07/08/2018 00:00 -03 | Atualizado 07/08/2018 00:00 -03

Cris Marques: A blogueira nômade que vive do sonho de viajar e unir as mulheres

A turismóloga criou um canal de comunicação para as mulheres viajantes: “Independente se for de mala ou de mochila, viajar sozinha tem o mesmo peso pra todas porque somos mulheres".

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Cris Marques é a 149ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Colocar uma mochila nas costas e viajar por aí pode ser o sonho de muitos jovens. Para Cristiane Marques, 33 anos, no entanto, essa é uma realidade. Ela é uma nômade digital e real: não tem residência fixa, trabalha e escreve num blog de qualquer lugar do mundo e organiza viagens especialmente para mulheres que queriam se descobrir e ir em busca do feminino. É indo de um lugar para o outro que a turismóloga tentar encontrar seu propósito e lugar no mundo, e faz suas escolhas sem medo de abrir o caminho.

Cris começou a escrever um blog de viagem, como ela mesma gosta de dizer, "com todas as pretensões do mundo", para ser um apêndice de sua monografia no fim do curso de turismo. Ela colocou a mochila nas costas e viajou pela Bolívia, Peru e Chile, e o relato virtual era a forma de sua orientadora acompanhar o processo. O espaço foi crescendo e lá ela contava como foi viajar sozinha, como foi ganhar estadia em troca de trabalho voluntário e de como aproveitar melhor a experiência em cada lugar que passava. Há quatro anos ela vive sem endereço fixo, e, para isso, desapegou de tudo que tinha, e entre uma viagem e outra, fica em Brasília na casa de amigos. E trabalha, sem precisar de escritório.

Independente se for de mala ou de mochila, viajar sozinha tem o mesmo peso pra todas porque somos mulheres.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"O perrengue é nascer mulher, é uma resistência, é uma luta."

Para ela, a experiência de viajar vai muito além do ir e vir. Quando contava suas histórias, começou a perceber que seu público não era apenas de mochileiros, mas de mulheres. "Foi vindo muito forte a questão do empoderamento feminino. Comecei a perceber que tinha que me posicionar mais, que não é sobre viajar sozinha, mas ser mulher viajante. Viajar é um ato político também. Com o blog eu tenho uma ponte de comunicação e busco colocar que nós podemos ser protagonistas das nossas e de outras histórias. Sinto que tudo que eu fiz nesses últimos dez anos nessa forma de me comunicar me trouxe para onde eu estou hoje", conta Cris.

No ano passado, durante uma visita à Chapada dos Veadeiros, enquanto ela meditava no Rio Prata, teve uma visão de fazer uma viagem para que as mulheres se conectassem com o sagrado feminino, algo que ela já estudava há algum tempo como membro do círculo de mulheres A Teia de Thea, na capital federal. "Fiz um vídeo no instagram, morrendo de vergonha e com medo do retorno, chamando as mulheres e perguntando: 'quem topa?" e em três dias recebi emails de mais de 50 pessoas interessadas", conta Cris. A viagem que ela organiza e conduz dura quatro dias e envolve vivências e passeios. Neste ano, ela já tem outras duas excursões com o mesmo propósito marcadas para o deserto do Atacama no Chile. "É uma imersão de auto-conhecimento, um processo de cura. De entender como somos influenciados pelas luas, de olhar para a natureza, e entender que todos os seres são sagrados, de olhar para a sua menstruação e não ter nojo. De se ver mulher", aponta.

É lindo de vivenciar e ver mulheres que nunca viajaram sozinhas começarem a perceber que elas são capazes.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Para ela, a experiência de viajar vai muito além do ir e vir.

Segundo Cris existe um estigma muito grande em torno das mulheres que decidem viajar sozinhas, porém não há nada de especial nisso, e os problemas são os mesmos enfrentados por elas diariamente, em todas as cidades e lugares. "O perrengue é nascer mulher, é uma resistência, é uma luta. Você pode ser assediada na viagem ou na padaria da esquina. Acho até que se você viajar sozinha, se protege mais, porque está num lugar favorável, já pesquisou e viu todas as situações de segurança, você se arrisca menos. A gente precisa é falar do fato de que oito mulheres são agredidas por minuto no Brasil e a maioria dessas agressões são domésticas. Viajar não é dificuldade, vamos falar é das mulheres que criam seus filhos sozinhas e que não têm assistência", aponta a blogueira.

Se informação é uma arma importante na hora de viajar, é preciso tomar cuidado com certas posturas, bandeiras e dicas passadas para mulheres na hora de viajar. "Se por um lado tem muita mina fazendo trabalhos maravilhosos sobre mulheres viajando, por outro acho complicado falar pra uma mulher: 'coloca uma aliança no dedo e fala que seu marido está na próxima estação, se for abordada por alguém'. Porque você conta uma mentira e deixa de ser quem você é por uma sociedade opressora e machista", diz. "A gente tem que desconstruir isso, trazer verdades. Vou sozinha sim e, sou a minha melhor companhia."

Viajar sozinha não é mérito, eu deveria ser tratada como qualquer outra viajante, ninguém pergunta para um homem por que ele tá viajando sozinho.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Cris começou a escrever um blog de viagem "com todas as pretensões do mundo", para ser um apêndice de sua monografia no fim do curso de turismo.

Cris também tenta quebrar os padrões sobre guias e dicas de viagens tradicionais. "Qual a melhor época pra viajar? Quando você puder! Você tem que viajar com aquela mochila especial cheia de funcionalidades? Não. Eu gosto de uma frase que diz: os medos podam os sonhos todos os dias, então não podemos encontrar barreiras. Não tem essa de não pode isso, não pode essa ou outra roupa, não pode porque você é mulher, faz o que você quiser!", conclui.

Se você quiser viajar com sacola de plástico, viaja, mas não deixe de fazer.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil

Apesar de ter alcançado outros lugares com o blog e como nômade, Cris pensa em estabilidade a longo prazo. "Muitas gente acha que quando a gente vira nômade digital ganha muito, mas existe todo um universo por trás, eu trabalho muito e, para cada escolha, uma renúncia. Eu não penso em viver do blog a longo prazo, é uma ferramenta maravilhosa, uma ponte, um alcance. Mas, pretendo sim ter uma terra e plantar, ter um lugar para receber pessoas e continuar trabalhando com mulheres", conta.

No ano que vem ela pretende passar um ano viajando sozinha na Ásia, em especial para a Índia. "Eu só resolvi que vou; como, eu ainda não sei", ela brinca. "Eu acredito muito em como nossas intenções podem ser materializadas. Jogo pro universo e aí vai que aparece uma promoção e tudo flui, as coisas acontecem como tem que acontecer."

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.