COMIDA
05/08/2018 09:42 -03 | Atualizado 05/08/2018 09:44 -03

'Fome de inverno': Por que comemos mais em dias frios (e como driblar esse desejo)

Temperaturas mais baixas acabam aumentando o apetite por comidas gordurosas.

Chocolates, queijos derretidos, doces em geral. Tudo isso parece chamar ainda mais a atenção quando o inverno chega, a temperatura despenca e tudo o que você mais quer é ficar enrolado em um cobertor comendo coisas gostosas – mas nem sempre nutritivas -, não é mesmo?

Esse aumento repentino da vontade de comer besteiras, a tal "fome de inverno", tem explicação científica e, para nossa sorte, muitos meios de ser controlada.

Lara Natacci, nutricionista da Câmara Técnica do Conselho Regional de Nutricionistas e coach do Programa Bem-Estar, da Globo, e Maria Fernanda Barca, Doutora em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Sociedade Europeia de Endocrinologia (SEE), conversaram com a reportagem do HuffPost Brasil e enumeraram motivos pelos quais esse fenômeno acontece.

Veja os principais tópicos a seguir e prepare-se para passar pelo inverno sem passar fome e, principalmente, sem causar transtornos à sua saúde.

Temperatura do corpo

"Pesquisas mostram que temperaturas corporais mais altas parecem aumentar o metabolismo. Uma revisão publicada em 2009 na Transactions of the American Clinical and Climatological Association relata que um aumento na temperatura corporal está associado a uma taxa metabólica mais alta em 10 a 13%", alertou Natacci.

"O corpo precisa produzir calor para manter a temperatura e, quando está frio, você precisará fazer uma produção maior para manter a temperatura. Os alimentos são calorigênicos, e os mais gordurosos, como chocolates ou hambúrgueres, produzem mais energia, ajudando a equilibrar a produção e a queima deles. Uma saladinha não vai te ajudar a esquentar o corpo. Daí a preferência pelas 'porcarias'", complementou Maria Fernanda Barca.

Clima

"De acordo com um estudo do Instituto Nacional de Saúde dos EUA (US Department of Health and Human Services), homens expostos a temperaturas mais baixas do ar apresentaram aumento no metabolismo. Um estudo publicado em 2014 no Plos One também descobriu que o gasto energético é maior durante a exposição ao frio, e a exposição ao frio aumenta significativamente o metabolismo em camundongos. Alguns estudos falam em 10% de aumento, mas novas pesquisas são necessárias para se determinar o valor exato do incremento do gasto energético", explicou Lara Natacci.

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Temperaturas mais baixas acabam induzindo a maioria das pessoas a comer em excesso.

Aumento da fome... E dos problemas

Os problemas causados pelo aumento do consumo de alimentos pouco nutritivos são os mais variados possíveis, conforme constatado pelas especialistas ouvidas pelo Huff.

"Com o aumento do metabolismo, e o consequente aumento da necessidade energética, é esperado um incremento na fome, o que pode ser neutralizado com opções de alimentos mais ricos em gorduras, por fornecerem maior valor energético. Algumas pessoas podem exagerar na ingestão alimentar e abusar de refeições muito gordurosas, muito comuns neste período do ano. O resultado é um aumento de peso indesejável e, em casos mais sérios, problemas de saúde como aumento do colesterol, disfunções no fígado e vesícula", alertou a nutricionista Lara Natacci.

"As pessoas no inverno esquecem de beber água e, como consomem alguns alimentos ricos em fibras, isso pode acabar gerando uma obstipação (prisão de ventre). É importante não se esquecer de tomar água ou, se preferir, um chá para evitar esse tipo de problema".

Adaptação é a chave

As especialistas prepararam um rápido guia para instruir as pessoas a manter a saúde mesmo nesse tempinho mais frio e propenso às guloseimais calóricas.

Segundo Lara Natacci, o mais importante é "adaptar as preparações que consumimos no clima frio e torna-las menos calóricas e gordurosas".

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Sopinha de cenoura também é um clássico dos dias mais frios - e bastante nutritiva, se preparada corretamente.

Atenção às dicas das especialistas

- As sopas podem ser preparadas com legumes batidos, sem adição de creme de leite ou massas; pode-se acrescentar a elas algumas fibras, como o farelo ou fibra de trigo ou o farelo de aveia. É sabido que as fibras ajudam a regular a função intestinal, a manter o colesterol em níveis normais e a provocar uma maior sensação de saciedade. (Lara Natacci)

- O chocolate quente pode ser substituído por um chá, que esquenta o organismo da mesma forma, ou então pode-se prepará-lo com leite desnatado e achocolatado com mais cacau. (Lara Natacci)

- Entre um chocolate quente e um chá quente, no entanto, prefira o chá, que não tem calorias. (Maria Fernanda Barca)

- Os queijos amarelos podem ser trocados pelos brancos ou reduzidos em gorduras. (Lara Natacci)

- A dica é, ao invés de escolher um chocolate muito "gordo", pegar um 70% cacau. Lascas de coco também podem entrar no lugar de um chocolate. Os chips de coco podem resolver o problema de saciedade. Quanto mais você mastiga, mais satisfeito se sente. Importante ter algo sempre à mão para não cair na tentação de comprar nenhuma besteira. (Maria Fernanda Barca)


Denis Balibouse / Reuters
Fondue: Delícia e hit do inverno pode ser "vilão" para muitas pessoas.

- No caso de não resistir ao foundue, pode-se dar preferência aos de queijo, preparados com leite desnatado e queijos magros, sendo uma opção usar vegetais no lugar do pão -ex: cenoura, pepino, couve-flor, brócolis, chuchu. (Lara Natacci)

- Se for comer fondue, diminua a quantidade, tenha moderação. (Maria Fernanda Barca)

- Quando for impossível resistir à feijoada, podemos consumi-la com moderação: arroz, feijão, couve sem bacon, e carnes mais magras. (Lara Natacci)

- As gorduras e proteínas dão mais saciedade. Procure ficar nas gorduras boas. Não na da picanha, mas, de repente, na do azeite. Uma carne vermelha, magra, é boa também. Você mastiga e ajuda a saciedade. (Maria Fernanda Barca)