ENTRETENIMENTO
01/08/2018 18:43 -03 | Atualizado 01/08/2018 19:03 -03

'This Is Us': Como Mandy Moore virou a matriarca do horário nobre nos EUA

A ex-pop star adolescente quase voltou a estudar antes de conseguir o papel de Rebecca Pearson em 'This Is Us'.

Edward Berthelot via Getty Images

Serei pra sempre tua. Te amo, Mandy.

Se você era adolescente nos anos 1990, deve saber de onde vem essa letra: Candy, o single de estreia de Mandy Moore, lançado em agosto de 1999.

Lembrou? Mandy Moore, hoje uma das estrelas da série This Is Us, era uma princesa do pop. Ela começou a carreira em Hollywood aos 15 anos, fazendo uma turnê com as boy bands *NSYNC e Backstreet Boys antes de "concorrer" com Christina Aguilera e Britney Spears. Mas depois de alguns anos sem muito sucesso na música, Moore decidiu ser atriz. Sua primeira aparição em filmes foi em O Diário da Princesa, de 2001, no qual ela fazia a arqui-inimiga de Anne Hathaway. Depois, ela destruiu corações como a adolescente Jamie Sullivan em Um Amor para Recordar (2002) e começou uma série de comédias dramáticas e comédias românticas: Meu Novo Amor (2003), Curtindo a Liberdade e Galera do Mal (2004), Minha Mãe Quer que Eu Case (2007), a animação Enrolados (2010) e Amor, Felicidade ou Casamento (2011).

Nos anos 2010, porém, a carreira de Moore deu uma esfriada. Apesar de alguns projetos na TV, nada decolou. "Eu realmente pensei: 'Acho que é isso'. Talvez tenha tido meu momento, a sorte de ter sucesso quando jovem, e era isso o que o destino guardava para mim", disse Moore numa conversa por telefone comigo.

Foi então que o roteiro de This Is Us, um dos dramas de maior sucesso na TV aberta americana, caiu no colo dela. A produção da série foi aprovada em 2016 e estreou meses depois, virando sucesso imediato no horário nobre.

Moore faz o papel da mãe da família Pearson, Rebecca, que envelhece dos 20 aos 70 anos enquanto a série viaja entre o presente e o passado. Tudo gira em torno do casamento de Rebecca e Jack (Milo Ventimiglia) e a decisão do casal de adotar o menino abandonado Randall (interpretado por Sterling K. Brown, Niles Fitch e Lonnie Chavis). Randall é criado junto com os gêmeos de Rebecca e Jack, Kevin (Justin Harley, Logan Shroyer e Parker Bates) e Kate (Chrissy Metz, Hannah Zeile e Mackenzie Hacsinsak). A dinâmica da família gera muitas discussões sobre paternidade, raça e morte.

Mandy Moore, a ex-princesa do pop, de repente virou uma matriarca.

Conversei com Moore sobre a transição, o nervoso que ela sente só de pensar nas turnês que fez com os Backstreet Boys e a época em que ela quase voltou a estudar – antes de tomar o trono do horário nobre.

Evan Agostini via Getty Images

Como foram as férias de This Is Us? Vi que você escalou o monte Kilimanjaro!

[Risadas] Estou descansada e rejuvenescida depois de uma temporada maluca. É assim que você curte a pausa, fazendo um monte de coisas pessoais. Voltamos [a gravar] em meados de julho, então ainda tenho umas semanas para curtir.

Parabéns pelo sucesso da segunda temporada, ainda mais com as revelações sobre Jack e a morte dele. Foi libertador para você como atriz poder finalmente dividir esse segredo com o público?

Foi muito libertador. Acho que tirou muita pressão. Foi inesperado o interesse das pessoas naquele detalhe [como ele morreu], e sempre tinha um pouco de medo que ia revelar o segredo falando durante o sono.

Como foi finalmente fazer aquele momento da vida de Rebecca?

Como eu sabia que esse momento viria, sentia uma responsabilidade enorme, considerando a importância daquele momento e sabendo que as duas temporadas levavam a ele.

Meio que me isolei do mundo durante aquelas duas semanas, porque foi muito exigente em termos emocionais e físicos. Gravamos muito à noite, então é mais fácil se afastar um pouco, porque você está trabalhando em horários bizarros. Nunca tinha feito nada do tipo, com essa tensão crescente e uma história de família. Estou tão próxima de Milo que realmente pareceu que estava de luto pela morte de alguém. Foi muito bizarro. Uma sensação bem estranha.

Rebecca Pearson é um desses papeis na TV que todo ator ou atriz espera poder fazer. E ele apareceu numa época em que sua carreira estava meio estagnada.

Sem dúvida. Agradeço todos os dias. Acho que todos estamos – ninguém fazia ideia do que iria acontecer. Mas acho que é o vaivém natural na vida de atriz. Às vezes é mais devagar, às vezes é agitado. Antes de receber esse roteiro, nada estava engrenando.

