ENTRETENIMENTO
08/08/2018 18:11 -03 | Atualizado 09/08/2018 10:20 -03

A fantástica jornada de Cher, de diva a atriz séria e a diva de novo

Em 'Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo', Cher interpreta uma versão amplificada de si mesma – e ela se entrega à brincadeira. Veja por que isso é significativo.

Illustration: Damon Dahlen/HuffPost Photos: Getty/Alamy
There's never enough Cher.

De todas as estrelas do pop que tentaram carreira como atrizes, Cher é a que tem o melhor histórico. Silkwood – O Retrato de uma Coragem. Marcas do Destino. As Bruxas de Eastwick. Feitiço da Lua. Minha Mãe é uma Sereia.

Com a carreira pós-Sonny & Cher vivendo altos e baixos nos anos 1980 e começo dos 1990, sua carreira no cinema decolou – uma conquista e tanto, dados os exageros que a transformaram numa bomba de glitter ambulante desde a metade dos anos 1960. Abandonando suas excentricidades como poucas estrelas pop, Cher passou por várias transformações nas telas – tanto que ganhou um Oscar depois de soltar uma das frases mais famosas da história do cinema.

Mas quando Cher se superou – em termos de glitter – com o sucesso estrondoso de Believe, sua carreira no cinema começou a atrofiar. Ela estava com 52 anos, e seu status de diva tinha se tornado mitológico, quase cômico. Ela era decadente demais para aparecer nos mesmos papeis de sempre, e Hollywood não a considerava mais uma atriz lucrativa. Cher entrou de cabeça na brincadeira, fazendo papeis que eram versões exageradas dela mesma (O Jogador, Will and Grace, Ligado em Você), até mesmo quando ela não estava fazendo o papel de si mesma (Burlesque).

Essa tradição se mantém até hoje. Cher é a grande dama de Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo, fazendo uma entrada triunfal na última hora, algo de que só ela mesma seria capaz. (Cher faz o papel de Ruby, uma cantora famosa que tem uma relação complicada com a filha, Donna, interpretada por Meryl Streep.)

Mas, ao celebrar essa diva septuagenária, é fácil esquecer como chegamos aqui. Cher conquistou o respeito da crítica e do público numa época crítica de sua carreira, desafiando quem duvidasse que seu encanto pop fosse um obstáculo para uma carreira de sucesso no cinema. Ela provou ser uma atriz excelente, capaz de interpretar mulheres comuns diante de dificuldades cotidianas.

Vamos lembrar como Cher se tornou a maior das atrizes-pop e por que ela continua fazendo jus a esse superlativo mesmo que já não seja mais a estrela de maior brilho em Hollywood.

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O começo

Chastity (1969)

Para entender as ambições de Cher como atriz, temos de voltar a 1967, quando a comédia musical Good Times, estrelando ela e o então marido, Sonny Bono, flopou. Querendo provar que a dupla de I Got You Babe poderia dar certo também no cinema, Bono escreveu o primeiro papel principal da carreira de Cher. Chastity é uma esquisitice de 83 minutos sobre uma errante de espírito livre que fala sozinha em público e tira vantagem das fraquezas dos homens.

Foi uma tentativa de legitimizar Sonny & Cher para o público da contracultura, que considerava o casal quadrado – Bono tinha reclamado da proeminência do sexo e das drogas na época. Lançado em junho de 1969, Chastity queria ser um filme à moda da Nouvelle Vague francesa, cheio de grandes ideias – Bono aparentemente disse que o filme tratava da repentina "falta de hombridade" da sociedade e da "independência que as mulheres conquistaram, mas não necessariamente queriam". Mas o resultado foi um filme ruim, incluindo um romance lésbico e abuso de crianças.

Foi outro flop – especialmente embaraçoso para Cher, porque ela era a cara do projeto. Mas filmes ruins podem ser testamentos da habilidade dos atores. Cher está à vontade na frente das câmeras e nunca permite que sua fama se apresente antes que ela abra a boca. As mesmas qualidades das suas melhores atuações futuras já estavam presentes - ela demonstrava uma confiança que parecia um dedo do meio para quem a traísse.

