MULHERES
03/08/2018 17:27 -03 | Atualizado 03/08/2018 17:27 -03

Débora Diniz: 'A criminalização do aborto matou Ingriane e deixou seus filhos órfãos'

Antrópologa relembrou morte de trabalhadora doméstica durante audiência pública sobre descriminalização do aborto no Supremo.

Ingriane Barbosa morreu após aborto inseguro em Petrópolis, no Rio de Janeiro.
Montagem/Divulgação/Polícia Civil/Heloisa Adegas
Ingriane Barbosa morreu após aborto inseguro em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

A antropóloga Débora Diniz, co-fundadora do Anis - Instituto de Bioética, rebateu as críticas e as suspeitas levantadas pelos expositores contrários à legalização sobre a Pesquisa Nacional do Aborto, um dos principais estudos que revela a magnitude da prática de interrupção insegura da gravidez no País. Ela apresentou seus argumentos nesta sexta-feira (3) na audiência pública sobre descriminalização do aborto no STF (Supremo Tribunal Federal).

A ação, proposta em março de 2017 pelo PSol em conjunto com o Anis, pede a descriminalização da interrupção voluntária da gestação até a 12ª semana

A estudiosa explicou que a pesquisa foi feita em 2010 e 2016, cobriu as áreas urbanas do País e entrevistou mulheres de 18 a 39 anos. Esse recorte indica que pode haver subnotificação, uma vez que a parcela das mulheres do ambiente rural, as mais jovens e as mais velhas não foram incluídas no levantamento. A antropóloga explicou ainda que as entrevistas foram conduzidas por mulheres e que foi utilizada a técnica de urna, em que a entrevistada responde às questões anonimamente em uma ficha que é depositada em uma urna.

Segundo o levantamento, uma em cada 5 mulheres de até 40 anos já fez um aborto ao longo da vida no Brasil. "Ela é uma mulher que hoje tem filhos, sabe o significado e a seriedade da maternidade. É alguém que aborta porque vive o cuidado maternal e se vê diante de um imperativo de não ser capaz, por diversas razões, de levar adiante uma gestação", afirmou.

Débora Diniz lembrou a história de Ingriane Barbosa, mulher negra, trabalhadora doméstica, mãe de 3 filhos, que morreu no mês passado, aos 30 anos, após fazer um aborto de forma insegura em casa, em Petrópolis, na região serrana do Rio.

"Ela morreu com um talo de mamona no útero. É mãe de 3 filhos e o que se sabe é que já tinha feito um aborto. Se assim foi, se essa história é verdadeira, nós perdemos, como Estado, uma oportunidade de prevenir o segundo aborto e certamente de ter Ingriane viva. É na rota crítica de uma mulher que faz aborto que podemos e devemos apresentar medidas de prevenção", afirmou a antropóloga. "A criminalização do aborto matou Ingriane e deixou seus filhos órfãos."

Diniz reforçou ainda que a abstração dos números esconde que, apesar de o aborto ser um evento comum na vida das mulheres brasileiras, o risco é distribuído de forma desigual, pesando muito mais sobre mulheres mais jovens, mais pobres, das regiões Norte e Nordeste, negras e indígenas.

Quem são as mulheres que abortam? Essa multidão pode ser descrita por números: uma por minuto, 1 a cada 5 mulheres aos 40 anos. 56% delas são católicas e 26%, evangélicas. É a mulher comum brasileira.Débora Diniz, antrópologa

Reprodução/YouTube
Débora Diniz participa de audiência pública no STF sobre descriminalização do aborto.

"Novamente aí está Ingriane e faço questão de pedir que se lembrem dela. Para aqueles que nunca viram o racismo como parte da criminalização do aborto, ou nunca viram o racismo como uma das causas de morte materna, que guardem a foto de Ingriane, recolham um talo de mamona e façam um porta-retrato na sua casa, porque a partir daí, nunca mais vão esquecer."

Ao encerrar sua fala, Débora foi aplaudida de pé pelas mulheres que acompanhavam a audiência pública no Supremo.

As apresentações seguem durante a tarde e na próxima segunda-feira. O debate é transmitido ao vivo pela TV Justiça, inclusive pelo canal no Youtube.