Quer dizer, fiz três ou quatro temporadas piloto, mas nada dava certo. Eu estava... não frustrada, mas maluca porque não sabia se estava fazendo algo errado. Eu realmente pensei: "Acho que é isso". Talvez tenha tido meu momento, a sorte de ter sucesso quando jovem, e era isso o que o destino guardava para mim. Estava pronta para o capítulo seguinte, porque não via nada caminhando na direção certa.

Estava pensando em música, talvez voltar a estudar, e coincidiu que [suspiro] ... eu estava me divorciando [do músico Ryan Adams], minha vida pessoal estava um caos, eu estava desorientada. This Is Us não poderia ter aparecido numa hora melhor. Acho que antes eu não estaria pronta para um projeto dessa magnitude. Acho que não teria a capacidade emocional. Não sei se tinha lugar pra isso na minha vida pessoal. É engraçado que quando comecei a arrumar as outras partes da minha vida, o sol voltou a aparecer e apareceu esse papel. É muito louco como acontecem as coisas.

Esses altos e baixos na carreira são a parte mais difícil de ser cantora ou atriz?

Sim. [Risos] É a parte chata. Você sabe que faz parte, mas acho que na minha vida teve uma fase em que aconteceu tudo de uma vez. A rejeição e o lado pessoal – foi demais para mim. Normalmente – faço isso desde os 15 anos --, estou acostumada a ganhar às vezes, perder às vezes. Isso não costuma me derrubar. Mas naquele ponto eu estava muito confusa. Nesse sentido, acho que estou fazendo o trabalho errado, porque não me considero competitiva e nunca olhei para os outros pensando: "Queria ter aquilo para mim". Acredito que as coisas acontecem por um motivo e que existe espaço para todo mundo. Mas, como atriz, é natural pensar: "Pode ser minha última oportunidade! Melhor aproveitar!"

[Risos] Talvez eu nunca esteja nessa situação de novo.

Acho que antes eu não estaria pronta para um projeto dessa magnitude. Acho que não teria a capacidade emocional. Não sei se tinha lugar pra isso na minha vida pessoal. Mandy Moore

Passar de estrela adolescente a atriz de sucesso não é fácil, mas você conseguiu. Como navegou a transição?

Acho que foi porque não fiz tanto sucesso musicalmente. As pessoas me viam como atriz, não como, por exemplo, Madonna na tela. Pessoas daquela época que fizeram sucesso tiveram mais dificuldade em começar uma outra parte da carreira sem que fossem questionadas. No meu caso, foi ótimo, porque eu queria ser Bette Midler – queria fazer Broadway e música e TV e filmes e passar de um para o outro. A música me deu a liberdade de tentar um pouco de cada.

Você é a mesma Mandy Moore que fez turnê com os Backstreet Boys e o *NSYNC e cresceu como princesa do pop. O que você lembra dessa época?

[Risos] Ai meu Deus. Parece uma vida completamente diferente – não só um capítulo diferente, mas um livro diferente! Lembro de ficar muito empolgada, quase sufocada. Ter sucesso tão nova foi provavelmente melhor para mim, porque hoje eu ficaria sufocada. Acho que hoje eu me questionaria. Quando você é jovem você não tem medo de nada. Eu subia no palco para abrir para os caras diante de milhares de pessoas gritando e não me preocupava. Hoje, ficar diante de uma sala com 100 pessoas me deixa nervosa! Quero voltar e abraçar aquela menina e perguntar: "Qual é o segredo de ser jovem e não ter noção?"

Era um mundo diferente, sem redes sociais e pessoas te seguindo ou documentando tudo o que você faz e o que pensa. Não sei como as pessoas navegam essas águas hoje em dia. É uma indústria difícil, mais do que 15 anos atrás, ou quando eu comecei.

Recentemente conversei com os membros do *NSYNC e eles disseram a mesma coisa – que tiveram a sorte de ser jovens nessa indústria antes das redes sociais.

O mundo é completamente diferente hoje, especialmente no negócio da música. Não era nada parecido quando eu comecei. A influência do rádio, da MTV e dos videoclipes, aquilo determinava o que era hit. Poderia garantir o sucesso da sua carreira ou acabar com ela. Hoje acho que nada mais disso tem importância. As pessoas lançam discos por conta própria, ou lançam um single agora e daqui um ano talvez lancem um disco. Acho que as regras mudaram.

Foi uma época difícil da sua vida?

