05/08/2018 07:26 -03 | Atualizado 19/09/2018 12:52 -03

Carol Reis: A baiana que mostra o lado 'punk' do veganismo

Fundadora do Rango Vegan, ela já soma mais de 20 anos sem carne e permanece firme e forte como uma das primeiras empreendedoras do gênero.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
Carol Reis é a 150ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

O veganismo é uma forma de viver que busca excluir — na medida do possível e do praticável — todas as formas de exploração e de crueldade com animais, seja na alimentação, vestuário ou qualquer outra finalidade. Dos veganos junk food aos veganos crudívoros (e todos mais entre eles), há uma versão do veganismo para todos os gostos. No entanto, uma coisa que todos nós temos em comum é uma dieta baseada em vegetais, livre de todos os alimentos de origem animal, como: carne, laticínios, ovos e mel, bem como produtos como o couro e qualquer produto testado em animais.

Essa é a definição da organização inglesa The Vegan Society, a mais antiga entidade vegana do mundo. A filosofia de uma vida em harmonia com os animais chegou à baiana Carol Reis, no auge de seus 14 anos, quando criou laços de amizade com alguns punks que viviam em seu condomínio, no bairro de Pernambués. Sim, punks.

É preciso conhecer toda a trajetória de Carol, em sua imersão no veganismo, para entender como ela se tornou uma das fundadoras do restaurante Rango Vegan.

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As pessoas ligadas ao Straight-Edge não acreditam na autodestruição, na violência gratuita ou nas práticas que causam danos à saúde.

O visual rebelde pode contrastar com o estereótipo de que os veganos são bichos-grilo, mas quando se traz à tona a ideologia anticapitalista, a associação entre a dieta e o movimento faz todo o sentido. Principalmente quando se pensa na vertente Straight-Edge, que surgiu nos Estados Unidos em meados dos anos 1980. "O Straight-Edge me ensinou a buscar ser ética, lutar pelos meus sonhos, a construir uma identidade de jovem positiva. Me deparei com um espaço político, de amizade e construções", explica.

Essa vertente pode ser definida como uma contracultura, modo de vida, ou como uma forma de resistência, abstendo-se de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas. As pessoas ligadas a esse ideal não acreditam na autodestruição, na violência gratuita ou nas práticas que causam danos à saúde. Os punks que seguem essa linha buscam unir atitudes não-conformistas, alimentação vegana e saudável, à defesa do direito dos animais e o respeito à diversidade.

O Straight-Edge me ensinou a buscar ser ética, lutar pelos meus sonhos, a construir uma identidade de jovem positiva. Me deparei com um espaço político, de amizade e construções.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
A família de Carol Reis não topou mudar o cardápio da casa, então ela passou a fazer todas as suas refeições-experimentações.

Minha avó falava que parecia que eu estava de dieta, eu tive que explicar para ela: vó, não é uma dieta, é uma filosofia, um estilo de vida.

Morando com a avó, a tia e a irmã, não conseguiu convencer a família de uma mudança geral no cardápio. "Minha avó falava que parecia que eu estava de dieta, eu tive que explicar para ela: 'vó, não é uma dieta, é uma filosofia, um estilo de vida'". Passou, então, a fazer todas as suas refeições-experimentações, para ela, amigos e quem mais se dispusesse a experimentar.

Saiu de casa aos 23, quando arrumou emprego em uma loja que vendia discos e CDs de rock. Emendou, depois, um bico como recepcionista numa faculdade de Salvador. Não demorou muito e foi parar numa empresa de telemarketing, na qual teve o seu primeiro empurrãozinho em direção à cozinha: a demissão. "No telemarketing, eu ficava tentando achar soluções para as pessoas, não era tão mecânica. Me demitiram. Com a grana da demissão eu fui para São Paulo."

Na capital paulista, por indicação de uma amiga, foi contratada para pôr em prática tudo que já fazia em casa, para si, no Vegethus, o primeiro restaurante 100% vegano de que se tem conhecimento no Brasil. "Eu vi o veganismo numa perspectiva profissional. Era muito malvisto, você era bicho do mato se fosse vegana. Mas eu resolvi peitar legal mesmo: vou construir o nosso estilo de vida", conta.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
Rango Vegan: Carol comemora 12 anos do negócio baseado em trabalho em cooperação, autogestão e ecofeminismo.

Você era vista como bicho do mato se fosse vegana. Mas eu resolvi peitar isso: vou construir o nosso estilo de vida.

Voltou para casa com outra cabeça. Em parceria com a amiga Luciana Rangel, comprou um carrinho daqueles de vender comida na rua e montou o "Rango Vegan", um ponto de comida vegana na Biblioteca Central dos Barris, onde há sessões de cinema, encontros políticos e palestras diversas.

"Muitos grupos se encontravam lá, políticos, poetas, músicos, gente que tinha uma alimentação vegetariana. Depois fomos para o campus de São Lázaro, da UFBA... Até que a gente colocou na cabeça que precisava de um espaço físico. Fomos as primeiras mulheres [do setor na cidade] a ter essa visão empreendedora da coisa", explicou.

Depois de muitas festas realizadas em torno do carrinho mesmo, com música e muita gente reunida, fizeram uma parceria com um espaço cultural do Pelourinho, onde aconteciam shows de rap, rock e reggae. A noite da pizza que acontecia todos os sábados começou a lotar e, como o dono do espaço não queria que o lugar se tornasse comercial, tiveram de arranjar um lugar para chamar de seu.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
A empreendedora Carol Reis está prestes a se formar em Nutrição.

Foi a alguns metros à frente, na rua do Paço, 62, dentro de um casarão com vista para o mar, pertinho do Convento do Carmo e da escadaria da Igreja do Paço — aquela famosa por ter sido cenário do filme O Pagador de Promessas (1962) —, onde funcionava a Organização Permacultura e Arte, que a dupla encontrou o lar do projeto.

"A gente começou numa fase que tinha que desmistificar muita coisa: o mito da proteína, que o veganismo era coisa de burguês e que a nossa gestão era feita e mantida por mulheres." Por meio de um trabalho em cooperação, tendo uma prática cotidiana baseada em novas relações de trabalho, autogestão e ecofeminismo, a dupla comemora em 2018 12 anos do negócio.

A mídia espontânea, no Facebook e Instagram, atrelada a matérias veiculadas em jornais, sites e televisão local, fizeram que o lugar ficasse conhecido. Ao mesmo tempo, a tendência fit estourava, junto com uma maior discussão sobre a maneira com que nos relacionamos com o alimento, com a carne enquanto cultura, e uma preocupação com a origem daquilo que vai à mesa. A fórmula resultou em casa cheia.

O grande diferencial é a filosofia de vida atrelada o sabor: você peitar uma ideia e ser ousado, apaixonado por ela, mesmo com todas as dificuldades.

Além da vista para a Baía-de-Todos-os-Santos, o lugar oferece almoço executivo — cujo cardápio muda de mês em mês, lanches, sobremesas, entrega a domicílio, oficinas de culinária e até consultoria para aqueles que querem mudar definitivamente a alimentação para uma dieta vegana.

"Essa coisa de você surpreender o público diante do produto que você está apresentando, a um nível popular, é muito interessante. As pessoas conseguem reconhecer várias culinárias internacionais aqui, a gente consegue relacionar o melhor de tudo sem a carne. Nos reinventamos para cobrir essa ausência. O grande diferencial é a filosofia de vida atrelada o sabor: você peitar uma ideia e ser ousado, apaixonado por ela, mesmo com todas as dificuldades. A gente trabalha com aquilo que acredita", argumenta Carol.

Juh Almeida/Especial para HuffPost Brasil
Bicho grilo? Nada disso! A vegana Carol Reis é punk mesmo. Revolucionária.

Hoje, aos 34 anos — e celebrando 20 anos sem carne —, Carol está prestes a se formar em nutrição e tenta, também no viés de uma universidade "isolada" do real, aplicar toda a praticidade e a funcionalidade que a ajudaram a tirar os seus ideais do papel.

"Com toda essa caminhada, consegui criar fissuras numa estrutura muito sólida. Temos que ser os nossos próprios revolucionários; não pode ficar só no discurso. Temos que reagir e entender que as estruturas podem ser, sim, mudadas."

Não tem nada mais punk que isso.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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