COMPORTAMENTO
07/08/2018 16:08 -03 | Atualizado 07/08/2018 16:10 -03

Pare de ficar falando em ‘fobia’ sem motivo

Existe uma diferença enorme entre ter medo de alguma coisa e uma fobia de verdade.

Koldunov via Getty Images

Ter medo de aranhas é bastante comum. Mas se pensar nas criaturas já te causa ansiedade excessiva e faz disparar seu coração, você pode estar exibindo sinais de alguma fobia.

Fobias são descritas como um medo forte e irracional de certos lugares, eventos ou objetos, segundo a National Alliance on Mental Health, dos Estados Unidos. Elas podem impedir as pessoas de participar de certas atividades com família e amigos, atrapalhar a busca por emprego e até mesmo forçar os outros a deixar de fazer algumas coisas.

Considere o comediante e apresentador de TV Howie Mandel. Ele já falou abertamente do medo que sente de germes e como isso atrapalha sua vida. Ele afirma que evita apertar a mão ou tocar coisas que possam conter bactérias.

"Na minha cabeça, [minha mão] é uma placa de Petri", disse ele numa entrevista de 2009. "Antigamente, passava o dia no banheiro lavando e esfregando a mão."

Como o medo é uma resposta normal do corpo diante de perigos que são percebidos, as fobias são confundidas com medos exagerados. Mas, na realidade, elas são consideradas uma forma de transtorno de ansiedade. É por isso que chamar de fobia algum medo normal ou algo de que você não gosta é completamente errado. Esse tipo de uso casual do termo pode contribuir para o estigma da doença (mesmo que não seja a sua intenção).

Para esclarecer a diferença entre medo e fobia, o HuffPost pediu a ajuda de especialistas. Veja o que você precisa saber para diferenciar um do outro e para lidar com as fobias.

Entendendo as diferenças

A principal distinção entre fobia e medo é que a fobia é debilitante, ou seja, ela pode impedir a pessoa de realizar tarefas rotineiras ou interferir no seu dia-a-dia, segundo Anna Hickner, psicóloga baseada em Nova York.

"Ansiedade e medo têm a função de nos manter seguros, mas as fobias provocam uma resposta desproporcional em relação à coisa ou evento ameaçador." Anna Hickner, psicóloga.

Carolyn Rodriguez, psiquiatra do Stanford Health Care, diz que medos normais não interferem em nossa capacidade de trabalhar, frequentar eventos sociais ou manter relacionamentos – mas, no caso das fobias, pode ser diferente. Elas podem provocar ataques de pânico, que são acompanhados de palpitações cardíacas, suor e tremores.

Stephanie Dowd, psicóloga e co-diretora do Behavioral Psych Studio, em Nova York, explica que as fobias podem ser chamadas de medos irracionais porque o objeto ou situação que as causam tipicamente não são tão prejudiciais.

"Uma pessoa que tenha fobia de cachorros pode sentir um pânico extremo quando está perto de cães e vai evitar a todo custo ter de interagir com eles", diz Dowd. "A reação é intensa e não se sustenta nos fatos, porque os cães não significam perigo iminente."

Dowd diz também que quem sofre de fobias costuma generalizar seu medo e ansiedade. "Por exemplo, a pessoa vai sentir muito medo de cães grandes com caras de bravo e também de cachorrinhos pequenos."

As causas biológicas da fobia não são conhecidas, mas Hickner sugere que experiências passadas e fatores ambientais podem ter influência.

"As fobias aparecem depois de experiências ruins ou traumáticas, como ficar preso no elevador ou ser atacado por um animal", afirma a psicóloga. "Mas [elas] também podem aparecer por influência de outras pessoas, tais como um parente ou alguém próximo que sofre da mesma fobia."

Carmen Lalonde, terapeuta do Behavioral Psych Studio, diz que é possível que medos se transformem em fobias com o tempo.

"Evitar repetidamente um objeto ou situação, combinado com pensamentos irracionais a respeito do perigo que eles representam, pode resultar em fobia", diz Lalonde.

As formas mais comuns de fobias são animais, o ambiente, injeções e barulhos muito altos. Algumas das mais conhecidas são aracnofobia (medo de aranhas), aicmofobia (medo de agulhas e injeções), cinofobia (medo de cachorros), demofobia (medo de multidões) e agorafobia (medo de espaços abertos), segundo Raquel Cumba, psicóloga de Nova York.

Algumas fobias aparecem na cultura pop. A misofobia, o medo de germes e contaminações, costuma aparecer em filmes e séries. Em The Big Bang Theory, Sheldon Cooper é retratado como um germófobo que tem preocupação extrema com a higiene.

Em um episódio de Os Simpsons, Marge diz ter fobia de aviões – ela começa a hiperventilar e grita para ser tirada do voo. Neste caso, apesar de conseguir embarcar no avião, ela exibiu sinais de terror.

As fobias duram para sempre?

Apesar das restrições que podem introduzir na vida diária, as fobias são tratáveis. Existem várias terapias.

"As pesquisas mostram que intervenções como terapia cognitivo-comportamental, e especificamente exposição e prevenção de respostas, pode reduzir ou aliviar as fobias", diz Dowd.

Na terapia cognitivo-comportamental, uma forma de psicoterapia, o paciente discute as experiências com o terapeuta e recebe "lições de casa". Na exposição e prevenção de respostas, por sua vez, os pacientes são gradualmente expostos à fobia, para aprender a lidar com elas.

Stacia Casillo, psicóloga e diretora do Ross Center, de Nova York, diz que a terapia de exposição ajudou uma paciente que tinha medo de avião. Ela inclui explicações sobre o funcionamento dos aviões, o que são as turbulências e visualizações de cenários, tanto mentalmente quando por meio de simulações. Em alguns casos, o terapeuta pode acompanhar o paciente até o avião.

"A fobia estava atrapalhando sua carreira, e ela não aproveitava oportunidades para viajar com a família e com os amigos", diz Casillo. "Agora ela viaja normalmente, tanto a trabalho como de férias."

"Você não pode deixar a ansiedade tomar decisões por você. A terapia permite superar os medos e sentir mais controle sobre sua própria vida." Stacia Casillo, psicóloga e diretora do Ross Center, de Nova York

Casillo diz que a maioria das pessoas não procura ajuda profissional para lidar com suas fobias. Em vez disso, seguem tentando mudar o ambiente em que vivem e fugindo de situações que causem ansiedade.

"Sempre digo aos meus pacientes que isso pode funcionar no começo, mas você vai perceber que seu mundo começa a ficar cada vez menor", afirma Casillo. "Você não pode deixar a ansiedade tomar decisões por você. A terapia permite superar os medos e sentir mais controle sobre sua própria vida."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.