03/08/2018 02:00 -03 | Atualizado 03/08/2018 02:00 -03

Patrícia Bagniewski, a artista plástica que transformou a paixão pelo vidro em arte

A artista plástica — que está mais para 'vidreira' — estuda, trabalha e persiste com a técnica há mais de 20 anos. “Trabalhar com vidro não tem nada a ver com força, só se for força de vontade."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Patrícia Bagniewski é a 155ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

O sopro da boca, sensível e volúvel, junto com o calor, consegue modificar um material tão duro, e ao mesmo tempo tão frágil, quanto o vidro. Observar essa dança da transformação fez com que a artista plástica, Patrícia Bagniewski, 41 anos, se apaixonasse pela técnica antes mesmo de pensar em fazer arte com ela e criar o primeiro ateliê de vidro em Brasília. São mais de duas décadas de estudo e dedicação para o material tão pouco percebido e apreciado. Por ele, ela se qualificou em outros países — estudou inclusive numa escola só de mulheres no Japão — dentro de teorias e no pé das fábricas, até ela conseguir desenvolver seu próprio trabalho, que assim como o vidro, é totalmente mutável -- e se transforma.

Quando tinha 16 anos, ela morava na Suécia e enquanto fazia um passeio pelo Parque Skansen, em Estocolmo, viu uma demonstração da técnica de moldagem do sopro em uma exposição especial sobre como o processo de fabricação de vidros era feita e se apaixonou. "Eu também tenho essa imagem de um chão feito todo com caco de vidros que ficou muito forte na minha memória. Quando voltei pro Brasil, fiz o curso de artes plásticas, e fiquei com o vidro na cabeça, mas não tinha escola e nem estudos mais aprofundados de técnica. Depois de um ano, peguei minhas economias, tranquei a universidade e fui pra Londres tentar aprender alguma coisa", conta. Lá fez cursos rápidos e participou de workshops enquanto trabalhava de garçonete e, dois anos depois, voltou para o Brasil.

O vidro sempre foi um mistério pra mim e eu sempre quis trabalhar com essa alquimia.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Foi entre Brasil, Londres e Japão que Patrícia conseguiu aprimorar suas técnicas.

Ela concluiu a universidade, mas a vontade de trabalhar com vidro persistia. Abriu um ateliê com uma amiga e comprou um forno para reciclar vidros e fazer uma primeira tentativa. Mas, no meio disso, trabalhava em outros projetos. Um deles, o Coletivo Transverso, que faz intervenções poéticas no espaço público. Poesias como: "em casa de dor, dance", "alimente os passos imaginários" ou "sou sua pessoa amada por três dias" ocupam vários espaços da capital e já são conhecidas pelos brasilienses.

Entre um intervalo e outro, Patrícia continuou experimentando a técnica com outras fontes do material. "Aprendi muito na prática sobre temperatura com essas experimentações. Ainda trabalhei com moda nesse tempo, mas continuei na resiliência e na persistência", relembra.

O vidro é apaixonante. Ele tem a questão da transparência, mas também de uma barreira.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Para ela, mexer com vidro é "apaixonante".

Ela começou a pesquisar ainda mais. Queria aprender a técnica do sopro e viu que apenas algumas fábricas em São Paulo usavam, mas não ensinavam a fazê-la. E foi aí a grande virada: ela se inscreveu para uma bolsa de estudos no Japão, sem falar uma palavra em japonês. Mas não foi só isso, a universidade na cidade de Sagamihara também era só para mulheres.

"Pra fazer a prova, escrevia vinte vezes por dia a mesma redação e aprendi a língua na marra, até que passei. Fiquei lá três anos, no primeiro ano como aluna especial. Tive um grande apoio da minha professora, mas era muito como 'Karatê Kid', ela nunca elogiava", brinca. "Mas aprendi todas as técnicas. E o meu projeto era eu mesma construir um forno que eu pudesse reproduzir aqui e eu pudesse usar nele material de reciclagem", aponta.

