COMPORTAMENTO
01/08/2018 17:57 -03 | Atualizado 01/08/2018 17:57 -03

A internação de Demi Lovato é um lembrete de que o vício é uma doença séria

A cantora é mais um exemplo desse problema de saúde crônico.

Axelle/Bauer-Griffin via Getty Images

Demi Lovato foi levada às pressas para um hospital na terça-feira, supostamente por causa de uma overdose de drogas. Um mês antes, Lovato tinha revelado sua experiência com o vício no single "Sober" (sóbria). Na música, Lovato diz que teve uma recaída. Depois de sua internação, sua equipe divulgou um comunicado afirmando que a cantora está em estado estável e que "sua recuperação é a coisa mais importante agora".

A experiência de Lovato é um lembrete de que a recuperação do abuso de substâncias, uma doença crônica como tantas outras, pode ser um processo que leva a vida toda – e que pode incluir recaídas.

Pesquisas mostram que o índice de recaídas de pessoas que convivem com o vício fica entre 40% e 60% , o que é comparável com os índices de recaídas de pessoas que sofrem de diabetes, hipertensão e asma. A diferença? O estigma em torno do vício leva muita gente a achar que a recaída é uma falha de cárater.

Mas... alerta de spoiler: não é. As recaídas são devastadoras e dolorosas – e precisam de cuidados e tratamento --, mas os especialistas afirmam que elas não são sinal de fraqueza nem de problemas de caráter.

"Problemas de abuso de substâncias são doenças crônicas do cérebro causados por características biológicas e genéticas que estão essencialmente fora do controle da pessoa, além de fatores ambientais sobre os quais a pessoa tem somente controle parcial", diz Andrew Saxon, presidente do conselho da área de psiquiatria do vício da Associação Psiquiátrica Americana. "A moral não entra nessa equação de maneira nenhuma.

"Problemas de abuso de substâncias são doenças crônicas do cérebro. A moral não entra nessa equação de maneira nenhuma."Andrew Saxon, presidente do conselho da área de psiquiatria do vício da Associação Psiquiátrica Americana.

Além disso, assim como o câncer ou outras doenças, o vício não discrimina suas vítimas. A doença pode afetar pessoas de qualquer recorte demográfico, o que também derruba o mito de que o vício só acomete pessoas fracassadas, diz Jamison Monroe Jr., fundador e CEO da Newport Academy, um centro de tratamento de jovens que enfrentam o vício.

"O vício pode acontecer com qualquer um. Ricos e famosos, adolescentes de boas famílias, pais e todo mundo aí no meio. Ninguém está imune", diz Monroe. "Viver com o vício não faz de você uma pessoa 'ruim', e recaídas não significam que você seja fraco."

Ajudando quem corre risco

Entender que o vício é uma doença como qualquer outra é essencial, mas as pessoas próximas podem fazer mais que simplesmente dar apoio. Ter compaixão em silêncio não é suficiente. É preciso estar presente.

"Estudos mostram que a propensão ao relapso diminui quando as pessoas têm acesso a uma rede de apoio e mais capacidade de lidar com o problema", diz Monroe. "A recaída pode ser indicação de que a pessoa em recuperação precisa de mais apoio para manter-se sóbria."

Se você conhece alguém que lida com o vício e tem potencial de sofrer recaídas, veja como ajudá-lo:

Reafirme para a pessoa que ela não tem culpa.

O vício não define ninguém. "Quem tem problemas precisa de apoio e afirmações de que o comportamento que é parte do abuso de substâncias representa a doença, não a pessoa", diz Saxon.

Ressalte que você não está julgando a pessoa por causa da doença.

Pesquisas mostram que o estigma impede as pessoas de procurar ajuda. "Deixe claro que você não está decepcionado com elas e que você está lá para oferecer apoio durante a jornada", diz Monroe.

"Mantenha o otimismo se ocorrerem recaídas", continua ele. "Deixe claro para a pessoa que você acredita na capacidade dela de manter-se sóbria e viver livre das drogas."

Incentive a busca por tratamento.

O vício não é um problema agudo como uma gripe. É preciso fazer esforço contínuo para manter-se nos trilhos da recuperação. O apoio pode ser uma "mensagem constante de que tratamento pode ser necessário", diz Saxon.

"O tratamento do vício não é uma solução pontual, mas sim uma parte da vida de recuperação", diz Monroe.

Inclua as pessoas na sua rotina.

As parcerias são poderosas. "Se você tem hábitos saudáveis, convide-as para acompanhá-lo em parte de sua rotina, seja indo à academia regularmente, caminhando, comendo bem ou fazendo ioga", afirma Monroe.

Procure apoio para você também.

Não se esqueça de que a sua saúde mental também é importante. "Os parentes podem se beneficiar de grupos de ajuda, porque os membros da família também precisam de apoio", diz Saxon.

Celebre as pessoas que falam abertamente de problemas de saúde mental.

Tirar conclusões sobre o vício ou recaída de uma pessoa ou questionar histórias de recuperação não ajuda ninguém, diz Monroe.

"Em vez disso, deixe que as pessoas falem sobre suas experiências. Isso ajuda a reduzir o estigma", explica ele.

"É importante que pessoas públicas como Demi Lovato continuem a falar sobre suas experiências, boas ou ruins", acrescenta Monroe. "Elas deixam claro que o abuso de substâncias é complicado, que ele afeta todo tipo de pessoa e que recaídas acontecem. Diminuir o estigma em torno da dependência e das questões de saúde mental é extremamente importante para fazer mudanças na sociedade."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.