09/08/2018 00:00 -03 | Atualizado Há 20 horas

Telma Shiraishi e a arte de combinar sabores, culturas, cores e profissões

Chef passou da medicina para o mundo da moda até se encontrar na cozinha e no empreendedorismo: "O fato de ser mulher contou muito. A gente tem que se provar bem mais, tem que ir além".

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Telma Shiraishi é a 155ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Talvez sempre tenha sido um dom. Observar, reconhecer as diversas camadas e conseguir fazer a melhor mistura com o que tem em suas mãos. O visual é importante, ela sabe. Mas sempre foi além disso. Como aprendeu. Como está em suas origens de forma natural e intrínseca. Na verdade, o que ela faz é uma boa composição. A tela pode até mudar um pouco, mas no fim tudo é uma espécie de arte. Telma Shiraishi, 48 anos, hoje expõe combinações de sabores e texturas à mesa. Mas já teve o tempo em que combinava tecidos na indústria da moda. E antes disso, chegou a ensaiar ajustes como pesquisadora quando estudava medicina. Pode parecer pouco provável que com essa trajetória Telma tenha virado, há mais de dez anos, justamente chef de cozinha e dona do restaurante japonês Aizomê. Mas foi o que aconteceu. "Para os japoneses, o mais importante é o que não está óbvio e aprendi isso através da culinária".

Nada óbvia. Para quem ingressou na faculdade de medicina aos 17 anos o mais natural seria ter se formado médica. Talvez. Neta de japoneses imigrantes, Telma aprendeu desde cedo a máxima de focar nos estudos. "Sempre foi claro que uma forma de vencer e conquistar espaço seria através da educação. Então desde pequena meus pais focaram muito nisso. E lógico que o anseio mais forte da família era ver um filho ou neto médico". E assim foi. Mas quando começou a ter contato com a realidade do hospital, ela notou que seu lugar não era aquele. "Grande parte da minha educação era voltada para arte, seja plástica, música e eu vi que precisava me expressar nisso também." Coisa que não acontecia muito na formação em medicina. Chegou a tentar trabalhar com a área de pesquisa, mas também logo percebeu que a rotina de laboratório não dava conta de suas criações. Largou a faculdade e foi atrás de algo que fizesse mais sentido para a sua necessidade de expressão.

Para os japoneses, o mais importante é o que não está óbvio e aprendi isso através da culinária.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Há mais de dez anos ela é chef de cozinha e dona do restaurante japonês Aiozomê, em São Paulo.

Ingressou na faculdade de moda e foi parar na porta de Fause Haten. "Na época ele era um dos estilistas que estavam em ascensão e consegui trabalhar na loja dele para pagar a faculdade de moda e depois de alguns meses ele me chamou para ser assistente e foram dois anos intensos no mundo da moda." Depois desse período, Telma se casou, sua primeira filha nasceu e ela foi se dedicar à família. Mas a vontade de criar e a inquietude em produzir algo continuaram. Foi quando ela olhou para algo que estava ali há tempos. A cozinha sempre foi algo muito forte, tanto na sua casa quanto no trabalho com moda. Ela lembra que era um grande acontecimento no ateliê o horário do almoço. Todos paravam para cozinhar. Fora isso, ela também cuidava de alguns eventos e ajudava nesse ritual de receber.

Assim, aos poucos, começou a investir nisso como um trabalho. Os amigos pediam ajuda para organizar pequenos eventos, recepções, jantares em casa. Telma virou personal chef e passou a se dedicar a área. Até que há cerca de 12 anos seu novo "ateliê" chegou. Uma das primas do marido havia aberto uma casa com um chef japonês e ofereceu a sociedade para Telma. Foi quando ele fez a proposta de abrir algo novo, voltado para clientes japoneses mesmo. "Aí juntou tudo. A parte artística, a de criação, concepção visual foi eu que criei. Aizomê é tingir de azul. No Japão é uma técnica milenar, mas aqui temos o blue jeans... Essa brincadeira eu gostei de fazer e no restaurante tem muitas coisas nesse tingimento, nesses tons."

De alguma forma se olhar um prato meu vai ver cor, textura, o uso da cerâmica e não é só pelo aspecto visual.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A cozinha sempre foi algo muito forte, tanto na sua casa quanto no trabalho com moda.

