06/08/2018 08:00 -03 | Atualizado 06/08/2018 08:45 -03

Bárbara Barbosa: A jovem que encoraja mulheres a trabalhar com tecnologia

Formada em Sistema da Informação, ela organiza eventos voltados para mulheres que querem aprender sobre programação: "Nós somos poucas, mas estamos tentando trazer mais."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Bárbara Barbosa é a 153ª entrevistada no projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Chega de forma discreta, com o computador debaixo do braço, meio que abraçando o aparelho cheio de adesivos. Conta que estava saindo de uma reunião e já foi direto, assim mesmo. Mas dá para ver que ali rola uma relação de cumplicidade e troca um pouco maior. Ela e sua máquina. Ela e a tecnologia. Fala umas siglas e umas expressões difíceis. Mas é tanta naturalidade e carinho nas palavras que nem incomoda. Para ela aquilo tudo é a sua vida – e uma paixão. Um amor já antigo.

Quando adolescente, importunava os pais por um computador próprio. Conta que já estava velha quando os convenceu – essa coisa de fazer turnos com os irmãos para poder usar o que tinham em casa não era suficiente para ela. Tanto que logo entrou em um curso de informática e começou a esboçar seu caminho. Ainda não sabia que ia se tornar uma das funcionárias mais antigas da empresa em que trabalha hoje e nem que seria a primeira a ocupar a função que tem ali dentro.

Bárbara Barbosa, 27 anos, é Cientista de Dados da Creditas, uma plataforma online de crédito, e chegou na empresa quando não tinha nem equipe de atendimento ainda. "Tocava o telefone e a gente ficava em pânico! Ninguém falava com cliente [risos]", brinca. Hoje, a empresa cresceu e tem mais de um andar em um moderno prédio em São Paulo. "Às vezes as pessoas me encontram na copa e falam que nunca me viram. Perguntam se eu sou nova aqui."

Acho que 10% da turma era mulher no meu ano. O que é particular é que tinha muitas professoras.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Para ela a programação é a sua vida - e uma paixão. Um amor já antigo.

Não é. Entrou como estagiária, foi desenvolvedora e virou a primeira cientista de dados da empresa e fala com animação que adora o que faz. Se achou mesmo na tecnologia e essa paixão pela profissão faz com que Bárbara se dedique a ajudar outras meninas como ela a enfrentar os desafios da carreira e assumir esse amor, digamos assim. Como ela fez. No seu crachá, junto com a identificação profissional, está um botton de um dos projetos que ela promove. No computador, colagens que reforçam seu estilo de vida e sua escolha.

Mas o caminho não foi só amor. Começou com um curso técnico de informática e lembra que era um ambiente atípico onde metade da turma era de meninas. Mas na faculdade de Sistema da Informação começou o baque com o mundo real dessa área. "Acho que 10% da turma era mulher no meu ano. O que é particular é que o curso que eu fiz tinha muitas professoras. Tinha bastante inspiração, eram mulheres muito fortes com conhecimento gigantesco que me inspiraram muito."

Em todo lugar é um caos para usar o banheiro feminino, menos numa conferência de tecnologia porque só tem você para usar o banheiro.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
E isso que ela faz no Rails Girls: mostrar que tem como seguir em frente.

E não só na faculdade era minoria. No mercado de trabalho e eventos de tecnologia a coisa também era um pouco solitária e foi quando ela e uma amiga queriam participar de uma conferência da área que ela se deu conta de fato desse abismo. "Fomos ver a programação e tinha uma mulher e mais 15 caras palestrando. E achamos meio bizarro. E assim... eu já tinha ido em algumas conferências e em todo lugar é um caos para usar o banheiro feminino, menos numa conferência de tecnologia porque só tem você para usar o banheiro. Já ouvi histórias de mulheres que ficaram no banheiro esperando outras mulheres para conhecer uma menina em uma conferência, ficar mais à vontade."

Dessa percepção, surgiu a vontade de criar projetos que dessem força para outras meninas e mulheres como ela. Assim, resolveu organizar em São Paulo o Rails Girls, um evento gratuito que nasceu na Finlândia e tem o objetivo de ensinar mulheres técnicas de design e programação. Este ano, o Rails SP chega a sua quarta edição. "Já tivemos casos de sucesso em que a menina foi a primeira vez no Rails, tinha um pouco de receio, mas se sentiu à vontade por ter só mulheres e mudou toda a carreira."