Pena que a experiência a tenha afastado das telas por 13 anos. Durante esse período, Cher lançou 11 discos solo e se divorciou do controlador Bono, finalmente se livrando da marca Sonny & Cher.

Come Back to the Five and Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean (1982)

Em 1981, com a carreira musical patinando e a separação de Bono seis anos no passado, Cher foi para Nova York estudar com o famoso professor de atuação Lee Strasberg. Robert Altman, na época famoso pela série de TV M*A*S*H, estava montando o elenco para a estreia na Broadway de Come Back to the Five and Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean, peça escrita por Ed Graczyk. Altman escalou Cher no papel de Sissy, uma libertina de língua ferina que trabalhava em um restaurante de uma pequena cidade do Texas.

Quando Altman chamou o elenco para a versão cinematográfica de Jimmy Dean, a carreira de Cher renasceu. O filme inteiro se passa em um único set, e os diálogos são bastante teatrais. Cher tem um dos papeis mais importantes e faz um monólogo lacrimejante sobre o casamento fracassado de Sissy. A personagem usa seu apelo feminino para mascarar as dúvidas que tem a respeito de si mesma – algo que Cher entendia bem depois da separação. Ela mostra uma vulnerabilidade impressionante nas cenas em que Sissy ri apesar do sofrimento.

Jimmy Dean não foi um grande sucesso, mas serviu de voto de confiança em uma época complicada da carreira de Cher – além de render a ela uma indicação para o Globo de Ouro.

O Retrato de uma Coragem (1983)

Em Retrato, Cher novamente trabalhou com um dos diretores mais talentosos de Hollywood, Mike Nichols (A Primeira Noite de um Homem, Quem Tem Medo de Virgina Woolf?), interpretando uma lésbica funcionária de uma usina nuclear na qual os trabalhadores são expostos a radiação.

É até hoje uma das melhores performances de Cher – e ela quase não aceitou o papel, porque estava intimidada com a ideia de contracenar com Meryl Streep. ("Quando fizemos Retrato, nem sabia o que era um close", disse ela ao The New York Times) Cher demonstra sua capacidade de interpretar uma mulher normal, o completo oposto da estrela que ela sempre foi.

O Retrato de uma Coragem estreou em dezembro de 1983 e rendeu a Cher sua primeira indicação ao Oscar, além de uma estatueta do Globo de Ouro. No discurso, ela alfinetou os "tubarões de Hollywood" que não lhe deram chances antes de Altman – prova de que, apesar das reservas em aceitar o papel em Retrato, ela sabia do seu próprio valor.

Marcas do Destino (1985)

Se Retrato provou que Cher era capaz de transcender a fantasia de Half Breed, Marcas do Destino provou que seu talento era mais que confiável. Dando uma pausa na carreira musical depois do disco I Paralyze, que não rendeu nenhum hit, ela mais uma vez trabalhou com um grande diretor, Peter Bogdanovich (A Última Sessão de Cinema, Lua de Papel), interpretando Rusty Dennis, mãe de um adolescente (Eric Stoltz) com deformidade cranial.

Foi o terceiro filme consecutivo em que Cher se acabou de chorar, e um roteiro perfeito para ela. Rusty é groupie de uma gangue de motociclistas que gosta de drogas e é inteiramente dedicada a seu filho. Assim como faria em Minha Mãe é uma Sereia, ela interpreta uma mãe que faz suas próprias regras (tentando arrumar uma mulher para transar com ele, por exemplo). O papel rendeu a Cher sua terceira indicação para um Globo de Ouro e o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes – mas ela foi esnobada no Oscar.

Pouco importa: Marcas foi um sucesso retumbante de bilheteria, e Cher entrou para o time das atrizes mais requisitadas de Hollywood, junto com Jane Fonda e Meryl Streep. Na cerimônia do Oscar, ela vestiu uma roupa desenhada por Bob Mackie que deixava sua barriga à mostra e incluía uma capa e um enorme adereço de cabeça. Era um look mais punk rock que elegância de Hollywood – um "foda-se" para a Academia e um lembrete de que ela não iria mudar seu visual para agradar os conservadores dos anos Ronald Reagan.

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Os anos de ouro

As Bruxas de Eastwick (1987)

Depois de Marcas, alguns executivos de estúdio ainda questionavam a capacidade de Cher de atrair o público que a conhecia como uma rainha do pop que não tinha um single de sucesso havia anos. Sua credibilidade era constantemente colocada à prova – e, em todas as ocasiões, ela demonstrava seu valor.

Em 1987, na idade crítica de 41 anos, Cher fez um trio de sucessos comerciais nos quais ela era a grande atração, começando com a deliciosa comédia As Bruxas de Eastwick, sua primeira experiência com o gênero desde seu show de variedades, uma década antes. Depois veio o thriller jurídico Sob Suspeita, que exigia que ela usasse terninho para fazer o papel de uma advogada dada a longos monólogos. Por fim, veio o romance Feitiço da Lua, que exigia o sotaque forte dos italianos no Brooklyn. Em cada um desses filmes, Cher capturou uma versão da vida americana cotidiana - e o que é mais transformador do que Cher fingindo ser uma mulher comum?

Fazendo o papel de outra mãe solteira em Bruxas (dirigido pelo maestro de Mad Max, George Miller), ela estava à altura de Susan Sarandon, Michelle Pfeiffer e Jack Nicholson. Cher claramente gostou do papel. Na briga com o vilão interpretado por Nicholson, ela troca a energia maximalista que muitas atrizes usariam na cena por um sorrisinho suave, saboreando cada palavra ao chamá-lo de "fisicamente repulsivo, intelectualmente retardado, moralmente repreensível, vulgar, insensível, egoísta [e] burro".

Sob Suspeita (1987)

Em Sob Suspeita e Feitiço da Lua, Cher foi a primeira escolha dos diretores, ganhando um salário de mais de 1 milhão de dólares em cada filme - um número impressionante em meados dos anos 80, embora menos do que recebiam atores como Bruce Willis e Robert Redford.

Sob Suspeita permitiu que Cher ticasse um item obrigatório para estrelas dos anos 1980 e 1990: fazer pelo menos um thriller jurídico sem sal. O filme de Cher era um drama de tribunal misturado com uma história de amor eticamente duvidosa. (O jovem Dennis Quaid era irresistível.) Pode ser a atuação menos "Cher" de Cher – dá para imaginá-la usando um terninho sem frescuras hoje em dia? Mesmo assim, ela está à vontade e confiante no papel. Surpreendentemente, a mulher cuja roupa deixava a bunda à mostra (e por isso seria banida da MTV) parece muito tranquila no meio de toda aquela papelada.

Feitiço da Lua (1987)

Sob Suspeita não fez muito sucesso de bilheteria quando foi lançado, em outubro, e em dezembro o filme já estava praticamente esquecido quando estreou Feitiço da Lua, o ápice artístico de Cher no cinema. No papel de uma viúva que se apaixona pelo irmão mais novo de seu noivo (Nicolas Cage), ela passa por uma enorme gama de emoções, emprestando realismo ao que é, no fim das contas, uma história de Cinderela. Que ela o faça com o mesmo carisma físico é um espanto, especialmente considerando que ela não achasse Cage um parceiro de cena generoso. (Ela deve ter curtido aquele tapa na cara.)

Feitiço viria a ser a quinta maior bilheteria de 1987 e rendeu as melhores críticas a Cher. Em abril do ano seguinte, ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz. Com outro audacioso vestido de Bob Mackie, Cher fez um discurso sincero, mais de estrela do cinema que de estrela do pop.

"Não acho que isso signifique que eu seja alguém, mas estou chegando lá", disse ela em um raro momento de modéstia. De vez em quando, até Cher gosta de brincar.

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A Patinada

Minha Mãe É uma Sereia (1990)

Como que encorajada pelo respeito conquistado em Hollywood, Cher assinou um contrato recorde com a gravadora de seu amigo David Geffen. Cher, lançado em 1987, depois de cinco anos longe dos estúdios, teve dois hits medianos (I Found Someone e We All Sleep Alone) e serviu de prefácio para Heart of Stone, disco de rock que tinha impacto suficiente para colocá-la no patamar de Madonna, Paula Abdul e Whitney Houston.

