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06/08/2018 18:58 -03 | Atualizado 06/08/2018 19:00 -03

Por que você deveria questionar quando te pedem o CPF na hora da compra

Campanha #PerguntePorQue quer sensibilizar as pessoas sobre o fornecimento de dados pessoais.

Getty Images/Westend61

Não é raro você precisar informar o seu CPF no momento de uma compra em algum estabelecimento, seja uma farmácia, uma loja ou em um supermercado. Além do CPF, suas digitais, reconhecimento facial e até endereço podem estar alimentando bancos de dados.

O uso massivo de dados pessoais é uma realidade inegável, não apenas no Brasil.

Essas informações se tornaram elementos cruciais para a economia e para a governança pública. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, os dados pessoais são "uma nova classe de ativos econômicos" e "a moeda do mundo digital".

Mas você sabe qual é o motivo dessas empresas e até mesmo do governo precisarem de seus dados pessoais?

No caso dos estabelecimentos, a primeira resposta é intuitiva e você conhece: fornecer descontos personalizados. Mas saiba que apesar de ser difícil de resistir, o desconto é apenas um atrativo. O que está por trás da insistência para que a gente disponibilize o nosso cadastro de pessoa física?

Buscando responder essa e outras perguntas, o InternetLab, centro independente de pesquisa em direito e tecnologia, lançou a campanha #PerguntePorQue.

Com ajuda de câmera escondida, o grupo fez uma experiência em uma farmácia em São Paulo. O resultado foi este vídeo:

O projeto quer sensibilizar as pessoas a respeito dos inúmeros pedidos de dados pessoais que recebem ao longo do seu dia nas cidades.

"A gente não quer que as pessoas não possam revelar essas informações. A gente quer que as pessoas tenham controle desse fluxo. Hoje, dados possuem um valor em nossa sociedade. Assim ai ela vai poder escolher quando revelar, para quem revelar e entender qual a finalidade desse dado", explicou Francisco Britto Cruz, diretor do InternetLab, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Com a campanha, a ideia é mobilizar a população para que haja uma transparência e maior controle sobre o fluxo de dados que fornecemos. Leia a entrevista e entenda essa e outras questões.

HuffPost Brasil: Qual o objetivo dessa campanha?

Francisco Brito Cruz: O objetivo da campanha é sensibilizar as pessoas do quanto elas compartilham da vida delas nos mais variados estabelecimentos sem se questionar o por quê.

Mas por que deveríamos nos preocupar com esses dados?

Essas perguntas são pessoais e diagnosticam hábitos de consumo sobre cada uma das pessoas. A gente precisa lembrar que existe um valor social sobre a privacidade. Quando uma farmácia nos pede o nosso CPF, por exemplo, ela está fazendo um banco de dados sofisticado sobre o histórico de nossas compras. Esses dados são importantes para manipular ou influenciar aquilo que vai ser colocado para gente como promoções. Ainda, eles influenciam na tomada de decisão sobre nós como consumidores, mesmo sem a gente saber. A gente não está escolhendo os nossos descontos, eles aparece, para a gente. Essa decisão é transparente? Qual é o real motivo dessa coleta de dados por parte das empresas? Os motivos podem ser vários e perguntar o por quê é tentar revelar algum motivo. É ingenuidade pensar que é só para nos fornecer uma vantagem. Os nossos dados tem um valor de mercado hoje.

Mas se os descontos nos beneficiam, a gente deveria simplesmente parar de fornecer os dados?

A gente não quer que as pessoas deixem de dar os dados. Os descontos são sim atrativos. Mas essas pessoas precisam saber o que há por trás desses descontos. Vou te exemplificar. Recentemente, o SPC anunciou um serviço de reconhecimento facial. Eles disseram que tinham um banco de dados de milhões de faces de pessoas. As pessoas que estão nesse banco de dados sabem disso? Provavelmente não. Ou seja, não é só para gerar desconto, mas é para eventualmente negar um crédito, um parcelamento, por exemplo.

Recentemente o Senado aprovou um projeto de lei que regulamenta a proteção de dados pessoais no Brasil. Como essa lei dialoga com a campanha?

A campanha surgiu exatamente nesse momento. A aprovação da lei de dados é o primeiro passo para a construção de uma cultura que valorize a proteção da privacidade no País. Mas essa cultura não tem como nascer apenas no Congresso. Ela precisa surgir do no dia a dia das pessoas. E isso só vai começar se as pessoas se perguntatem o que há por trás do uso desses dados. A campanha não é um confronto com o setor privado, mas um diálogo. E para isso precisamos colocar as pessoas no centro desse debate. A privacidade tem que ser vista como um valor social. Isso era muito forte antigamente, sempre foi um valor para a gente. Mas em um mundo em que a coleta de dados sobre a vida privada não se limita a quem está bisbilhotando a nossa janela, a gente precisa reaprender a como valorizar a nossa vida privada. Quem sabe sobre a nossa intimidade tem poder sobre nós. A gente não pode deixar que as pessoas ou empresas tenham um poder sobre nós de graça, assim de repente.

O debate sobre a preocupação e a privacidade dos dados já está avançad em outros países?

Tem muita gente preocupada. Em algums paises essa discussão já está mais atualizada. A Alemnha é o grande exemplo. O governo fez um censo demográfico há 20 anos e perguntou quantas geladeiras, carros e filhos cada pessoa tinha. A população se rebeleou contra esse censo. Eles questionaram que o governo não tinha que saber dessas informações. A questão foi tão discutida que chegou até a Suprema Corte no país. Foi então que eles decidiram que as pessoas têm direito a autodeterminaçãoo informacional. Isso quer dizer que você tem autonomia para decidir até onde suas informações estão indo. Você tem controle, você é o titular de suas informações.

A gente não quer que as pessoas não possam revelar essas informações. A gente quer que as pessoas tenham controle desse fluxo. Porque ai ela vai poder escolher quando revelar, para quem revelar e entender qual a finalidade desse dado.