos mais comuns envolvem psicoterapia e remédios psiquiátricos.

"Os remédios ajudam a regular o humor, e a terapia oferece ferramentas concretas para lidar com o problema", diz Kaufmann. "Terapia em grupo também pode ajudar a reduzir o isolamento social e a criar uma rede de apoio."

Ou seja: você não precisa lidar com o problema sozinha.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.