Cher abriu uma produtora com a Tri-Star Pictures, e seu papel seguinte seria Minha Mãe é uma Sereia, uma comédia dramática sobre uma mãe que cria duas filhas muito diferentes (Winona Ryder e Christina Ricci). O papel era um casamento perfeito das imagens de Cher na música e no cinema. A personagem dela era progressista em relação ao sexo, ao contrário da maioria das mães, mas ao mesmo tempo tinha aquele quê de classe média, o que a mantinha com os pés firmemente plantados no chão. Cher, filha de pais divorciados que cresceu sem muito dinheiro, mata no peito esse paradoxo.

Mas Sereia também foi um momento decisivo. Depois de começar uma longa turnê mundial em 1989, Cher estava exausta e começou a brigar com o diretor Lasse Hallström (Minha Vida de Cachorro). As filmagens foram interrompidas para que Cher pudesse descansar, e Hallström foi substituído por Frank Oz (A Pequena Loja de Horrores). Cher também não se entendeu com Oz – "ela o espancava emocionalmente", disse uma fonte à revista Vanity Fair – e ele abandonou o projeto. ("Olha, só sou difícil se você for um idiota", disse Cher.) Richard Benjamin (Um Dia a Casa Cai) foi escalado para concluir o filme.

O drama de bastidores ganhou as manchetes e cristalizou a reputação de intratável que toda divaganhamais cedo ou mais tarde. Minha Mãe É uma Sereia teve desempenho OK na bilheteria – merecia mais, pois o filme é uma delícia –, e Cher se perguntava se seus dias de cinema estavam contados, porque ela já tinha passado dos 40, idade em que as mulheres viram jararacas.

O Jogador (1992) e Prêt-à-Porter (1994)

Depois das confusões de Sereia, o agente de Cher tentou convencê-la a fazer mais cinema, especialmente uma das personagens principais de Thelma & Louise. Mas ela precisava dar um tempo. (Ela também recusou A Guerra dos Roses, de Danny DeVito.) Em vez disso, ela lançou o disco Love Hurts em 1991 – mas o principal single, Love and Understanding não passou da 17ª posição nas paradas. Aí ela partiu em mais uma turnê e começou a fazer infomerciais de produtos de beleza – que a transformaram em motivo de piada.

Mas, em vez de desaparecer, ela fez a coisa mais "Cher" possível: interpretou a si mesma, a diva, duas vezes. Primeiro em O Jogador, sátira do mundo de Hollywood dirigida por Robert Altman. Depois, em Prêt-à-Porter, sátira do mundo da moda também dirigida por Altman. Em ambos os filmes ela aparece no tapete vermelho.

Em O Jogador, Cher está entrando num evento quando uma apresentadora de TV diz: "Bem, só mesmo a Cher para usar um vermelho cor de caminhão de bombeiro quando os convites pediam só branco e preto, por favor". Entrando na brincadeira de Altman, ela acaba com a separação entre pessoa e persona. Cher tinha um calibre de diva que parecia mitológico, daqueles que não se dobram às regras da indústria – e ela queria deixar isso muito claro.

Em uma entrevista em Prêt-à-Porter, quando um jornalista se mostra surpreso com a beleza de Cher, ela responde: "Pois é". As pontas foram maneiras de afirmar o status que ela conquistou em três décadas no show business. Também essencial: eles permitem que Cher faça graça com a busca da fama e com a iconoclastia.

Apesar de certificar o estrelato de Cher, O Jogador não a levou de volta ao primeiro escalão de Hollywood. Uma reportagem da revista Entertainment Weekly de 1993 – de autoria de um jovem Ryan Murphy – atribuiu a um produtor anônimo a declaração de que escalar Cher para um filme era um "risco". A confiança nela estava abalada. "Não sei se quero continuar a ser Cher", admitiu ela em 1994.

Fiel, Mas Nem Tanto (1996)

Mas Cher seguiu em frente, tentando emplacar Tabloid, sobre uma atriz e um editor de jornal, com sua companheira de Bruxas de Eastwick Michelle Pfeiffer. Ela também tentou fazer um remake de The Enchanted Cottage num formato de musical (incentivada por Francis Ford Coppola), mas perdeu os direitos e os dois projetos não vingaram. (Ela continuaria a falar deles até recentemente.)

Comercialmente, 1995 e o começo de 1996 foram especialmente difíceis para Cher. O disco It's a Man's World, disco com toque de roque sulista, foi um fracasso, assim como seu primeiro papel principal em seis anos, em Fiel, Mas Nem Tanto, que estreou em 19 de abril de 1996. Não é surpresa que Cher seja a maior atração do filme, no papel de uma dona de casa cujo marido infiel (Ryan O'Neal) contrata um assassino de aluguel (Chazz Palmintieri) para matá-la. O roteiro, escrito por Palmintieri, não é engraçado nem tenso o suficiente. Foi a primeira vez que a reputação de Cher ficou à frente de sua personagem: nunca acreditamos que Cher realmente corre perigo, porque ela é famosa demais para morrer.

"Fiel" arrecadou míseros 2,1 milhões de dólares, mas Cher não estava nem aí para as críticas: "Não foi prejuízo. Pelo menos as resenhas disseram que foi bom me ver nas telas de novo".

A carreira de Cher no cinema poderia ter definhado de vez, pois poucas estrelas resistem a fracassos assim. Um single que não emplaca é muito diferente de um filme no qual foram investidos milhões de dólares.

O Preço de uma Escolha (1996)

Mas Cher nunca desistiu. No final de 1996, ela voltou com um projeto tão ambicioso que nenhum estúdio queria chegar perto. Demi Moore tinha passado cinco anos produzindo O Preço de uma Escolha, procurando uma rede de TV disposta a aceitar um tríptico de mulheres procurando aborto – uma em 1952 (Moore), uma em 1974 (Sissy Spacek) e uma em 1996 (Anne Heche). A HBO aceitou o desafio.

Perto dos 50 anos e sabendo que papeis de destaque estavam cada vez mais raros, Cher viu em Preçouma chance de defender os direitos reprodutivos (ela fez dois abortos legais, e sua mãe e sua avó quase morreram ao abortar ilegalmente quando eram jovens). Ela também aproveitou a oportunidade para dirigir, algo que queria fazer havia anos. Então ela aceitou um papel pequeno e dirigiu a terceira parte do filme, fazendo o papel de uma médica que tem de lidar com manifestantes antiaborto. Foi um papel diferente para Cher – mais austero --, e ela consegue exprimir um misto de cansaço e perseverança.

Quando estreou, em outubro de 1996, Preço tornou-se o terceiro filme de maior audiência dos 24 anos da HBO. Cher foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante – um tapa na cara de quem achava que sua carreira tinha acabado.

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A Redenção

Chá com Mussolini (1999)

Cher deu um tempo em 1997, abrindo caminho para o que se tornaria um dos mais brilhantes retornos da história do pop. Ela tinha 52 anos quando Believe tornou-se seu primeiro single número 1 nas paradas desde 1974. Os produtores tinham a incentivado a abraçar a base de fãs gays, e de repente ela estava competindo com artistas mais jovens como Britney Spears, TLC e Mariah Carey. No final de 1999, Believe era a música mais popular do ano. Seu status de diva explodiu, muito mais do que com a caricatura de O Jogador.

Believe também é a música que tornou o autotune um fenômeno. O fato de uma pessoa que já não era conhecida por ser uma grande cantora distorcer sua voz de forma tão pouco convencional parecia um ato de rebeldia, um "olha só o que eu estou fazendo". A gravadora de Cher insistiu que os efeitos fossem removidos, e ela respondeu: "Só passando por cima do meu cadáver!"

Naquela época, Cher foi uma das principais atrações do show Divas Live '99 e lançou uma turnê mundial tão grandiosa que era quase cômica. Divas que já tinham sido consideradas pares (Cyndi Lauper, Belinda Carlisle) abriram os shows daquela turnê.

