ENTRETENIMENTO
03/08/2018 18:03 -03 | Atualizado 03/08/2018 18:07 -03

'Missão Impossível: Efeito Fallout' prova que Tom Cruise viverá mais que todos nós

Neste mundo maluco, a única constante é Tom Cruise, o golden retriever hercúleo do cinema que jamais vai parar de brincar.

Divulgação/Paramount
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Tom Cruise passou 16 horas por dia estudando para tirar brevê de helicóptero para poder pilotar um – sozinho – nas filmagens do sexto filme da série Missão Impossível, segundo o diretor e produtor Christopher McQuarrie.

Não porque ele seja "destemido" ou "louco para aparecer", disse McQuarrie antes de uma exibição de Missão Impossível: Efeito Fallout. Ele o fez por causa dos fãs. "Porque ele quer que você se divirta", disse McQuarrie para a plateia, formada quase inteiramente por jornalistas.

Outra coisa que ele fez por causa dos fãs, disse McQuarrie, foi pular de um avião a 7 500 metros de altura. No fim da tarde, quando sobravam só três minutos para filmar a cena.

Tom Cruise teria feito isso apesar de uma fratura no tornozelo, que ele sofreu numa cena "relativamente simples" em que pulava do teto de um prédio para outro. Aparentemente ele também estava com o tornozelo quebrado quando gravou uma cena em que corre pelas ruas de Paris. Toda vez que vemos Tom Cruise correndo no filme, então, temos de pensar "Ai!", admirados. (Nós os fãs de Tom Cruise por quem ele quebra os ossos, se joga de aviões e enche a cabeça de conhecimento aeronáutico.)

Foi a essa altura da fala de McQuarrie que me dei conta, eu, uma pessoa que prometeu assistir a todos os filmes de Tom Cruise, escolhi acompanhar a carreira da estrela de cinema que não vai morrer nunca.

Até hoje, a filmografia de Thomas Cruise Mapother IV conta com 46 créditos de atuação. Alguns se referem a filmes em que ele foi a estrela maior (Entrevista com o Vampiro, de 1994, ou A Lenda, de 1985). Outros são Filmes Tom Cruise. E tem diferença.

Nos Filmes Tom Cruise, ele faz papeis com os quais já estamos acostumados. Ele é o homem-garoto arrogante, mas de coração de ouro, que não consegue seguir regras. Ele curte o perigo, não recusa nenhuma convocação e sempre salva o mundo no último instante (nunca antes disso). Esse personagem típico de Cruise consegue não mostrar apreço pela sociedade, mas ama as pessoas queridas como um filhotinho de cachorro e tem uma devoção implacável pela forma física. Muitas vezes ele aparece em vários filmes da série. O personagem não evolui psicologicamente, mas sim aparenta um estranho senso de imortalidade – como o próprio ator.

É claro que a série Missão Impossível é a franquia dos Filmes Tom Cruise por excelência. E Ethan Hunt, o homem invencível definitivo. Eu sei porque assisti todos os 44 filmes com ele.

Dez anos atrás, fiz um pacto com minha melhor amiga: a gente assistiria a todos os filmes com Tom Cruise, juntas. Tudo começou num albergue em Sacramento, quando achamos uma fita VHS de Jerry Maguire – nenhuma de nós tinha assistido aquele filme. Encantadas com o carisma, fomos nos envolvendo com a obra dele e passamos a acompanhar sua carreira em tempo real. Assistimos ele se tornar menos ator e mais pilar de franquias. Filmes sem graça, como o desnecessário Jack Reacher: Sem Retorno e o péssimo remake de A Múmia pareciam circos itinerantes com uma única atração.

Mas Cruise continuou provando seu poder de gerar grandes bilheterias; seu charme juvenil nunca perdeu o encanto, mesmo com a chegada da meia-idade. O mesmo vale para minha promessa de assistir a todos os filmes de Cruise – mesmo que a distância entre mim e minha amiga complique um pouco as coisas: hoje ela mora na Califórnia, e eu, em Nova York.

Mas rompi o pacto de sangue na exibição para a imprensa de Missão Impossível. Vi o filme sozinha. Nosso acordo ficou em segundo plano diante do meu comprometimento com Tom Cruise. Concordamos em assistir ao filme separadas e depois conversar pelo telefone. (A condição era que ela fosse mencionada pelo nome neste artigo. Oi, Hallie!) Sentada no cinema IMAX, esperando o começo de Efeito Fallout, pensei no slogan do filme – "certas missões não são escolhidas". Fez muito sentido para mim.

Mas, graças ao alien da Cientologia que concedeu a Tom Cruise a juventude eterna, valeu muito a pena. Estou aqui para te contar que MI6 é o melhor Filme Tom Cruise que eu já vi.

Muitos cinéfilos que não são eu reviraram os olhos ao ouvir falar de mais um Missão Impossível. Para os verdadeiros fãs de Tom Cruise, entretanto, Missão Impossível – Efeito Fallout é pura alegria: uma trama complicada e quase inescrutável cheia de viradas, identidades confusas, escaladas de montanhas, rolês perigosos de moto, socos na cara e muito Tom Cruise sendo Tom Cruise.

Resumindo, Ethan Hunt está de volta. Dessa vez, sua missão é rastrear Os Apóstolos, uma gangue apocalíptica de psicopatas anarquistas convencidos de que "nunca houve paz sem antes um grande sofrimento". Seu plano é detonar três bombas nucleares, destruir a ordem mundial e recomeçar tudo do zero. (Sinceramente, não é a pior das ideias em 2018.) A missão de Hunt, caso ele decida aceitá-la: achar as bombas e capturar os terroristas antes que seja tarde demais.