Foi isso que ela conseguiu fazer. Unir todos os seus conhecimentos. Para ela, não tem essa coisa de deixar a medicina para trás ou largar o mundo da moda. Tudo sempre está em uma constante mistura dentro dela e em tudo que faz. "Tudo se usa, tudo soma. De alguma forma se olhar um prato meu vai ver cor, textura, o uso da cerâmica e não é só pelo aspecto visual. Isso é forte, mas para os japoneses o recipiente é tão importante quanto o conteúdo. O vazio é tão importante quanto o que você coloca ali. E tudo vou usando, o que aprendi na medicina que é saúde, nutrição, aspecto físico, químico, biólogo. Está tudo aqui... a moda, o visual."

Os ingredientes perfeitos. E muito trabalho de pesquisa – que é outra coisa que não deixou para trás. Desde criança sempre teve o hábito de ler, ir atrás de conhecimento sobre aquilo que a interessava. Com a gastronomia foi a mesma coisa. Juntou sua vivência e observação da família na cozinha com muita pesquisa. "Comecei a estudar, aprender e entender o que era uma culinária japonesa, algo que eu só via com os meus avós que tinha mistura de sushi com feijoada, sashimi com churrasco [risos] e muita coisa entendi nesse processo de resgatar". Criou assim a identidade do seu restaurante.

Eu não sirvo salmão, por exemplo, o que é totalmente na contramão de 90% dos restaurantes japoneses.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Comer não é só um ato mecânico, físico, mas tem tudo a ver com espiritualidade."

"Queria um trabalho mais amplo e não foi fácil. Eu não sirvo salmão, por exemplo, o que é totalmente na contramão de 90% dos restaurantes japoneses, mas se eu for seguir uma linha mais pura dos preceitos japoneses de uma culinária bem feita você tem que trabalhar com os peixes locais e sazonais". O que não é bem o caso do Salmão, convenhamos. Assim ela segue sua própria linha de criação. "O foco é pensar em uma coisa gostosa, de qualidade, bem feita. E tenho feito bastante a cozinha japonesa com todos os conceitos, técnicas, filosofia, mas uso os ingredientes daqui. São coisas que eu trago para fazer uma comida japonesa que está inserida no aqui e no agora." E tudo tem feito muito sentido mesmo. Tanto que desde o ano passado ela está à frente da cozinha do consulado do Japão em São Paulo. Trabalha nas recepções, banquetes, assina o cardápio. Ela é a primeira mulher a assumir o posto, tradicionalmente ocupado por homens japoneses.

Telma reconhece a conquista, de fato. E coloca seu gênero como algo que a ajudou a chegar nesse lugar. "O fato de ser mulher contou muito. A gente tem que se provar bem mais, tem que ir além. No começo eu achava injusto ter que fazer muito mais por ser mulher. Mas hoje eu agradeço porque essa demanda de ter que fazer mais, ir mais longe, estudar e me provar é o que eleva e não me deixa acomodar, estou sempre reciclando. E a mulher tem uma outra abordagem, a gente pensa no conjunto, no cuidado, tem mais a ver com o momento que estamos passando agora". Telma deixa claro também que olhar para o futuro é algo importante e essa mistura que ela consegue fazer do Brasil com o Japão o grande diferencial de seu trabalho. "Minhas raízes são japonesas, mas eu sou brasileira então posso pegar o melhor dos dois mundos."

No começo eu achava injusto ter que fazer muito mais por ser mulher. Mas hoje eu agradeço porque essa demanda é o que eleva e não me deixa acomodar, estou sempre reciclando.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Foi na cozinha que Thelma encontrou sua inspiração.

É o seu dom – e especialidade da casa. Fazer boas combinações e misturas. Toda a sua criatividade traduzida para seus pratos, porque foi na cozinha que encontrou sua grande tela de expressão. Mas que fique claro. Não se trata apenas de um prato de comida. Porque não se trata apenas de comer, como ela bem sabe. "Fiz esse resgate, essa pesquisa, cada viagem que eu fiz ao Japão via uma camada a mais, ia mais fundo".

Comer não é só um ato mecânico, físico, mas tem tudo a ver com espiritualidade. Quando você come, você agradece.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Para ela, não tem essa de deixar a medicina para trás ou largar o mundo da moda. Tudo sempre está em uma constante mistura.

Como alguém que coloca um tecido sobre o outro de forma a nunca encobrir o que está embaixo, mas sempre valorizar e dar força a todas as camadas, juntas, que o compõe. "Comer não é só um ato mecânico, físico, mas tem tudo a ver com espiritualidade. Quando você come, você agradece e agradece não só o alimento, mas você agradece quem pescou, quem plantou, seus antepassados, tem todo um sentimento ali".

Pode não ser óbvio. Mas é possível perceber que tem muito mais mesmo.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.