Cher estava mais ousada do que nunca quando Chá com Mussolini estreou nos cinemas, em 14 de maio de 1999. Nas filmagens, realizadas um ano antes na Itália, ela foi a única atriz a ter suas próprias maquiadora, cabeleireira e secretária pessoal - o que não a impediu de se sentir intimidada por Maggie Smith, Judi Dench, Joan Plowright e Lily Tomlin. O diretor Franco Zeffirelli (Romeu e Julieta) baseou o drama dramático daquele grupo de mulheres em um capítulo de sua autobiografia, centrando a história em uma colônia de inglesas que viviam em Florença na década de 1930.

Smith é o grande nome do filme, mas Cher aparece como uma viúva rica americana dona de regalias cáusticas, mas malucas. Faz sentido que o auge da carreira pop deslumbrante de Cher tenha coincidido com um filme em que ela usa as roupas mais espalhafatosas. Sua persona não se encaixava mais nos figurinos rurais de O Retrato de uma Coragem ou nos terninhos de Sob Suspeita – o que, aliás, jamais aconteceria novamente.

Chá com Mussolini arrecadou apenas 14,4 milhões de dólares nos Estados Unidos. O filme também foi esnobado no Oscar, apesar de ser o tipo de isca que a Academia adora morder. Isso não é necessariamente culpa de Cher, mas leva a uma conclusão interessante: o que as pessoas queriam, depois de Believe, era ver Cher simplesmente ser Cher.

No final de 2000, ela estava trabalhando para fazer acontecer o musical Enchanted Cottage, imaginando que a protagonista seria uma mistura "mim, Tina Turner e Madonna". Mas não deu certo, e Cher não faria outro papel principal até Burlesque, de 2010. Ela embarcou numa turnê de despedida e se jogou de vez no "Cher Interpreta a Si Mesma". Deu certo.

Will & Grace (2000, 2002) e Ligado em Você (2003)

Em 2000 e 2002 ela apareceu como Cher na série Will & Grace. Num episódio de 2000 intitulado Gypsyes, Tramps and Weed, uma brincadeira com a música de 1971 Gypsyes, Tramps & Thieves, Jack (Sean Hayes) está obcecado com uma boneca da Cher. Quem mais apareceria em cena se não a própria? Mas Jack acha que ela é uma drag queen – uma piada com o visual exagerado de Cher. Eles fazem uma competição de canto, e Jack faz uma imitação exagerada de Cher – na cara dela. Mas Cher ri por último, dando um tapa na cara dele e soltando a famosa frase: "Acorda!"

Nada é mais poderoso que uma estrela do cinema interpretando a si mesma com um toque de ironia, e em Will & Grace – como em O Jogador -, Cher ri de si mesma. Ela é tratada como um império, ao mesmo tempo consciente de si e indiferente – a maneira perfeita de dominar sua própria narrativa sem estar deslumbrada por ela.

Em 2003, ela apareceu como uma Cher mais atrevida, na farsa Ligado em Você, com Matt Damon e Greg Kinnear, que fazem gêmeos siameses que se mudam para Hollywood quando um deles quer começar uma carreira no cinema. Vestindo uma jaqueta de couro preta e com o cabelo espetado, Cher grita com o agente (Jackie Flynn) sobre sua carreira: "Por que estou fazendo esse programa de TV fuleiro quando devia estar fazendo filmes?", diz ela antes de lembrá-lo que já ganhou um Oscar.

As aparições em Will & Grace não foram nada fuleiras, mas é de imaginar que Cher pudesse estar amarga com o estado de sua carreira de atriz. Para complicar as coisas ainda mais, Hollywood estava se distanciando dos dramas com personagens idiossincráticos e se concentrando mais em espetáculos cheios de ação e explosões. Entre 2004 e 2009, Cher não apareceu nas telas. Foi então que começou sua residência em Las Vegas, que dura até hoje.