Hunt, junto com seus colegas de confiança Benji (Simon Pegg) e Luther (Ving Rhames), arregaçam as mangas - e trazem suas armas favoritas (máscaras!). Seria de imaginar que o público possa estar cansado dessa e das outras táticas imutáveis do filme, ou então que quisesse algo mais exuberante, como os visuais de Arranha-Céu: Coragem Sem Limite. Mas, enquanto o mais recente filme de The Rock oferece efeitos especiais que fazem sangrar os olhos, Cruise dá aos espectadores algo ainda mais precioso: ele mesmo.

Ethan Hunt, como o filme não se cansa de mostrar, não tem nenhuma esperança de levar uma vida normal. Em vez disso ele se enfia numa infinidade de missões impossíveis. Como seu personagem, Cruise sacrifica sua integridade física, sua vida pessoal e sua saúde mental pela causa - neste caso, nosso entretenimento – sempre que for necessário. Mas essa batalha de Sísifo não parece desgastá-lo. Na verdade, ela só alimenta a chama que queima dentro de seu corpo compacto e tenso, um fogo que o compele agir sempre com a máxima intensidade.

Aos 56 anos, Tom Cruise parece estar mais firme, mais rápido, mais fanático.

A devoção de Cruise em executar com autenticidade esses feitos físicos malucos confunde a separação entre seus personagens e sua mítica persona de Hollywood. O trabalho de Ethan Hunt como agente secreto exige que ele seja um ator talentoso; o trabalho de Tom Cruise interpretando Ethan Hunt exige que ele seja um alpinista, um piloto de helicóptero, um louco. Onde está a separação entre essas duas pessoas? Quem está usando a máscara?!

Ao final de Fallout, fica claro que toda a franquia Missão Impossível é apenas um trepa-trepa feito para Tom Cruise brincar. De fato, quando Hunt se vê no topo de Londres, você pode argumentar que o mundo moderno existe simplesmente para que Cruise o domine. A questão é se isso faz dele um deus entre os homens ou um animal de zoológico preso para o nosso entretenimento eterno.

Em um dos momentos mais meta do filme, o chefão do crime Solomon Lane (Sean Harris) tenta mexer com a cabeça de Hunt. "Sua missão, caso decida aceitá-la..." diz Lane, imitando o bordão do IMF: "Você já decidiu não aceitar?" Hunt estremece com a ideia, sinal claro de que Lane desencadeou algo profundo dentro dele. Será que essas missões são meras distrações da falta de sentido da vida? A dor de enfrentar nossos eus imperfeitos e mortais? Espera um pouco. Estamos falando de Ethan ou Tom? É sublime.

Hunt descarta a provocação como os murmúrios de um louco. Logo depois ele voltou a fazer suas maluquices, a pular de um prédio para o outro. Durante um salto, ele quase cai e batendo na janela de um cubículo de escritório. Hunt consegue entrar no escritório um para a fim de se recompor. Os funcionários se afastam das escrivaninhas de queixo caído, tentando entender aquela pessoa que apareceu do nada, aparentemente incapazes de processar a ideia.

A cena mostra o que nós normais parecemos em comparação com Tom Cruise - pastosos, barrigudos, parados e completamente incrédulos. Tentando entender se esse tipo AAA faz parte da espécie. Antes que qualquer um dos funcionários desconcertados consiga dizer alguma coisa, Cruise já se foi embora -- pela janela. Cruise finalmente alcança o homem que está perseguindo, o assassino-chefe dos Apóstolos, John Lark. "Por que você não morre?", rosna Lark.

Neste momento, senti pena de Lark. Imaginei meu eu futuro: de meia-idade, cronicamente exausta, correndo para casa do trabalho para assistir ao mais recente episódio de Missão Impossível, estrelado por um Cruise octogenário voando por aí numa camiseta de gola alta preta e justinha.

Tom Cruise tem o dobro da minha idade, mas não estou apostando que vou viver mais que ele.

Assisti-lo correndo graciosamente por ruas frenéticas – e com um tornozelo quebrado, não se esqueça – me fez lembrar do meu braço tentando alcançar o despertador naquela manhã. Como subi lentamente as escadas do metrô, meio corcunda, mas me parabenizando por não pegar a escada rolante. Comparei essas conquistas patéticas com Cruise pendurado de mais uma aeronave. Esse cara não é humano. Ele vai viver mais que todos nós.

Como muitos dos filmes recentes de Cruise, Missão Impossível - Efeito Fallout é uma desculpa para assistir ao coelhinho do comercial de pilhas mais atraente de Hollywood fazendo o que ele faz melhor. Felizmente, não há uma única cena no filme em que o cara não seja o centro das atenções. Até mesmo um romance distrairia muito a sua glória e atrapalharia a ligação emocional do público com o maior sacrifício humano da indústria.

Enquanto passavam os créditos, aceitei mentalmente um futuro em que os filmes de Tom Cruise nunca acabavam. Nesse mundo maluco, a única constante é Cruise, o golden retriever hercúleo do cinema, sempre pronto para brincar. Se todos os próximos filmes dele forem tão empolgantes quanto Missão Impossível – Efeito Fallout, nem vou ficar brava.