[Pausa] Boa pergunta. Sinceramente, acho que tinha o melhor dos dois mundos. Ainda era considerada jovem e tinha amigos, ia ao shopping e ao cinema, saía para jantar. Conseguia ter esse lado e ao mesmo tempo vivia num mudo adulto, com responsabilidades de adulto. Tomava decisões próprias, com meus pais e meus agentes, mas sempre tinha a palavra final. Sempre me senti no controle. Nunca fiz nada contra minha vontade. Não sei como tive essa sorte, porque ouvi muitas histórias horríveis. Pude ser adolescente e não acho que tenha perdido muitas coisas da vida normal, considerando o que eu passei naquela época. Era diferente, claro. Não fui ao baile de formatura, não fui aos jogos de futebol americano, não fiz faculdade. Mas acho que estava num caminho diferente e sempre soube disso e aceitei isso.

Você ficou nervosa de deixar a música de lado para ser atriz?

Não. Acho que sabia que a música sempre seria parte da minha vida. Não estava vendendo dezenas de milhões de discos e não estava com problemas em relação à minha imagem, então as engrenagens de uma carreira pop não estavam tão azeitadas para mim, considerando outras meninas com quem me comparavam. E eu realmente queria ser atriz. Cresci fazendo teatro musical e, como eu disse, amava Bette Midler e queria experimentar de tudo. Tive a sorte de as portas se abrirem para mim por causa da música. Fui a audições, participei de reuniões e tive oportunidades que provavelmente não teria se fosse uma menina normal de 15, 16 anos. Então reconheço a sorte que tive. Mas nunca fiquei nervosa, porque sabia que podia voltar para a música. E voltei! Continuei gravando discos por alguns anos. Só que o sucesso veio mais rápido com a carreira de atriz.

Aí o papel em "Enrolados" permitiu juntar os dois mundos.

Mais que isso, ser princesa da Disney foi a realização do meu sonho de criança. É até hoje dos melhores trabalhos que já tive. Foi tão, tão, tão divertido.

Você não ganhou um Grammy por I See The Light?

Não porque não era uma das compositoras, mas Glenn Slater e Alan Menken ganharam. E nos apresentamos no Oscar! Foram vários sonhos realizados por causa daquele filme.

Não estava vendendo dezenas de milhões de discos e não estava com problemas em relação à minha imagem, então as engrenagens de uma carreira pop não estavam tão azeitadas para mim, considerando outras meninas com quem me comparavam.Mandy Moore

Falando em prêmios, os Emmys vêm aí. Como você se prepara mentalmente? Você pensa nessas premiações como reconhecimento?

Se acontecer, aconteceu. Só fico chocada de fazer parte dessa conversa. Nunca pensei nisso quando estava crescendo, e até hoje parece loucura. Vitória é conseguir um trabalho e manter aquele trabalho. O fato de fazer parte de uma série que durou várias temporadas é uma conquista, estatisticamente falando. É muito raro.

Que tal estar em uma série que faz as pessoas chorarem e ficarem felizes ao mesmo tempo?

[Risos] É um presente saber que as pessoas se sentem vivas e ficam emocionadas. O mundo passa por uma época turbulenta. Sentimos orgulho de fazer parte de algo que é positivo e que une as pessoas. Ajuda a nos lembrar que temos coisas em comum e que as diferenças são o que nos torna únicos. É entretenimento incrivelmente esperançoso e catártico. Faltam mais programas desse tipo.

Você acha que esses tempos cheios de ansiedade que estamos vivendo ajudam This Is Us a fazer sucesso, pois a série fala de aborto a morte e a problemas familiares?

Imagino que sim. Timing é tudo na vida, e acho que a série encontrou seu público na hora certa, quando as pessoas vivem com várias emoções conflituosas e precisam de um lugar para guardá-las. Nada melhor que uma hora por semana para olhar a si mesmo e à sua no espelho – fazer para si mesmo as perguntas difíceis. Colocar o dedo na ferida; talvez doa um pouquinho, mas é bom saber que você ainda sente alguma coisa.

Olhando para si mesma, que momentos desses foram importantes para você.

Com certeza penso na minha relação com minha família e meus pais. Os relacionamentos que eu tive, talvez pequenos momentos da vida em que você duvida de si mesmo e se segura – esse tipo de coisa. Você não fica ruminando sobre uma parte específica da vida – é mais olhar um álbum de fotos das experiências que você teve.

Pensando no futuro, o que você gostaria de fazer na série – e fora dela, também?

Estou aberta a tudo. Espero chorar um pouco menos na nova temporada. [Risos] A segunda temporada acabou comigo! E adoraria que a música fosse um fio condutor da série. Adoraria cantar com Chrissy, fazer um dueto com ela em algum momento.

Mas, em termos mais amplos, adoraria fazer um musical na Broadway, talvez a adaptação de algum filme. E queria fazer mais música, gravar outro disco. Ainda quero fazer muitas coisas. Quero uma família e quero ter um bom equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Há um ano você disse que estava trabalhando em outro disco. Você tem músicas prontas?

Sim! Tenho todas as músicas, só preciso ver como e quando, esses detalhes. Acho que a série abriu um novo público que não sabia que eu fazia música, então tenho que aproveitar esse momento!

Esta entrevista foi editada e condensada.

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