Burlesque (2010)

Quando Cher voltou com Burlesque, as piadas se escreveram sozinhas. Um musical sobre uma aspirante a atriz (Christina Aguilera) que vira protegida de uma dona de casa noturna (Cher), o filme passou por enormes revisões de roteiro (pelas mãos de ninguém menos que Diablo Cody, de Juno, Susannah Grant, de Erin Brockovich, e John Patrick Shanley, de Feitiço da Lua). Ainda assim, o filme parece mais uma coleção de videoclipes. Cher parece estar de saco cheio, o que faz sentido: David Geffen, que tinha namorado o diretor Steve Antin, a convenceu a participar do filme. O papel também não combina com ela. Quem imaginaria Cher cuidando de um cabaré caído? Ainda assim, ela consegue emprestar algum orgulho à sua personagem.

"Olha, não tenho muita amplitude (como atriz)", disse ela em 2010. "Nunca tentei nada além de interpretar quem eu sou. Se você olhar para minhas personagens, todas são eu." Mas ela está errada. Cher não é Cate Blanchett, mas é capaz de se transformar – ou pelo menos de mostrar instintos – muito mais do que admite.

Também faz sentido que Cher acabasse vendo o filme como um reflexo de seu legado: "Estou num lugar estranho agora", disse ela em 2013. "Sou velha demais para ser jovem e sou jovem demais para ser velha, então tenho de ser usada de forma criativa. Em Burlesque, que era horrível, eu não tinha interesse romântico, estava comandando essa [trupe], é quem eu era. Poderia ter sido um filme muito melhor. [...] Diretor terrível! Diretor realmente terrível. E roteiro realmente terrível. Lembro dele dizendo para mim: 'Não me importo com o que você diz, eu só quero filmar os números da dança'. Se fosse mais curto, teria sido um bom filme pra ver comendo pipoca."

O Zelador Animal (2011), Nossa Casa – As Aventuras de Tip e Oh (2017) e Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo(2018)

No mesmo fôlego, Cher prometeu continuar atuando. Mas, além de dublar um leão na comédia de Kevin James O Zelador Animal e um alienígena que "sabe como fazer uma entrada" em Aventuras de Tip e Oh, da Netflix, nenhum outro projeto havia se materializado até agora.

Em Mamma Mia!, como em Burlesque, Cher interpreta Cher, na medida em que seu traje elegante e o diálogo mal-humorado anuncia seu status de diva. Ah, e porque ela é a melhor parte do filme.

Ela aparece nos últimos 15 minutos, chegando de helicóptero ao hotel grego agora dirigido por Sophie (Amanda Seyfried). Você sabe que é Cher no segundo em que o helicóptero aparece. De forma dramática, vemos a perna da calça pousando antes de aparecer seu rosto sem rugas. É um momento que praticamente implora que o público grite.

"Mes enfants, je suis arrivé; que comece a festa", diz ela ao sair do helicóptero. Quando canta Fernando, do ABBA, com Andy Garcia, fogos de artifício explodem no céu.

Cher rouba o filme quase imediatamente, dançando como se estivesse no palco de um de seus shows - o casamento definitivo dos vários tentáculos de sua carreira de 55 anos. Se é possível que Cher supere Cher, Mamma Mia! é a reposta. Mas o filme também cristaliza o que imaginamos há muito tempo sobre ela: mesmo aos 72 anos, ela ainda está fazendo a piada que estreou em O Jogador e confirmada em Will & Grace.

Ela provavelmente nunca terá outro hit no Top 40 – considere seu disco de 2013 Closer to the Truth e sua recém-anunciada coleção de covers do ABBA -, mas Cher ainda pode aproveitar sua marca para eletrizar o público que conhece a grande diva. Hoje, sua maior transformação é usar uma peruca loira oxigenada. Talvez essa seja a única transformação que queremos para Cher, mesmo que em termos de enredo Mamma Mia! não saiba bem o que fazer com ela.

Se estrelas pop devem ser mitológicas e atores devem ser aspiracionais, Cher tem absoluto controle de ambos os cenários. Ela o fez sem nunca fugir do mundo que metabolizava sua iconografia – e sempre rindo do absurdo que é a fama. Esse senso de humor agora é sua alma. Não importa o que aconteça nos próximos anos, ainda vamos ver e ouvir falar muito de Cher.