COMPORTAMENTO
01/08/2018 19:37 -03 | Atualizado 02/08/2018 13:47 -03

Reação de Neymar é o lembrete de que ainda não aprendemos a falar sobre frustração

"A mensagem mais importante de toda essa história, principalmente para o público mais jovem, é: trabalhe com os seus limites."

Toru Hanai / Reuters

Neymar é fonte de inspiração e orgulho para a nação do futebol, mas a sua participação na Copa do Mundo foi envolvida de controvérsias constantemente pautadas pela imprensa nacional e internacional.

O camisa 10 da seleção terminou o campeonato sem o título de hexa e com sua imagem como atleta prejudicada: não marcou presença entre os 10 melhores do mundo e perdeu espaço no time europeu PSG.

No último domingo (29), Neymar voltou a ser o centro do debate. Isso por que o jogador usou uma propaganda comercial para se pronunciar sobre as reações à sua performance na Rússia.

Neymar tem 26 anos e é dono de um talento inquestionável. Mas o comercial gravado para a marca Gillette foi considerado "desnecessário" para a sua carreira pelo publicitário Washington Olivetto. O fato é: o clipe rendeu ao craque mais um milhão de reais.

"Uma coisa é ser de oportunidade. Outra coisa é ser oportunista. Mas nesse caso não foi nenhuma das duas. Eu julgo que nesse momento a campanha não é necessária no caso dele porque faz relembrar o problema. Ele não precisava dessa campanha", argumentou Olivetto em entrevista à Época.

No texto publicitário, o jogador diz: "Quando pareço malcriado, não é porque sou um moleque mimado, mas porque não aprendi a me frustrar." E continua: "Dentro de mim, ainda existe um menino."

Mas será mesmo que Neymar ainda é um menino?

Segundo a psicóloga Márcia Modesto, falar sobre maturidade e "meninices" não é apenas falar de idade, mas de contextos sócio-econômicos.

"Tem gente que tem 70 anos e continua com comportamentos adolescentes. Tem gente que tem 15 anos e tem responsabilidades de adultos. O que vai caracterizar essa fase é a maturidade, autonomia, impulsividade", explica Modesto em entrevista ao HuffPost Brasil.

Para ela, o vídeo da Gillette vai além do próprio Neymar e nos convida a uma reflexão: por que é tão difícil falar sobre as nossas frustrações?

A mensagem mais importante de toda essa história, principalmente para o público mais jovem, é: trabalhe com os seus limites. Não reconhecê-los faz com que você se atropele e perca sua força pessoal. A única forma de nós nos fortalecermos na sociedade, em nossa relação com o outro, é sabermos os nossos limites. Até onde eu posso ir, o que eu estou preparado para encarar e como eu devo proceder diante de minhas responsabilidades.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Márcia Modesto, psicóloga e autora do livro Reflexões e experiências entre quatro paredes, reflete sobre culpa, responsabilidade e limites.

HuffPost Brasil: Alguns psicólogos defendem que a "nova adolescência" vai até os 24 anos. Em sua justificativa, Neymar argumenta que "é só um garoto". Como lidar com a cobrança por maturidade de um jogador com 26 anos? A idade ainda serve de justificativa para ele?

Márcia Modesto: Essa questão de definir a adolescência até os 24 anos tem a ver com questões sócio-culturais. Também está ligado a ideia da geração dos filhos que não saem da casa dos pais e que ainda mantém uma relação de dependência econômica após os 20 e poucos anos. Antes, a adolescência era finalizada nos 21 anos no máximo, e ali começava a entrada na idade adulta.

Essa relação da idade com a entrada na vida adulta é também uma quesão social. Um jovem que mora na comunidade não pode se dar ao luxo de se privar de trabalhar, por exemplo. Se você tem menos recursos, é como se o mundo adulto chegasse mais rápido para você. Então, não tem muito como cravar uma idade para o fim da adolescência. Tem gente que tem 70 anos e continua com comportamentos adolescentes. Tem gente que tem 15 e tem responsabilidades de adultos. O que vai caracterizar essa fase é a maturidade, autonomia, impulsividade.

No caso do Neymar, me chamou muito a atenção a parte em que ele diz que ele não é um moleque malcriado, mas que ele não sabe encarar a frustração.

A frustração é a noção do seu próprio limite. É a ideia de até onde eu posso ir, quais são os meus recursos. E isso é uma questão de maturidade. Uma criança, por exemplo, não sabe lidar com a frustração. Você diz um "não" e ela faz birra.

Se o Neymar diz que a frustração não existe para ele, o que ele quer dizer é que ele não está maduro o suficiente. Mas veja, ninguém tem tudo o que quer o tempo todo. Essa polêmica em torno do jogador nos faz questionar até que ponto nós sabemos lidar com os limites que a realidade nos oferece.

Essa dificuldade de lidar com os erros, com a autonomia, com o poder e com o controle tem muito a ver com a estrutura de vida que nos foi oferecida, seja por nossa família ou por outros contextos. Se eu tenho pais que estão sempre me oferecendo todas as possibilidades do mundo, eu vou me sentir o rei do mundo. Mas se eu sofro muitas penalizações, eu tenho medo, eu não tenho confiança. O meio termo disso é extremamente importante.

No caso específico do Neymar, tem o fato de que ele veio de uma família humilde. E ele chegou a um grau de poder muito rapidamente, com muito dinheiro e muita exposição. Isso acumula nele um sentimento de autoimportância exacerbado aliado a uma falta de preparo para lidar com essas responsabilidades.

É clichê, mas é importante manter o pé no chão e a humildade. Mas até que ponto esses jovens que chegam ao poder rapidamente, como ele, a um status social desse tamanho, até que ponto eles estão preparados? Entende? A questão é: como se preparar para lidar com situações de extremo poder e também de extrema responsabilidade. Uma coisa vem junto com a outra.

Estamos falando dele, mas também de toda uma geração que tem muita dificuldade de lidar com as restrições. Hoje em dia nós temos um grau de possibilidades muito maior do que o que tinhamos antigamente.

As redes sociais impactam isso. Elas nos levam a crer que todo mundo tem que ter uma opinião formada ou que qualquer pessoa pode dizer o que quiser. Há uma falta de limite nas relações também porque nós saímos de uma vida que era totalmente privada para uma vida totalmente compartilhada.

Eu me espanto com o nível de exposição que as pessoas naturalizam hoje em dia. É o máximo da falta de limites. Essas questões que estamos vivendo, e que bombardeiam os jovens, tem muito a ver com a exposição. Nós temos um contexto social propício para que a gente não lide com as frustrações, porque é um contexto "do eu posso tudo", eu posso dizer tudo, eu posso expor tudo.

Ao não sabermos lidar com as nosssas frustações, isso também afeta a nossa proatividade em admitir falhas? Não seria mais fácil o Neymar apenas ter pedido desculpas?

A palavra desculpa significa tirar a culpa. Mas será que ele se sente culpado de algo? Ele se considera o rei. E é nesse ponto que a frustração dele arranha em seu narcisismo. Ele queria ser o melhor da Copa, mas saiu super criticado.

Pedir desculpas é reconhecer a sua culpa. Se ele não lida com a frustração, ele não lida com o que há de errado naquele contexto. Assim como o Neymar, as pessoas que ocupam um lugar de poder tendem a não perceber os seus atos que precisam ser reavaliados.

Eu não sei se o Neymar deveria ter pedido desculpas, mas talvez ele precisasse olhar para si mesmo e dizer: Poxa, eu não tive a melhor perfomance, estou frustrado. E tudo bem, mas preciso lidar com isso.

O que toda essa discussão sobre o comportamento do Neymar pode nos ensinar?

O que mais atrapalha o ser humano é o orgulho, a falta de humildade. Ser humilde não é ser submisso. Ser humilde e reconhecer as suas limitações. E o Neymar não fez isso.

A mensagem mais importante de toda essa história, principalmente para o público mais jovem, é: trabalhe com os seus limites. Não reconhecê-los faz com que você se atropele e perca sua força pessoal. A única forma de nós nos fortalecermos na sociedade, em nossa relação com o outro, é sabermos os nossos limites. Até onde eu posso ir, o que eu estou preparado para encarar e como eu devo proceder diante de minhas responsabilidades.