Apesar de tudo tem menina que faz e é maravilhoso ver essas histórias de superação. Nós somos poucas, mas estamos tentando trazer mais.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela começou em um curso técnico de informática e lembra que era um ambiente atípico onde metade da turma era de meninas.

Bárbara lembra que muitas vezes também teve esse receio e chegou a pensar em desistir do curso porque se sentia um pouco perdida, mas teve o apoio do pai para não abrir mão da sua escolha e levou até o fim, correu atrás do conteúdo. Um pouco depois, sua irmã entrou no mesmo curso e foi a vez de Bárbara dar aquele apoio para ela não desistir. "Falava que seu eu tinha conseguido ela também conseguia". E é um pouco disso que coloca em prática no Rails Girls. Mostrar que tem como seguir em frente. "Um cara uma vez me falou que eu nunca vou mudar o mundo com esse meu negócio e eu falei que se eu mudar algumas pessoas e elas mudarem o mundo estou muito feliz. Pra mim é muito realizador." E ela vê mesmo uma mudança por aí. "Acho inspirador quando vou a evento para mulher, porque apesar de tudo tem menina que faz e é maravilhoso ver essas histórias de superação. Nós somos poucas, mas estamos tentando trazer mais."

Com essa ideia de "trazer mais", Bárbara participa também da organização do Women Dev Summit. "Começamos a nos juntar com outras comunidades de mulheres. A gente ataca o início, essa coisa de dar o pontapé inicial e conhecer tecnologia, mas tem problemas de mulheres que ficam em um ambiente muito hostil e não conseguem continuar e tem projetos que focam nisso. A ideia é que juntas a gente fica mais forte então vamos juntando as comunidades que já existem. A ideia do Women é juntar várias iniciativas e fazer algo maior e bem grande e que gere um impacto grande para a galera."

Um cara uma vez me falou que eu nunca vou mudar o mundo com esse meu negócio e eu falei que se eu mudar algumas pessoas e elas mudarem o mundo estou muito feliz.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil

Aliás, hoje essa questão do impacto é o que move Bárbara. Após o mestrado, ela mudou de carreira dentro desse mundo da tecnologia. Apaixonou-se por inteligência artificial e passou de desenvolvedora a cientista de dados. "Gosto de tecnologia, mas gosto muito da parte de inteligência artificial. O que eu acho mais legal é o tipo de coisa que você pode fazer. Análise de dados, gosto muito de ver o dado e ver o que pode trazer de informações. Informações baseadas em dados não é coisa que ninguém está achando, o dado vai mostrar o que está acontecendo e você pode tomar decisões assertivas com isso. Eu adoro. Às vezes eu olho o gráfico e acho a reta bonita... Me falam que estou na profissão certa mesmo [risos]."

Isso ela está. Porque além de toda essa atuação profissional e com os seus projetos, ela ainda se dedica a área acadêmica. Sua pesquisa de mestrado sobre reconhecimento de personalidade com processamento de linguagem natural está concorrendo a um prêmio de impacto na língua portuguesa. Mas agora que concluiu essa fase disse que ainda não sabe se seguirá com o doutorado. Por enquanto diz que não. "Agora quero pausar um pouco e aprender outras coisas, reconhecimento de imagem ou tentar projetos que usam inteligência artificial para fazer análise em dados abertos e aumentar a transparência desses dados. Gostaria de trabalhar um pouco com essa parte ou fazer análises que eu não tive tempo livre para fazer. Descobrir algum projeto que eu posso ajudar."

A ideia é que juntas a gente fica mais forte então vamos juntando as comunidades que já existem.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A relação com sua máquina é o seu poder.

E isso só no tempo de folga. No tempo normal ela segue sendo "só" cientista de dados. Mas vez ou outra ela circula por aí como uma super garota. E já avisou -não quer mudar o mundo. Mas pode, de repente, revelar alguma informação que descobriu a partir de uma análise de dados por aí. São os frutos dessa relação com sua máquina. É esse o seu super poder.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC