01/08/2018 11:54 -03 | Atualizado 01/08/2018 11:56 -03

Juliana Cardoso: A artesã de Copacabana que curou a depressão com a 'brincoterapia'

Com trabalhos formais, carioca de 26 anos não tinha tempo para cuidar de si mesma. Por isso, abraçou o artesanato como ganha-pão nas ruas de Copacabana.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Juliana Cardoso é a 146ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra mulheres 365 dias no HuffPost Brasil.

É difícil passar pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, altura do número 600, e ignorar a moça de cabelos crespos cheios e sorriso largo que trabalha por ali. Muito pela simpatia, mas principalmente pela qualidade das peças que ela vende, a todo minuto param estrangeiros e brasileiros, jovens e idosos, mulheres e homens para admirar e, melhor ainda, comprar os brincos, cordões e anéis vendidos por Juliana Cardoso, 26.

As peças pintadas a mão são vendidas nas calçadas do bairro mais famoso do Brasil, e é delas que sai o sustento da artesã e seu filho há pelo menos 3 anos. Mas o principal ganho de Juliana é a saúde mental: mais que vender brincos, ela pratica "brincoterapia".

Quando fez o primeiro brinco, Juliana não tinha interesse de transformar aquela atividade no seu ganha-pão. A reviravolta na sua vida ela define como "engraçada e séria". Tudo começou quando ela queria um acessório diferente e "empoderado" para ir a um baile charme, bem comum no Rio, mas não achava nas lojas nada que fosse como ela realmente imaginava. Coube a ela mesma aprender e confeccionar seu próprio acessório para compor a produção que imaginou usar no baile.

Valda Nogueira/Especial para HuffPost Brasil
Juliana Cardoso já foi babá e trabalhou em sorveteria, recepção e loja de jóias.

Mal sabia ela que aquela teimosia pelo brinco ideal mudaria a sua vida. "Desde sempre", Juliana trabalhou: primeiro como babá, depois na sorveteria do tio descascando frutas, e até numa rede de fast-food.

"Trabalhei também como recepcionista e auxiliar administrativa, mas nenhum trabalho explorava meu melhor e minha criatividade. E era sempre uma regra de trabalhar para ganhar dinheiro, e nunca nada que me permitisse crescer", relata.

Mesmo com todas as dificuldades, a artesã conseguiu conduzir a sua vida profissional até chegar a um limite. No seu último emprego formal, em uma loja de jóias, ela desenvolveu um quadro de depressão severa. "Meu chefe era muito arrogante, a pressão era como eu nunca tive na vida. Então eu comecei a não querer mais aquilo para a minha vida: trabalhar 12 horas por dias, sábado, domingo, feriado, ano-novo, Natal... Eu não tinha mais tempo para nada."

Nenhum trabalho explorava meu melhor e minha criatividade.

Esta é a parte séria do seu caminho rumo ao artesanato. Diagnosticada com depressão, a carioca não conseguia mais desenvolver o seu trabalho. Resolveu ser sua patroa; antes de decidir-se pelos brincos, pensou em vender saladas. Mas aquela felicidade que sentiu ao confeccionar o brinco "empoderado" para o baile charme nunca saiu da sua cabeça. Cismada com essa lacuna no mercado, ela uniu o útil ao agradável.

"Eu precisava trabalhar com alguma coisa que eu pudesse cuidar mais do meu filho e de mim. Quando ele saía da escola, não tinha com quem deixar. Quando ele ficava doente, não podia cuidar. Então eu pensei: vou juntar as duas coisas. Queria levar esse empoderamento para as mulheres negras, e para mim também, e ao mesmo tempo poder trabalhar com uma coisa que eu pudesse ter mais tempo para mim, para o meu lar, minha casa e meu filho", afirma ela à reportagem do HuffPost Brasil.

Valda Nogueira/Especial para HuffPost Brasil
A trajetória das mulheres negras é uma inspiração para os trabalhos de Juliana Cardoso.

Quando eu estou pintando, a minha mente fica focada só no brinco.

Hoje, ela tem tempo para buscar o filho Isaac, de 10 anos, na aula de futebol e levá-lo a consultas médicas. Mas o principal ganho é o cuidado com ela mesma. Ainda com acompanhamento de psicólogos, Juliana confessa que o artesanato tem papel fundamental na sua recuperação.

"É a brincoterapia. Quando eu estou pintando, a minha mente fica focada só no brinco. O mundo pode estar acabando, alguém morrendo do meu lado, que eu não vejo nada, só penso em pintar", conta.

Foi com esse processo de aliar trabalho a autocuidado que Juliana conquistou as ruas de Copacabana. Os brincos mais vendidos são aqueles que exaltam a beleza da mulher negra, com foco nos traços do cabelo crespo, ou expressões de empoderamento popularizadas na internet, como "diva". A inspiração, Juliana reconhece, vem de mulheres negras como ela.

"Mulheres brancas às vezes questionam se não tem brinco para elas, mas não é isso. Qualquer um pode comprar, mas a minha inspiração vem da mulher negra. A história da mulher negra me emociona muito, e é muito admirável. Então eu quero levar a história dessa mulher negra nos brincos", analisa.

Valda Nogueira/Especial para HuffPost Brasil
Juliana Cardoso organiza suas peças de artesanato na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, seu ponto de trabalho.

Eu faço o que eu gosto, então não me importo com o mau humor das pessoas.

E nas ruas ela vê o impacto do seu trabalho, e a recompensa que não abre mão: a felicidade das suas clientes.

"Eu me sinto muito satisfeita [quando elas ficam felizes], porque ainda falta um pouco a mulher negra se ver nessas peças e se acostumar que existem acessórios e roupas feitos para ela. A gente entra nas lojas e tem que se adequar ao padrão branco. Então quando elas se reconhecem, eu reforço: isso, é feito para você!", diz ela com um sorriso orgulhoso no rosto.

A felicidade de trabalhar nas ruas às vezes esbarra num cliente mal-educado, que nem sequer responde ao desejo de bom-dia de Juliana (inclusive na presença da reportagem), mas ela não se abala.

"Eu faço o que eu gosto, então não me importo com o mau humor das pessoas. Seria diferente, talvez, se eu trabalhasse numa loja, numa coisa que eu não gosto."

Depois de alcançar a liberdade financeira com o próprio artesanato, Juliana não deixou de sonhar: seu próximo desejo é abrir uma loja fixa, no futuro, com diferentes acessórios e peças de vestuário para a mulher negra. Depois disso, terminar uma graduação em Direito. Ela brinca que vai fazer a faculdade com o próprio filho, mas não tem pressa: desde que haja felicidade e consciência tranquila, tudo se ajeita.

Valda Nogueira/Especial para HuffPost Brasil
Juliana Cardoso agora sonha com abrir uma loja fixa de artesanatos e planeja concluir graduação em Direito.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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