Queria muito voltar para o Brasil e abrir uma escola, educar sobre a arte do vidro, mas é um desafio.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Patrícia posa à frente de seu ateliê, em Brasília, "Casa de Vidro".

A segunda experiência foi em Veneza na Itália, considerada o berço da fabricação de vidro. Ela fez uma residência artística e encontrou certa resistência para mexer na produção, além de encontrar um ambiente muito masculinizado pela tradição. "Foi bem difícil, na fábrica só trabalhavam homens, tem muito essa coisa de ser uma técnica passada de pai pra filho, e eu era a única mulher que estava na parte prática. Quando eu cheguei eles disseram que eu ia ser apenas assistente, mas insisti, fiz um acabamento e eles gostaram. A primeira peça que me deram era de uma artista que custava 50 mil euros, era muita responsabilidade. E também acabei fazendo uma coleção minha lá", conta Patrícia. As peças produzidas, no entanto, continuam lá porque pra trazer pro Brasil ela precisa pagar impostos altos e transporte especial.

Trabalhar com vidro não tem nada a ver com força, só se for força de vontade.

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Hoje, em Brasília, Patrícia montou um ateliê no fundo da casa da mãe.

Hoje, em Brasília, Patrícia montou um ateliê no fundo da casa da mãe, cheio de peças de vários trabalhos e exposições que ela já fez. No teto, no canto esquerdo da parede, um cabide com garrafas derretidas fazem parte de um projeto chamado hangover, (brincando com o hang de cabide em inglês), onde ela derreteu todas as garrafas que bebeu durante um ano, enquanto estava no Japão.

Além de peças utilitárias que ela tem criado para a venda, em cafés e feiras, e exposição. Porém, grande parte de seus objetos não são feitos ali. "Eu ainda não tenho estrutura para soprar vidro, então faço em uma fábrica em São Paulo que lá eu tenho assistência".

Tudo é experimentação no vidro e muitas vezes dá errado.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Ela foi para o Japão -- sem falar uma palavra em japonês --estudar artes plásticas e aprender a chamada "técnica do sopro".

A técnica do sopro é muito delicada e exige cuidado. O vidro é derretido dentro de um balde com temperatura de 1300 graus durante 12 horas e só depois é possível manipular a calda transparente. A vidreira ou vidreiro coleta o material com um cano e vai fazendo movimentos circulares até formar uma bola, criar camadas e depois assopra na outra extremidade do cano para moldar.

"É um trabalho que se aprende na prática porque precisa saber o exato momento de se manipular e às vezes só de olhar você já consegue descobrir isso. Se você for numa fábrica ninguém conversa um com o outro, mas está todo mundo ritmado, prestando atenção neste movimento", conta.

Foi bem difícil, na fábrica só trabalhavam homens.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
A segunda experiência foi em Veneza na Itália, considerada o berço da fabricação de vidro.

A palavra "poesia" que estampa a porta vermelha do seu ateliê é o retrato de como Patrícia lida com o seu trabalho. Ela sonha em abrir uma escola ou ateliê onde possa passar adiante tudo que aprendeu nos últimos anos e algo que possa ser aliado com um projeto de reciclagem que tratasse de uma questão social e de sustentabilidade.

Mesmo estando nessa há 20 anos, ainda sou crua.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
A palavra "poesia" que estampa a porta vermelha do seu ateliê é o retrato de como Patrícia lida com o seu trabalho.

E para trazer a técnica de sopro pra perto, precisaria de estrutura e de assistentes que conheçam o processo, que também é outra dificuldade. E, enquanto, não consegue realizar, ela não para. Continua a produzir e pensar em novas formas de fazer sua arte.

"Mesmo estando nessa há 20 anos, ainda sou crua. Mexer com vidro é uma prática que precisa ser feita todos os dias. E vou fazendo um dia de cada vez, nunca faço uma coisa só, o negócio é ir fazendo. Isso tudo inspira o artista e um projeto alimenta o outro".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.